A União Europeia está a ponderar incluir a possibilidade de um período de transição com direitos parciais para Kiev antes da adesão plena ao bloco, como parte de um futuro acordo de paz entre a Ucrânia e a Rússia, noticiou a Bloomberg. Um porta-voz da Comissão Europeia disse a esta agência de notícias que a adesão de Kiev à UE faz parte das conversações de paz em curso, sublinhando que já existem acordos comerciais para reforçar os laços entre Bruxelas e a Ucrânia. Fontes ouvidas pelo Politico, entre diplomatas e oficiais comunitários e ucranianos, adiantaram que a UE está a desenvolver um plano que poderá conceder à Ucrânia uma adesão parcial ao bloco já no próximo ano. Um desejo expressado recentemente pelo presidente ucraniano. “A adesão da Ucrânia à União Europeia é uma das principais garantias de segurança não só para nós, mas também para toda a Europa”, afirmou Volodymyr Zelensky no final de janeiro, sublinhando que Kiev contribui para a força coletiva da Europa nas áreas da segurança, tecnologia e economia. “É por isso que falamos de uma data concreta, 2027, e contamos com o apoio dos nossos parceiros a esta posição.”Este plano de Bruxelas contém cinco passos e que começam por preparar a Ucrânia para a adesão, fornecendo orientação informal na negociação das etapas legais no caminho para se juntar ao bloco. Mas “não haverá atalhos” nas reformas, disse um responsável da UE ao Politico. Na sexta-feira, Zelensky garantiu que “estaremos tecnicamente prontos até 2027”, acrescentando que “estamos a falar do fim da guerra e de garantias de segurança simultâneas. E a UE, para nós, representa garantias de segurança”. Para que isto possa acontecer é preciso que a UE crie um modelo de Estado-membro lite, uma ideia que não é apreciada por todos, contando com a oposição de alguns candidatos, mas também entre os 27. Inicialmente Zelensky mostrou-se contra a ideia de Estado-membro de “segunda categoria”, mas fontes ucranianas ouvidas pelo Politico dizem que poderá estar aberto a um modelo que codificasse o caminho do país para a UE antes de se tornar um membro de pleno direito. Edi Rama, o primeiro-ministro da Albânia, outro país candidato, já disse considerar esta abordagem “uma boa ideia” e que Tirana aceitaria até ficar, numa primeira fase, sem um comissário.Mas apesar de esta ideia contar com a oposição, por exemplo, da Alemanha, o grande problema reside na Hungria, cujo primeiro-ministro Viktor Orbán é contra a adesão da Ucrânia à UE e qualquer alargamento precisa de unanimidade entre os 27. Nesse sentido, Bruxelas está a aguardar pelos resultados das eleições húngaras do próximo mês de abril, cujas sondagens têm vindo a apontar para uma derrota de Orbán e a vitória de Peter Magyar, que poderá ser mais flexível sobre esta questão. Caso Orbán - que este fim de semana classificou a Ucrânia como inimiga da Hungria - seja reeleito, o quarto ponto do plano de Bruxelas é apelar a Donald Trump para que o presidente dos Estados Unidos faça o seu aliado de Budapeste mudar de ideias. Como refere o Politico, estando a adesão de Kiev à UE inscrita no plano de paz e conhecido que é o desejo de Trump de acabar com a guerra o mais depressa possível, o presidente dos EUA estará mais disposto a pressionar Orbán e conseguir que este levante o seu veto. Se tudo o resto falhar, a União Europeia poderá usar sobre a Hungria algo que vem a adiar há anos: o artigo 7.º do Tratado da UE. Este artigo é acionado quando se considera que um país poderá violar os valores fundamentais do bloco, sendo a sanção política mais grave que pode ser usada contra um Estado-membro, pois suspende os seus direitos, incluindo o de veto (ou aprovação) à adesão de novos países.Rússia quer garantiasO Kremlin revelou esta terça-feira, 10 de fevereiro, que ainda não há data definida para a próxima ronda de conversações de paz, mas que estas deverão ocorrer em breve. De recordar que este ano já se realizaram em Abu Dhabi duas rondas de negociações entre Rússia e Ucrânia, mediadas pelos Estados Unidos, e, embora não tenham produzido resultados significativos, permitiram a troca de 314 prisioneiros de guerra, a primeira desde outubro.O líder da diplomacia russa afirmou esta terça-feira também não existirem razões para otimismo quanto à pressão de Donald Trump, sobre a Europa e a Ucrânia para se fechar um acordo de paz, pois ainda há um longo caminho a percorrer nas negociações.De acordo com Sergei Lavrov, citado pela TASS, qualquer acordo de paz sobre a Ucrânia deve incluir a eliminação das causas profundas do conflito enumeradas pela Rússia, acrescentando estar convencido que os EUA “estão a ouvir os nossos argumentos”. Ao mesmo tempo diz