Numa altura em que o tempo passa e cresce o descontentamento em La Guaira pela falta de maquinaria pesada para ajudar a procurar por sobreviventes do duplo sismo de há quase uma semana na Venezuela, a frustração encontra um alvo: a presidente interina Delcy Rodríguez. A sucessora de Nicolás Maduro, consagrada por Washington após a captura deste a 3 de janeiro, tem em risco o seu futuro político na resposta à tragédia de 24 de junho. Mas não é a única: também o destino de María Corina Machado está ligado à capacidade que terá de capitalizar o desagrado contra o regime. Depois de ter sido criticada por, no domingo (28 de junho), desviar socorristas dos trabalhos de resgate para agradecer-lhes publicamente “em nome do povo venezuelano” pelos seus esforços, Delcy Rodríguez quer mostrar trabalho feito. Na segunda-feira à noite (29 de junho), prometeu novas casas para os que perderam tudo no duplo abalo de magnitude 7,2 e 7,5, afirmando que haverá “milhares de soluções” habitacionais antes do final do ano.Isto enquanto ainda se contam os mortos. Oficialmente são 1943 (incluindo 60 portugueses ou lusodescendentes), com mais de 10 mil feridos, mas há críticas de que o regime está a subestimar os números. As Nações Unidas estimam que haja 50 mil desaparecidos, com a Agência da ONU para os Refugiados a avisar que a situação humanitária “se deteriora rapidamente”. Segundo a ACNUR, há “uma grave escassez de alimentos, o colapso dos serviços básicos e um aumento dos riscos de proteção para a população deslocada”. Enquanto isso, a líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz de 2025 continua a mobilizar os seus apoiantes para angariar ajuda (com denúncias de que estão a ser travados), mas sem conseguir regressar à Venezuela - de onde saiu em dezembro, após ter passado mais de um ano na clandestinidade, precisamente para ir receber o prémio em Oslo. María Corina Machado, que foi impedida de concorrer às presidenciais de 2024 e apoiou Edmundo González (para muitos o presidente eleito), acusou o regime de ter travado, por duas vezes, o seu regresso nos últimos dias. “O regime fechou o espaço aéreo do nosso país para tentar impedir o meu regresso. Quero regressar à Venezuela para estar convosco nestes tempos terríveis. Quero unir as minhas mãos às vossas nos esforços de busca, no consolo e no abraço”, disse num vídeo partilhado nas redes sociais, gravado no Panamá. “Neste momento, estou disposta a fazer tudo o que for necessário, a falar com quem for preciso para coordenar esforços e servir o nosso povo. Estou pronta e perto da Venezuela, e farei tudo o que for necessário para que nos possamos encontrar lá”, acrescentou, com a Reuters a indicar que terá contactado vários responsáveis norte-americanos à procura de apoio - sem sucesso e causando mal-estar na Casa Branca. “Apoiamos o seu regresso à Venezuela, mas será que tem de ser 24 horas depois de uma catástrofe humanitária de grandes proporções, em que o número de mortos continua a aumentar?”, disse um responsável, sob anonimato, à agência de notícias.A urgência de María Corina Machado em regressar à Venezuela prende-se também com a necessidade de capitalizar o descontentamento dos venezuelanos em relação ao governo. Especialmente depois de, na semana anterior aos sismos e após oito anos no exílio, a opositora que chegou a ser presidente da Assembleia Nacional eleita em 2015, Dinorah Figuera, ter regressado à Venezuela a convite do Departamento de Estado dos EUA - que voltou a não apostar em María Corina Machado.Uma visita curta, durante a qual se reuniu com o atual líder da Assembleia, Jorge Rodríguez, irmão de Delcy Rodríguez, além do encarregado de negócios dos EUA, John Barrett, como parte dos esforços para criar uma mesa de diálogo política e técnica - um passo para uma transição democrática. Militante do Primero Justicia, de Henrique Capriles (que foi candidato presidencial em 2013), representa uma corrente diferente da oposição de María Corina Machado.