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"O problema é que isto é uma cúpula, não é só chegar e tirar Maduro"

Christian Höhn, presidente da Associação Civil de Venezuelanos em Lisboa -- Venexos, não exclui que Maduro possa ter negociado a sua saída com Trump e explica o silêncio da líder da oposição.
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Está em contacto com vários venezuelanos em Caracas. O que lhe dizem sobre o que está a acontecer?

Neste momento é uma situação de calma, não há polícias nas ruas, não há militares nas ruas. Estive a falar com várias pessoas lá e as pessoas desde as suas janelas em Caracas não veem nada. A ideia que se está a passar é para as pessoas não saírem à rua, para ver o que acontece nas próximas horas. Estamos à espera das declarações de Trump e das declarações do regime. Porque neste momento não se sabe quem é o presidente da Venezuela. Neste momento não sabemos quem está ao comando. E esta preocupação toda está no ar. Foi um ataque cirúrgico. Não foi um ataque militar terrestre com força. Nós tínhamos muito medo que isso acontecesse, porque sabíamos que se os marines entrassem na Venezuela podia haver muitos mortos.

O presidente norte-americano, Donald Trump, tinha oferecido uma saída a Maduro, acha que pode ter sido negociado?

Ontem [sexta-feira, 2 de janeiro] surgiu um vídeo de Maduro, dele a conduzir um carro, em que muda totalmente o seu discurso e diz que está disponível para negociar, para que os EUA entrem com as suas empresas na Venezuela. Foi um discurso de 'estou aqui para negociar e para que vocês possam fazer aqui negócios'. Ele muda totalmente o discurso em 48 horas. E obviamente para nós parece muito estranho existir este discurso ontem e acontecer isto hoje. Por isso acreditamos que pode haver havido aqui uma negociação para ser ele retirado. A questão é o que foi negociado, o que vem agora, o que é que vai acontecer, quem vai ficar. O regime vai cair ou não.

Essa era a minha próxima pergunta. Acha que esta é a queda do regime ou apenas a queda de Maduro?

Eu digo sempre que Maduro não passa de uma marioneta. O Maduro é controlado por um regime, por um cartel de droga. Nós temos aqui gente muito poderosa. Que é o caso de Diosdado Cabello [ministro do Interior e da Justiça] e Padrino López [o ministro das Forças Armadas], que já falou na televisão a dizer que ativava todas as forças militares venezuelanas para defender o país. O problema é que isto é uma cúpula, não é só chegar e tirar o Maduro. O problema é o resto da cúpula, que está lá.

E estranha ainda não ter havido nenhuma reação, pelo menos nas redes sociais, nem da líder da oposição, María Corina Machado, nem de Edmundo González, que muitos, incluindo os EUA, consideram o presidente eleito?

Neste momento, é preciso ter muito cuidado com aquilo que se fala. Tem que haver muita cautela. Nós temos que ter noção que nós estamos a favor de uma queda do regime, estamos a favor do que está a acontecer, mas não deixa de ser uma violação dos direitos internacionais. É preciso ter muita noção disto. Temos um país terceiro que ataca outro país, não sabemos ainda se Trump pediu ou não autorização ao Congresso dos EUA, mas o facto é que é uma violação clara do direito internacional. Então, neste momento, todas as pessoas que têm uma responsabilidade política sobre o país, que é o caso do Edmundo González, que é o nosso presidente real, e o caso da María Corina, as coisas têm que ser analisadas com muita calma. E sobretudo ter em atenção que pode haver um comentário que seja feito que possa levar a que as pessoas saiam à rua. E isso é o que está a tentar evitar. Neste momento nós precisamos saber primeiro em que posição estamos. Porque uma coisa, vamos dizer assim simbolicamente, estão aqui as chaves da Assembleia, agora vens tu. Mas nós sabemos que os tribunais em Venezuela pertencem ao madurismo, todas as forças institucionais pertencem ao madurismo. Não é só chegar e tirar Maduro. Há uma rede muito vasta de pessoas que estão lá. O apelo que surgiu da Venezuela e também surge de nosso lado, a comunidade internacional venezuelana, é que os militares aproveitem esta oportunidade para se revoltar. Que tomem Caracas pacificamente. Eu digo sempre que nós precisamos do nosso 25 de Abril, que é muito importante, mas sobretudo pacificamente.

Temos que estar então atentos nas próximas horas às declarações do regime, às declarações de Trump e à ação dos militares.

Isso vai fazer toda a diferença. Porque realmente se o Padrino López manda os militares sair para fazer o que for e os militares dizem que não, então temos garantido que o regime cai. Estamos à espera disso, mas ainda é tudo muito recente, foi durante a madrugada, a maioria do país estava a dormir. As coisas neste momento estão calmas, muita gente pensou que haveria logo militares nas ruas, tiroteios, saques e isso não aconteceu.

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