Donald Trump em conferência em Mar-a-Lago
Donald Trump em conferência em Mar-a-LagoNICOLE COMBEAU / POOL

Venezuela. Trump deixa dúvidas sobre a mudança de regime, expõe planos para a exploração de petróleo e avisa outros países da região

Os principais destaques da conferência de Donald Trump após a operação especial norte-americana na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro e da sua mulher.
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Dúvidas sobre a mudança de regime

Sem qualquer menção a eleições, Donald Trump anunciou que a Venezuela será governada, numa fase inicial, por um “grupo de pessoas” sob orientação dos EUA até ser possível garantir uma “transição segura, adequada e criteriosa”. Questionado sobre quem integrará esse núcleo de poder, o presidente norte-americano apontou para contactos diretos do secretário de Estado, Marco Rubio, com Delcy Rodríguez, vice-presidente de Nicolás Maduro e até aqui uma das figuras mais leais do regime.

Segundo Trump, Rodríguez terá manifestado disponibilidade para fazer “o que quer que os EUA peçam”, uma afirmação que surpreendeu analistas e membros da oposição venezuelana, dado o histórico de defesa cerrada do chavismo por parte de Delcy Rodríguez e do seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. O que deixa dúvidas sobre se a operação norte-americana visou uma efetiva mudança de regime ou apenas a deposição de Maduro e controlo do país.

A própria vice-presidente foi a primeira responsável a reagir publicamente após os ataques norte-americanos, exigindo provas de vida de Maduro e da mulher, numa mensagem áudio que alimentou rumores sobre a sua eventual saída do país para a Rússia, o que foi negado por Moscovo.

Delcy Rodríguez dificilmente será vista, no entanto, como um rosto de mudança real pelos venezuelanos e ela própria veio já falar na TV estatal, depois da conferência de Trump, a pedir a libertação de Maduro, “o único presidente do país”.

Quem Trump parece descartar é a líder da oposição na Venezuela, María Corina Machado. O presidente norte-americano  manifestou dúvidas sobre a capacidade da Nobel da Paz para liderar o país. "Ela não tem apoio suficiente dentro do país, não tem respeito suficiente dentro do país", considerou o presidente dos Estados Unidos, sem qualquer menção também ao nome de Edmundo González Urrutia, o candidato da oposição a Maduro que reclamou a vitória nas Presidenciais venezuelanas em 2024 e que Corina Machado veio já defender como a solução para a transição de regime.

Donald Trump em conferência em Mar-a-Lago
"O problema é que isto é uma cúpula, não é só chegar e tirar Maduro"

Empresas americanas vão gerir o petróleo

O petróleo esteve no centro da solução apresentada por Donald Trump para o futuro imediato da Venezuela. O presidente norte-americano defendeu a entrada de empresas petrolíferas dos EUA no país, não só para explorar crude, mas também para recuperar uma infraestrutura que descreveu como profundamente degradada. “As empresas vão entrar, investir dinheiro e começar a gerar riqueza para o país”, afirmou, garantindo que esse processo beneficiará diretamente os venezuelanos.

Trump falou mesmo numa “parceria” entre Washington e Caracas, que, segundo ele, tornará os venezuelanos “ricos, independentes e seguros”. Assegurou ainda que a gestão da Venezuela não terá custos para os Estados Unidos, uma vez que “o dinheiro que sai do chão é muito substancial”, numa referência às vastas reservas de petróleo do país.

 “Vamos ser reembolsados por tudo o que gastarmos. E, francamente, é petróleo que devíamos ter recuperado há muito tempo”, declarou Trump, que admitiu ainda que os EUA passarão a vender petróleo venezuelano a outros países, “em quantidades muito maiores” do que até agora.

A ameaça de novos ataques e tropas no terreno

Donald Trump deixou claro que a intervenção norte-americana na Venezuela poderá não ficar por aqui e que, caso a situação o exija, os Estados Unidos estão preparados para avançar com um segundo ataque, “muito maior”. Trump disse que essa nova vaga de ataques já estava prevista, mas acabou por ser suspensa por agora, uma vez que esta primeira operação foi considerada “suficiente”.

Sobre um eventual envolvimento militar direto no terreno, Trump respondeu sem rodeios: “Não temos medo de ‘boots on the ground’ (botas no terreno), se for necessário.” E sublinhou que já houve presença militar norte-americana em solo venezuelano nesta operação de captura de Nicolás Maduro e da sua mulher. “Tivemos tropas no terreno na noite passada, a um nível muito elevado”, afirmou.

Donald Trump em conferência em Mar-a-Lago
Força Delta, a unidade de elite que capturou Maduro, Saddam e Noriega

Maduro julgado por narcoterrorismo em Nova Iorque

Donald Trump referiu-se a Maduro como um “ditador ilegítimo” e confirmou que o presidente venezuelano e a mulher foram levados para Nova Iorque, onde enfrentarão a Justiça norte-americana. A procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, anunciou que ambos serão julgados por acusações relacionadas com terrorismo e tráfico de droga, sublinhando que “enfrentarão a Justiça americana em solo americano e em tribunais americanos”.

Segundo a acusação, divulgada posteriormente, Maduro, por cuja captura os EUA ofereciam uma recompensa de 50 milhões de dólares, liderou durante décadas um “governo corrupto e ilegítimo” que utilizou o aparelho do Estado para proteger e promover o narcotráfico, beneficiando uma elite política e militar. O documento judicial, com 25 páginas, estende as acusações à mulher, Cilia Flores, também capturada nesta operação, e ao filho mais velho do casal, Nicolás Ernesto Maduro Guerra, conhecido como “Nicolasito”.

Donald Trump em conferência em Mar-a-Lago
Estados Unidos querem julgar Nicolás Maduro por tráfico de droga e terrorismo

Avisos diretos a outros países da região

A conferência de imprensa também contemplou recados claros e duros para outros países da América Latina. Donald Trump deixou avisos explícitos a Cuba e à Colômbia, enquadrando a intervenção na Venezuela numa estratégia mais ampla de reafirmação da influência norte-americana na região. O objetivo, disse, é “rodearmo-nos de estabilidade” e reforçar o “poder americano no nosso espaço regional”.

Sobre Cuba, Trump afirmou que Havana “está a falhar” e que mais cedo ou mais tarde Washington terá de “atuar sobre isso”. Ao seu lado, o secretário de Estado Marco Rubio, filho de exilados cubanos, reforçou o tom de aviso: “Quando o presidente fala, deve ser levado a sério.” E deixou uma mensagem direta: “Se eu vivesse em Havana e fizesse parte do governo, estaria preocupado.”

Também agressivo foi o discurso em relação à Colômbia e ao seu presidente, Gustavo Petro. Trump acusou o líder colombiano de estar ligado à produção de cocaína e ao envio de droga para os Estados Unidos. “Ele está a fazer cocaína. Estão a enviá-la para os EUA. Por isso, ele tem de ter cuidado”.

As declarações sublinham que a queda de Maduro pode não ser um episódio isolado, mas o início de uma nova fase de pressão e reposicionamento estratégico dos Estados Unidos em toda a América Latina.

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