Morte de Alex Pretti: Vídeos contradizem versões do governo federal. Grupo de republicanos pede investigação e Obama apela a "reação"
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Morte de Alex Pretti: Vídeos contradizem versões do governo federal. Grupo de republicanos pede investigação e Obama apela a "reação"

Um grupo de republicanos expressou preocupação crescente sobre as táticas que as autoridades federais de imigração estão a utilizar no Minnesota e pedem uma investigação à morte de Alex Pretti
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Vários vídeos do tiroteio fatal de um manifestante em Minneapolis, no sábado, por um agente da Patrulha de Imigração e Fronteiras dos EUA, analisados pela Associated Press, contradizem versões do Governo federal, segundo a agência de notícias norte-americana.

A Associated Press (AP) analisou vários vídeos de testemunhas que mostram um agente da Patrulha de Imigração e Fronteiras (ICE) a disparar e matar Alex Pretti, um enfermeiro norte-americano de 37 anos, nascido no estado do Illinois, após uma altercação de cerca de 30 segundos, por volta das 09:00 de sábado.

Os vídeos parecem contradizer as declarações da administração de Donald Trump, que afirmou que os tiros foram disparados “defensivamente” contra Pretti, alegando que ele se tinha aproximado dos agentes do ICE, com uma arma.

Nos vídeos, o cidadão é visto apenas com um telemóvel na mão, descreve a AP. Durante a luta, os agentes terão descoberto que ele estava na posse de uma pistola semiautomática de 9 mm e justificam com isso o facto de terem disparado vários tiros. O cidadão norte-americano tinha licença para uso e porte de arma oculta.

O governo afirma que se tratou de um caso de um homem armado que provocou violência.

O presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, disse que Minneapolis e St. Paul estão a ser “invadidas” pela maior repressão à imigração do governo.

A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que Pretti atacou os agentes, e o comandante da Patrulha de Imigração e Fronteiras, Gregory Bovino, acrescentou que Pretti queria causar “o máximo de danos e massacrar as forças da lei”.

Este foi o segundo tiroteio fatal em Minneapolis pelas autoridades federais de imigração este mês. O primeiro, em 07 de janeiro, envolveu Renee Good. Também foi registado em vídeos e provocou uma divisão semelhante entre os líderes políticos.

O que mostram os vídeos

O tiroteio de sábado ocorreu quando os agentes perseguiam um homem que estava ilegalmente no país e era procurado por agressão doméstica, disse Bovino. Pretti encontrava-se no local com outros manifestantes.

Em determinado momento, num vídeo obtido pela AP, o cidadão está parado na rua a segurar o seu telemóvel e é empurrado por um agente em direção à calçada.

O vídeo mostra manifestantes a entrar nesta zona da rua. Pretti volta a surgir nas imagens, quando o vídeo mostra um agente com equipamento tático a empurrar um manifestante, que estende a mão para Pretti.

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Segunda morte de um civil por agentes federais em menos de um mês agrava tensão no Minnesota

Um vídeo diferente, segundo a AP, mostra Pretti a aproximar-se de outro manifestante, que cai após ser empurrado pelo mesmo agente. Pretti coloca-se entre o manifestante e o agente, estendendo os braços na direção do polícia. O agente usa spray de gás pimenta, e Pretti levanta a mão e vira o rosto, descreve a AP. O polícia agarra a mão de Pretti para a colocar atrás das costas, usa novamente o spray e empurra Pretti.

Segundos depois, ainda segundo a descrição da AP, pelo menos meia dúzia de agentes federais cercam Pretti, que é agredido várias vezes no chão. Vários agentes tentam colocar os braços de Pretti atrás das costas, e ele resiste.

Os vídeos mostram um agente, que está por cima do grupo, com a mão direita nas costas de Pretti, que se afasta com o que parece ser uma arma na mão direita, pouco antes de se ouvir o primeiro tiro.

Alguém grita “arma, arma”, prossegue a narração da AP, que alerta não estar claro se isso é uma referência à arma que as autoridades dizem que Pretti tinha.

Os vídeos não mostram claramente quem disparou o primeiro tiro, prossegue a agência de notícias.

Num vídeo, segundos antes do primeiro tiro, um agente parece sacar da arma. Esse mesmo agente é visto com uma arma apontada às costas de Pretti, enquanto mais três tiros são disparados.

Pretti cai no chão. Os vídeos mostram os agentes a recuar, alguns com as armas em punho. Mais tiros são disparados.

Um comunicado do Departamento de Segurança Interna dos EUA refere que os agentes dispararam “tiros defensivos” depois de Pretti “resistir violentamente”.

“Vi os vídeos, de vários ângulos, e é repugnante”, constatou o governador de Minnesota, Tim Walz.

Trump pronunciou-se nas redes sociais criticando Walz e Frey e partilhou imagens da arma que, segundo as autoridades de imigração, foi recuperada de Pretti.

