Protestos em Nova Iorque contra o ataque lançado pela Administração Trump contra a Venezuela.
Protestos em Nova Iorque contra o ataque lançado pela Administração Trump contra a Venezuela.EPA/SARAH YENESEL

Trump diz que pôs fim a oito guerras, mas a América já atacou alvos em sete países num ano

Venezuela foi mais recente. Mas EUA intervieram na Nigéria, em defesa de cristãos, na Síria, Somália e Iraque contra o Estado Islâmico, no Irão contra o programa nuclear, e no Iémen contra os Houthis
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"Enquanto presidente, a minha maior aspiração é trazer paz e estabilidade no mundo”, afirmava Donald Trump em agosto de 2025 ao receber na Casa Branca os presidentes da Arménia e do Azerbaijão para assinarem um acordo de paz. O conflito entre estes dois países é uma das oito guerras a que o presidente dos EUA diz ter posto fim desde que regressou ao cargo, em janeiro do ano passado. Outra foi Índia-Paquistão. Quase um ano depois de ter tomado posse, Trump, que não esconde o desejo de receber o prémio Nobel da Paz, começou 2026 a ordenar um ataque contra a Venezuela, com o objetivo de capturar o presidente Nicolás Maduro, entretanto levado para Nova Iorque onde está a ser julgado por narcoterrorismo, e promover a mudança de regime.

Apesar de se ter apresentado como pacifista, tendo sido eleito sob o lema de America First, uma “América Primeiro” que queria mais preocupada com a sua economia e outros desafios internos do que com a política externa e as intervenções militares no estrangeiro, sob Trump os EUA bombardearam em vários países nos últimos meses. Sete, para ser mais exata: Venezuela, Nigéria, Somália, Síria, Irão, Iémen e Iraque. Intervenções que na Nigéria foi em defesa dos cristãos, na Síria, Somália e Iraque tiveram como alvo o Estado Islâmico, no Irão visaram o programa nuclear do regime dos ayatollahs e no Iémen se dirigiram contra os Houthis, que tinham atacado navios ligados a Israel no Mar Vermelho.

Este intervencionismo americano já valeu críticas ao presidente, até por parte da sua base de apoio MAGA - Make America Great Again, com a agora ex-congressista (deixou o cargo no passado dia 5, precisamente na sequência das desavenças com Trump) Marjorie Taylor Green, líder de uma espécie de rebelião interna na extrema-direita americana, a lembrar que “foi para pôr fim a isto que a MAGA votou”. Afinal, durante a sua primeira campanha presidencial, Trump não escondia ver o envolvimento dos EUA em conflitos no estrangeiros como uma perda de tempo, de vidas americanas e de dinheiro.

Enquanto presidentes anteriores, como George W. Bush e, mais tarde, Barack Obama, iniciaram ou continuaram o que ficou conhecido como “guerras eternas” no Iraque e no Afeganistão, Trump prometeu que adotaria uma abordagem radicalmente diferente.

Mas segundo a Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), organização apartidária que monitoriza conflitos, os EUA realizaram - ou participaram - de 622 bombardeamentos no exterior, usando drones ou aviões, desde 20 de janeiro de 2025, quando Trump assumiu a presidência. A mesma fonte, citada pela CBC, a emissora do Canadá, afirma que Trump autorizou mais bombardeamentos só nos primeiros seis meses deste seu segundo mandato do que o seu antecessor, o democrata Joe Biden, nos seus quatro anos de presidência.

Obama, que recebeu o Nobel da Paz logo no primeiro ano de mandato, acabou por também ele ordenar ataques em vários países estrangeiros - não só Afeganistão e Iraque, onde herdou os conflitos iniciados por Bush no âmbito da guerra ao terror que se seguiu aos ataques de 11 de setembro de 2001, mas também Paquistão, Somália, Iémen, Líbia e Síria.

Trump parece seguir, em grande medida, a linha dos seus antecessores.

Venezuela

Foram meses de escalada de tensão, com os EUA a reforçarem a presença militar no mar das Caraíbas. Em agosto, Washington duplicou para 50 milhões a recompensa por informações que levassem à detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro, mais tarde acusado de narcoterrorismo e de liderar o cartel de Los Soles, que os EUA classificaram como organização terrorista ligada ao tráfico de drogas.

Com esse argumento, os EUA foram multiplicando os ataques contra barcos supostamente carregados com drogas no Mar das Caraíbas. As ações em mar aberto tornaram-se frequentes e passaram a ocorrer também no Pacífico. A Venezuela decretou o estado de exceção, dando mais poderes a Maduro para responder em caso de agressão americana. Esta hipótese ganhou força quando Trump autorizou a CIA a realizar operações na Venezuela. Com o porta-aviões USS Gerald Ford deslocado para a região e Trump a ordenar o bloqueio total de petroleiros alvos de sanções, um primeiro ataque em solo venezuelano terá ocorrido ainda em finais de dezembro, mas foi a 3 de janeiro que Caracas foi alvo de ataques americanos e Maduro e a mulher, Cilia Flores, capturados por forças especiais e levados para os EUA. Trump anunciou que os EUA vão “governar a Venezuela”, mas para já a vice-presidente Delcy Rodríguez foi empossada presidente interina e parece estar a colaborar com os americanos que não descartam novos ataques se os considerarem necessários.

