Políticos e militares iranianos mostraram uma postura de desafio a escassas horas do fim do prazo do cessar-fogo, ao reiterar a indecisão em enviar para a capital do Paquistão a equipa de negociadores. O Irão exigia em particular que os norte-americanos levantem o bloqueio aos seus portos, mas caso as hostilidades recomecem, possui “novas cartas no campo de batalha”. A viagem do vice-presidente dos EUA também ficou em suspenso, enquanto decorriam “reuniões adicionais” em Washington, depois de Donald Trump ter dito à CNBC que já não havia muito tempo - o oposto que declarara na véspera. Tempo que acabou por ser prorrogado já à tarde na capital norte-americana, quando o presidente anunciou na sua rede social ter acedido ao pedido das autoridades paquistaneses e que iria estender o prazo do cessar-fogo. Desta feita, sem uma data: o calar das armas está em vigor “até ao momento em que a sua proposta seja apresentada e as discussões concluídas, de uma forma ou de outra”.Depois de um segundo navio ligado ao Irão ter sido abordado pela Marinha dos Estados Unidos, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano Abbas Araghchi classificou a medida a um “ato de guerra” e, como tal, uma violação do cessar-fogo. “A agressão contra navios iranianos e a pressão contínua indicam a continuação de um comportamento contraditório do lado oposto”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmaeil Baghaei. Segundo as forças dos EUA, um navio de guerra seu abordou o petroleiro Tifani, sujeito a sanções por manter ligações comerciais com o Irão. A operação, que decorreu junto da costa do Sri Lanka ocorreu “sem incidentes”. Além disso, o Comando Central dos EUA disse que o número total de embarcações que deram meia-volta ou regressaram ao porto desde o início do bloqueio naval ascende a 28.À CNBC, Trump repetiu acreditar num “grande acordo”, e que ao Irão não resta a hipótese de negociar. Caso contrário, a guerra estalará de novo. “Espero [voltar a] bombardear porque penso que essa é a melhor atitude a adotar. Mas estamos prontos para avançar. Quer dizer, os militares estão ansiosos para começar". No X, o presidente do parlamento e chefe da delegação que viajou ao Paquistão disse que Teerão não aceita “negociações à sombra de ameaças”. Bagher Ghalibaf disse ainda que o seu país tem “novas cartas no campo de batalha” por revelar. Na mesma linha, a agência iraniana Tasnim, citando fontes militares afirma que o Irão está “preparado para a possibilidade de uma nova guerra e preparou novas surpresas para uma potencial nova ronda de combate”.PM libanês na EuropaNa antevéspera da segunda sessão de trabalho entre os embaixadores do Líbano e de Israel, em Washington, o primeiro-ministro libanês dirigiu-se ao Luxemburgo para participar na reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, e depois seguiu para Paris, onde foi recebido por Emmanuel Macron no Eliseu. Este reafirmou o apoio à integridade territorial do Líbano, bem como às iniciativas para Beirute garantir a sua soberania de forma plena, incluindo o monopólio do exército e das armas. Israel deve “renunciar às suas ambições territoriais” no Líbano, disse Macron. Quanto ao grupo pró-iraniano Hezbollah, defendeu que devem ser os próprios libaneses a desarmá-lo. Ao terminar a primeira reunião com a libanesa Nada Hamadeh, no dia 14, o embaixador Yechiel Leiter disse que Israel “certamente não quer que os franceses estejam perto destas negociações”. Mas horas antes da reunião do presidente com Nawaf Salam, uma conselheira do palácio do Eliseu defendeu aos jornalistas a relevância do seu país na questão. “A França faz parte dos países que têm um papel muito concreto e direto para poder 'reforçar a mão' do governo libanês", para poder apoiar a sua ação de forma muito concreta na aplicação do desarmamento do Hezbollah, disse. “Há muito poucos países capazes de se mobilizar de forma muito direta” e a França faz parte deles”, disse, citada pelo Le Monde.