“O que é isso? Onde está a polícia local? Por que não permitiram que protegessem os agentes do ICE?”, questionou Trump.

O incidente fez aumentar a tensão e as manifestações de protesto contra a atuação das forças federais no estado do Minnesota.

Minneapolis tem sido palco de protestos anti-ICE.
Minneapolis tem sido palco de protestos anti-ICE. FOTO: EPA/OLGA FEDOROVA

Grupo de republicanos preocupados com tiroteio em Minneapolis pede investigação

Entretanto, este domingo,um grupo de republicanos expressou preocupação crescente sobre as táticas que as autoridades federais de imigração estão a utilizar no Minnesota e pedem uma investigação à morte de um cidadão por um agente em Minneapolis.

O governador de Oklahoma, Kevin Stitt, disse que o assassinato, no sábado, de Alex Pretti, que protestava contra a repressão à imigração do Presidente Donald Trump, foi uma “verdadeira tragédia”.

“Penso que a morte de americanos, o que estamos a ver na televisão, está a causar profunda preocupação com as táticas federais e a responsabilização”, disse Stitt ao programa "State of the Union" da CNN. “Os americanos não gostam do que estão a ver neste momento.”

Quando questionado se achava que o Presidente deveria retirar os agentes de imigração do Minnesota, Stitt afirmou que Donald Trump tem de responder a essa pergunta. “Ele está a ser mal aconselhado neste momento”, acrescentou.

O governador disse que o Presidente republicano precisava de dizer ao povo americano qual é a solução e o “desfecho”, e que era necessário haver soluções em vez de politizar a situação.

“Neste momento, os ânimos estão exaltados e precisamos de acalmar as coisas”, observou Stitt.

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Como o estado do Minnesota se tornou o epicentro da ação do ICE?

Outros republicanos, incluindo os senadores Thom Tillis, da Carolina do Norte, e Bill Cassidy, da Louisiana, também expressaram inquietação.

Numa publicação nas redes sociais, Cassidy considerou o tiroteio “incrivelmente perturbador” e afirmou que “a credibilidade do ICE [Serviço de Controle de Imigração e Fronteiras] e do DHS está em jogo”.

Tillis pediu uma “investigação completa e imparcial”. “Qualquer funcionário do governo que se precipite em julgar e tente encerrar uma investigação antes mesmo de ela começar está a prestar um 'desserviço' incrível à nação e ao legado do Presidente Trump”, sublinhou Tillis numa publicação.

Os funcionários do governo foram firmes na defesa das táticas de linha-dura em relação à imigração.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que “é uma tragédia quando alguém morre”, mas culpou os líderes democratas de Minnesota por “fomentarem o caos”.

“Há muitos agitadores pagos que estão a incitar as coisas e o governador não tem feito um bom trabalho em conter isso”, disse Bessent no programa "This Week" da ABC.

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O governador do estado norte-americano do Minnesota, o democrata Tim Walz, pediu às autoridades locais que conduzam a investigação à morte do homem, um enfermeiro de nacionalidade norte-americana, baleado no sábado por agentes do ICE em Minneapolis.

“Não se pode confiar no governo federal para conduzir a investigação. O sistema judicial do Minnesota terá a última palavra”, afirmou Tim Walz em conferência de imprensa, antes de acusar a polícia anti-imigração, de “semear o caos e a violência” naquele estado do norte do país.

Obama pede "reação" para "proteger liberdades fundamentais"

O antigo presidente norte-americano Barack Obama considerou a morte de mais um cidadão norte-americano por agentes do ICE, em Minneapolis, uma “tragédia desoladora” e apelou a uma “reação” face aos “ataques” perpetrados conrta os valores fundamentais dos Estados Unidos.

“Cabe a cada cidadão levantar-se contra a injustiça, de proteger as nossas liberdades fundamentais, e responsabilizar o nosso governo”, refere Barack Obama, num comunicado citado pela Agência France Presse, no qual critica a administração de Donald Trump, “ansiosa por agravar a situação”.

Quem era Alex Pretti?

Alex Pretti era um cidadão norte-americano, nascido no estado do Illinois. Tal como Renee Good, outra cidadã norte-americana morta por agentes do ICE, não tinha antecedentes criminais e a família contou que nunca tinha tido interações com a polícia, excetuando algumas multas de trânsito.

Os pais de Pretti disseram à agência Associated Press, no sábado, que embora soubessem que o filho tinha uma arma licenciada, nunca o viram com ela.

O Departamento de Segurança Interna alegou que o enfermeiro foi baleado após “aproximar-se” de agentes do ICE com uma arma semiautomática de 9 milímetros. As autoridades não especificaram se Alex Pretti empunhou a arma, que não é visível num vídeo do tiroteio analisado pela Associated Press.

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Quem era Alex Pretti, o enfermeiro morto por agentes federais em Minneapolis
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