que a Europa e Zelensky estão a tentar “desestabilizar os negociadores americanos” e a usar a oposição dentro dos EUA a seu favor.O vice de Lavrov no Ministério dos Negócios Estrangeiros, por seu turno, afirmou ontem que um acordo deve também ter em conta garantias de segurança para Moscovo. “Reconhecemos que um acordo de paz deve ter em conta os interesses de segurança da Ucrânia, mas um fator fundamental, claro, são os interesses de segurança da Rússia”, disse Alexander Grushko ao Izvestia, citado pela Reuters. “Se analisarmos com atenção as declarações dos líderes da UE, ninguém menciona garantias de segurança para a Rússia. Este é um elemento fundamental de um acordo de paz. Sem isso, um acordo é impossível.”Segundo o mesmo jornal, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros enumerou algumas dessas garantias, e que são exigência desde sempre feitas por Moscovo, como a proibição da adesão da Kiev à NATO ou a objeção ao destacamento de tropas de países da NATO na Ucrânia. Do lado de Bruxelas, a líder da diplomacia europeia adiantou esta terça-feira que vai propor uma lista de concessões que o bloco deve exigir à Rússia num acordo de paz na Ucrânia. “Todos à mesa, incluindo os russos e os norte-americanos, precisam de compreender que é necessário que os europeus concordem”, disse Kaja Kallas a um grupo de jornalistas de agências noticiosas. “E para isso, também temos condições. E devemos impor essas condições não aos ucranianos, que já estão sob muita pressão, mas aos russos”. A estónia revelou ainda que irá partilhar a sua lista com os líderes dos 27 nos próximos dias, declarando que dela fará parte o regresso das crianças ucranianas raptadas durante a guerra e limitações às forças armadas russas.Para Kallas, esta lista de concessões deve estar definida antes de serem estabelecidos canais de comunicação com o Kremlin, numa referência a países como França ou Itália, que já defenderam que tal aconteça. “Vamos discutir o que queremos discutir com os russos antes de discutirmos quem vai negociar com eles”, disse a líder da diplomacia da UE. “Se eles apresentam exigências maximalistas, nós também devemos apresentar exigências maximalistas.”Europa a duas velocidadesAlém das habituais discussões sobre defesa e segurança, um outro tema terá a atenção dos líderes dos 27, com a competitividade da UE a ser o tema central do retiro informal agendado para quinta-feira, 12 de fevereiro, pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa. Numa carta enviada na segunda-feira aos chefes de Estado e de Governo a antecipar o encontro de amanhã, a líder do executivo comunitário sugeriu que os países dispostos a trabalhar em questões económicas devem avançar em coligações mais pequenas caso não seja possível um consenso, mostrando-se aberta a uma Europa a duas velocidades. Mario Draghi, autor de um dos dois estudos que serão discutidos pelos líderes dos 27, apelou recentemente à UE para que trabalhe como uma verdadeira união e que os líderes europeus adotem uma abordagem federalista “pragmática” para projetos comuns, desde a energia à segurança. Draghi e Enrico Letta, autor do outro estudo encomendado para Bruxelas para impulsionar a competitividade do bloco, participarão no retiro informal de quinta-feira.“A nossa ambição deve ser sempre a de chegar a um acordo entre todos os 27 Estados-membros”, escreveu Ursula von der Leyen na carta dirigida aos líderes. “Contudo, quando a falta de progresso ou de ambição ameaça comprometer a competitividade ou a capacidade de ação da Europa, não devemos hesitar em recorrer às possibilidades previstas nos tratados que reforçam a cooperação.”Numa entrevista dada esta terça-feira a vários jornais europeus, o presidente francês disse ter chegado o momento de a UE lançar uma capacidade de endividamento comum, através de eurobonds, para investir em conjunto na transição ecológica, na inteligência artificial e na tecnologia quântica, para que a UE não fique para trás nestes setores face a países como os EUA. Ideia que conta com a oposição da Alemanha, como fez saber uma fonte do governo de Friedrich Merz horas após a publicação da entrevista a Emmanuel Macron. O líder francês também exortou a que não se sucumba a uma “sensação cobarde de alívio” na crise da Gronelândia, que Trump quer tomar, porque a diminuição da tensão com os EUA, na sua opinião, será de curta duração. Neste contexto, para Macron, chegou o momento do “despertar” europeu nos domínios económico, financeiro, de defesa e segurança, e democrático..Negociações “produtivas” mas sem novidades sobre a paz na Ucrânia.Von der Leyen defende que “a urgência é clara para todos” sobre competitividade da UE