Nigéria

No dia de Natal, os EUA lançaram um ataque contra grupos afiliados ao Estado Islâmico (EI) no estado de Sokoto, no noroeste da Nigéria. Trump considerou os ataques “poderosos e mortíferos”, afirmando dias depois ao jornal online Politico que se tratou de um “presente de Natal”

Os ataques tiveram lugar após semanas de pressão diplomática sobre o governo nigeriano, que Donald Trump e algumas outras personalidades de topo do Partido Republicano, incluindo o senador (e antigo candidato presidencial) Ted Cruz, acusaram de estar a permitir um “genocídio cristão” num país cuja população se divide quase ao meio entre cristãos e muçulmanos.

A Nigéria tem sido assolada pela violência de grupos armados ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, que operam sobretudo nas regiões de maioria muçulmana do nordeste e noroeste. Abuja nega que esteja a acontecer um genocídio contra cristãos e afirma que tanto as comunidades muçulmanas como as cristãs são afetadas pela violência.

Somália

Apesar de no seu primeiro mandato Trump ter retirado algumas tropas da Somália, em 2022 Biden voltou a enviá-las para aquele país. Mas neste segundo mandato, Trump já ordenou vários ataques aéreos contra fações locais do Estado Islâmico e contra membros das milícias Al-Shabab.

Segundo o Comando Africano dos EUA, um ataque aéreo a 1 de fevereiro contra uma série de complexos de cavernas no norte da Somália matou 14 membros do EI, incluindo Ahmed Maeleninine, um dos principais recrutadores, financiador e líder de operações externas do grupo, que segundo a Fox News era responsável pelo envio de militantes para os EUA e toda a Europa.

As milícias Al-Shabab, que contam com cerca de 7.000 combatentes, controlam grandes extensões de terra no centro sul da Somália, enquanto o EI-Somália, que terá cerca de 1.500 combatentes, atua nas regiões montanhosas da região autónoma de Puntland, no norte. No ano passado, as atividades de grupos armados terão levado a mais de sete mil mortes na Somália, segundo o Centro Africano de Estudos Estratégicos, sediado nos EUA.

De acordo com a Al-Jazeera, foram registados pelo menos 111 ataques por parte dos EUA desde janeiro de 2025 na Somália, superando o número realizado pelos governos de Bush filho, Obama e Biden juntos.

Síria

A 19 de dezembro, os EUA lançaram a Operação Hawkeye contra alvos do Estado Islâmico em resposta pela morte de dois militares americanos em Palmira uma semana antes. Os alvos foram 70 locais conhecidos como infraestruturas e armazéns de armas do EI na região central da Síria, resultando na morte ou detenção de 23 terroristas. O secretário da Defesa (renomeado por Trump de secretário da Guerra), Pete Hegseth, considerou os ataques aéreos como “uma declaração de vingança” em resposta direta ao ataque do EI em Palmira.

Segundo o Comando Central, os EUA e seus aliados realizaram operações na Síria nos últimos 12 meses que resultaram na detenção de 300 terroristas.

Irão

Em pleno conflito entre Israel e o Irão, a 21 de junho os EUA lançaram um ataque contra três instalações nucleares iranianas. Na operação Martelo da Meia-Noite, bombardeiros furtivos B-2 partiram da Base Aérea de Whiteman, no Missouri, e lançaram mais de uma dúzia de bombas antibunker e mais de duas dúzias de mísseis Tomahawk contra instalações nucleares iranianas estratégicas. Trump garantiu que os ataques dizimaram as capacidades nucleares do Irão e levaram a um cessar-fogo entre Irão e Israel.

O Irão lançou um contra-ataque contra a Base Aérea Al Udeid dos EUA no Qatar, mas não houve relatos de vítimas.

Iémen

Desde janeiro de 2024 que os EUA têm lançado ataques aéreos e navais no Iémen contra os Houthis, apoiados pelo Irão e que controlam grande parte do país, mas com a chegada de Trump ao poder estes ataques intensificaram-se. Os EUA garantem que a operação Rough Rider é uma retaliação aos ataques Houthis contra navios ligados a Israel que passavam pelo Mar Vermelho, em solidariedade com Gaza.

Os ataques destruíram várias infraestruturas, incluindo portos, aeroportos, sistemas de radar, defesas aéreas, locais de lançamento balístico e até centros de detenção de migrantes em Sanaa e Hodeidah. Em maio, uma trégua foi mediada por Omã.

Os EUA afirmam ter matado cerca de 500 Houthis, enquanto o Ministério da Saúde do Iémen, controlado pelos Houthis, disse que 123 pessoas, a maioria civis, foram mortas até abril.

Iraque

A 13 de março, os EUA lançaram ataques aéreos na província iraquiana de al-Anbar, matando o número dois do Estado Islâmico, Abdallah “Abu Khadijah” Malli Muslih al-Rifai, e outro membro do EI. Trump reagiu na sua rede Truth Social. “Hoje, o líder fugitivo do EI no Iraque foi morto”, escreveu o presidente, elogiando as tropas americanas.

Segundo o primeiro-ministro do Iraque, numa declaração no dia X, “Abu Khadija” era conhecido como o vice-califa do EI, responsável pelas operações no Iraque e na Síria, e que era “um dos terroristas mais perigosos do Iraque e do mundo”.

Em julho de 2020, Donald Trump já havia ordenado o ataque com drones que levou à morte de Qassim Suleimani, comandante da Guarda Revolucionária iraniana, no aeroporto da capital iraquiana, Bagdad.

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