“A vontade de consagrar o monopólio do Estado sobre as armas e de pôr fim às intervenções regionais nos nossos assuntos internos não deve ser posta em causa a partir de hoje”, declarou, por sua vez, o primeiro-ministro libanês Nawaf Salam, junto dos ministros europeus. “A equação é clara: quanto mais forte é o exército libanês, mais fracos são os grupos armados ilegítimos”, uma forma de se referir ao Hezbollah. Além de pedir à UE para reforçar as forças armadas libanesas, Salam disse esperar que o caminho diplomático se traduza no “fim da ocupação”, uma referência à presença das tropas israelitas no sul do país. Esse é decerto um dos temas espinhosos que farão parte dos temas a abordar entre Israel e o Líbano, embora a reunião de amanhã na capital dos Estados Unidos deva incidir num quadro de negociações mais amplo para que o cessar-fogo de 10 dias possa ser ampliado. No sábado, Israel anunciou uma linha de demarcação no sul do Líbano, dando expressão às notícias de que o diplomata israelita Ron Dermer, conselheiro de Benjamin Netanyahu havia preparado um plano segundo o qual o sul do Líbano iria ser dividido em três zonas. Segundo os meios de comunicação israelitas, a primeira zona estende-se da fronteira israelita até à “linha amarela”, cerca de 7 a 8 quilómetros no interior do Líbano, onde as forças israelitas manteriam uma “presença militar intensiva” até ao desmantelamento da milícia do Hezbollah. A segunda zona compreende a dita “linha amarela” até ao rio Litani, a devolver de forma gradual ao exército libanês. A norte do Litani, a responsabilidade pelo desarmamento cabe em exclusivo a Beirute. O Eliseu, porém, não quis dar relevância ao plano, considerado temporário. “Hoje, o desafio não é mover essas linhas e regressar imediatamente a linhas que foram estabelecidas pelos diferentes mandatos. Hoje, o desafio é a estabilização da situação e evitar que os combates reiniciem”, disse uma fonte da presidência francesa aos jornalistas. Na terça-feira, o exército israelita acusou o Hezbollah de ter atacado soldados seus com foguetes, e que respondeu na mesma moeda.À margemRiade apoia EmiradosO Irão insurgiu-se contra a detenção nos Emirados, na véspera, de 27 pessoas, acusadas de pertencer a uma célula terrorista com ligações ao Irão, tendo classificado de “alegações sem fundamento” o sucedido. Já a Arábia Saudita, através do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros, condenou o “conluio terrorista que visava minar a unidade nacional e a estabilidade dos Emirados Árabes Unidos”.Soldados presosO soldado que destruiu com um maço uma imagem de Jesus Cristo, na aldeia de Debel, no sul do Líbano, e o soldado que fotografou o ato foram condenados a 30 dias de prisão, anunciaram as Forças de Defesa de Israel. Outros seis militares presentes e que nada fizeram para impedir o ato ou reportá-lo estão a ser ouvidos. Em “total coordenação com a comunidade”, disseram os militares, a estátua foi substituída por outra. Mais sanções ao IrãoOs países da UE decidiram alargar as sanções contra o Irão para incluir os responsáveis por bloquear o estreito de Ormuz. O anúncio foi feito por Kaja Kallas, a chefe da diplomacia da UE. Além disso, Kallas instou os ministros dos Negócios Estrangeiros, reunidos no Luxemburgo, que reforcem a missão naval da UE no Médio Oriente.Acordo com Israel mantém-seNa mesma reunião, os chefes da diplomacia dos 27 discutiram o pedido de Espanha, Eslovénia e Irlanda para suspender o acordo comercial com Israel. Mas, como esperado, o ministro alemão Johann Wadephul mostrou-se contra a iniciativa, no que foi secundado pelo homólogo italiano Antonio Tajani.