Vista dos prédios que faziam parte do programa de habitação social do falecido presidente Hugo Chávez, destruídos em La Guaira após os terramotos que devastaram a Venezuela na semana passada. Há já 71 portugueses ou lusodescendentes entre as vítimas mortais.
Vista dos prédios que faziam parte do programa de habitação social do falecido presidente Hugo Chávez, destruídos em La Guaira após os terramotos que devastaram a Venezuela na semana passada. Há já 71 portugueses ou lusodescendentes entre as vítimas mortais.EPA/MIGUEL GUTIERREZ

Venezuela. Número de portugueses ou lusodescendentes mortos nos sismos sobe para 71

Há também ainda 71 desaparecidos, segundo o mais recente balanço divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros
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O número de portugueses e lusodescendentes mortos devido aos sismos na Venezuela subiu para 71, havendo ainda 71 desaparecidos, segundo o mais recente balanço divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), nesta quarta-feira (1 de julho).

De acordo com o MNE, entre os 71 mortos, 61 dos quais tinham também nacionalidade venezuelana, estão 11 crianças e 60 adultos.

O anterior balanço dava conta de 68 portugueses e lusodescendentes entre as vítimas mortais do duplo sismo que atingiu a Venezuela no dia 24.

A situação em La Guaira apresenta-se bastante caótica, com portugueses e luso-venezuelanos a tentar saber o paradeiro de familiares daquela cidade que sobreviveram ao duplo sismo na Venezuela, mas que entretanto foram levados para centros de acolhimento locais e em Caracas.

“Sim foram resgatados. Há uma grande desorganização aqui. Estão a levá-los para um sítio, depois transferem-nos para outro e não se conseguem localizar os familiares”, disse à Lusa um membro da direção do Centro Luso-Venezuelano de Cátia La Mar (CLVCM).

Freddy de Quintal, tesoureiro do CLVCM, explicou ainda que ele próprio tem um sobrinho que sobreviveu, precisando que este estava na igreja, porque faria a primeira-comunhão.

“Tenho um sobrinho cuja mãe morreu; o edifício ruiu e ele estava na igreja porque ia fazer a comunhão. Temos andado à procura dele, tinham-no enviado para o campo de golfe em Caribe, esteve lá porque aparece no registo, mas não sabem para onde o enviaram”, disse.

Freddy de Quintal explicou ainda que soube através da Internet que o sobrinho estaria no Centro Desportivo de La Guaira, para onde se dirigiu para o encontrar, mas sem sucesso.

“Chegamos lá e não estava. Está desaparecido, não o encontramos em lado nenhum. Estamos muito angustiados porque o pai está na Madeira e a mãe estava aqui. Eles já tinham comprado os bilhetes para regressarem de uma vez por todas para lá viver (…). A esposa faleceu e não conseguimos encontrar o filho. Estamos à procura aqui na Guaira, em Caracas, por todo o lado”, frisou.

O dirigente do CLVCM lamentou que as autoridades tenham encerrado a autoestrada que liga a cidade de Caracas àquele estado.

“É um problema, a autoestrada está bloqueada neste momento, não deixam ninguém passar, exceto quem tenha um salvo-conduto. É duro, é mesmo duro o que estamos a viver aqui”, disse.

Explicou ainda que esteve na localidade de Playa Grande, uma das áreas afetadas de La Guaira, e que está irreconhecível, a tal ponto que as pessoas se desorientam.

“Conheço bem Playa Grande, e de repente estando lá não sabia onde estava. Porque, por todo o lado, tudo desabou, grandes edifícios desabaram (...) completamente. Tive de perguntar às pessoas onde estava porque não sabia, de tão irreconhecível que está Playa Grande”, frisou.

Este luso-venezuelano explicou à Lusa que o duplo sismo foi ainda mais devastador que as enxurradas de 1999, que provocaram muitas vítimas, entre elas portugueses.

“Isto foi pior do que essa tragédia, porque durou apenas um segundo e tudo desabou. A tragédia [enxurradas] durou uma noite inteira e, quando acordámos de manhã, estava tudo destruído. Mas isto durou apenas um segundo, foi horrível, horrível”, disse.

Sobre o Centro Luso-venezuelano de Cátia La Mar, explicou que sofreu danos estruturais consideráveis.

“Na parte de cima, tínhamos a sala onde se davam aulas de português. As suas salas desabaram, tudo caiu. Na parte de baixo, o restaurante onde os portugueses passam o tempo, está tudo rachado, praticamente (...) destruído”, disse.

Explicou ainda que não houve vítimas porque o sismo duplo decorreu num dia feriado.

No entanto, disse, em La Guaira ainda não há números totais, mas morreram milhares de pessoas, entre elas mais de 20 associados do CLVCM, incluindo o vice-presidente.

Governo venezuelano agradece solidariedade de Portugal

A Venezuela agradeceu esta quarta-feira a solidariedade e rápida resposta de Portugal, que enviou ajuda humanitária e uma equipa de salvamento, parte da qual trabalha, desde as 11:00 de segunda-feira (locais), no resgate de um sobrevivente em La Guaira.

“Nestas horas, precisamente no meio de um processo de resgate de uma pessoa que ainda se encontra viva, (…) agradecer especialmente o apoio de Portugal nestes momentos difíceis para o povo venezuelano”, disse à Lusa o vice-ministro das Relações Exteriores para a Europa e América do Norte.

Oliver Blanco explicou que, assim que aconteceu o duplo sismo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal contactou o Governo "para manifestar o interesse em enviar um grupo de quase 70 pessoas que têm estado lado a lado com as autoridades venezuelanas responsáveis pela resposta a esta situação e com as do resto do mundo, juntamente com já 30 países, para gerar fé e esperança e prestar assistência ao povo venezuelano nestes momentos de tanto sofrimento e de tantas dificuldades”.

“Portugal também enviou ajuda humanitária, aproximadamente 17 toneladas e, mais uma vez, não podemos deixar de agradecer ao Governo de Portugal, à equipa de resgate de Lisboa e a todos os grupos de intervenção que se deslocaram à Venezuela de forma praticamente imediata, o que reafirma, além disso, os laços de fraternidade e solidariedade entre os nossos países”, disse.

O vice-ministro venezuelano sublinhou que as autoridades locais estão conscientes também da solidariedade da comunidade lusa local.

Em horas difíceis para os nossos povos, sabemos que também a comunidade portuguesa está muito integrada na Venezuela. Historicamente, tem feito parte da construção do país e, hoje, está connosco a recolher os escombros e a estender-nos as mãos num momento comovente e difícil para todos os venezuelanos”, acrescentou.

Sete operacionais portugueses estão envolvidos, desde segunda-feira, no resgate de um segurança de um estabelecimento comercial em Playa Grande, La Guaira.

O duplo sismo que atingiu a Venezuela na passada quarta-feira provocou 1.943 mortos e 10.571 feridos, segundo o último balanço oficial divulgado pelas autoridades venezuelanas.

Os dados oficiais indicam também acima de 15 mil desalojados, informou o presidente do parlamento, Jorge Rodríguez, atualizando o último balanço de vítimas, que era de 1.719 mortos e 5.034 feridos.

De acordo com as autoridades, 6.461 pessoas foram resgatadas desde o início das operações de socorro.

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