O presidente dos EUA, Donald Trump, usou a palavra “petróleo” 25 vezes na conferência de imprensa sobre a operação militar que, no sábado, levou à queda de Nicolás Maduro. E não falou uma única vez de “democracia”, deixando claro qual era a sua prioridade. Esta quarta-feira (7 de janeiro) anunciou que o regime venezuelano vai enviar 30 a 50 milhões de barris de petróleo para os EUA (o equivalente a dois meses de produção que ficaram parados pelo bloqueio naval) para serem vendidos ao preço de mercado, cabendo-lhe a ele gerir os lucros “para garantir que será usado a favor do povo venezuelano e dos EUA”. Ao mesmo tempo, os seus militares capturaram mais dois navios, um deles um petroleiro russo que estava quase na Islândia, levando Moscovo a falar de “pirataria”.A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, estimadas em 303 mil milhões de barris (equivalente a 17,5% das reservas mundiais). Mas as sanções (entre elas a que Trump aprovou ainda em 2019), a corrupção e o desinvestimento dos últimos anos fazem com que só consiga extrair menos de um milhão de barris por dia (há dez anos extraía 3,3 milhões). A maior parte das reservas estão na zona da bacia do rio Orinoco. “O presidente Trump espera que o petróleo venezuelano volte a fluir. Mas isso não será barato”, lembrou o investigador Chris Aylett, numa análise da Chattam House. Triplicar a produção até 2040 custaria 183 mil milhões de dólares, segundo as estimativas da Rystad Energy, lembrando que o petróleo venezuelano é pesado e mais caro de extrair e transportar e os preços do Brent têm estado em queda desde 2022. “Vamos fazer com que as nossas gigantescas companhias petrolíferas dos EUA, as maiores do mundo, entrem em cena, gastem milhares de milhões de dólares, reparem as infraestruturas petrolíferas, que estão em mau estado, e comecem a gerar lucro para o país”, disse Trump na conferência de imprensa de Mar-a-Lago. As empresas norte-americanas são as mais bem colocadas para fazer esse investimento - até porque as suas refinarias estão especialmente adaptadas a lidar com o tipo de petróleo venezuelano.Mas podem não estar interessadas em fazê-lo, dadas as preocupações de segurança e o potencial para instabilidade política a longo prazo. Isto depois de os EUA terem tirado Maduro do poder, mas deixado o resto do regime de pé. “Uma enorme quantidade de dinheiro terá de ser gasta, e as companhias petrolíferas gastarão esse dinheiro, e depois serão reembolsadas por nós ou através das receitas”, disse Trump numa entrevista à NBC na segunda-feira, sugerindo que os contribuintes norte-americanos podiam ter que pagar (o que não tem precedentes). Uma reunião estará prevista para esta sexta-feira (9 de janeiro) na Casa Branca com as várias empresas - atualmente só a Chevron está na Venezuela, depois de os ativos da ConocoPhillips e da Exxon terem sido nacionalizados pelo ex-presidente Hugo Chávez em 2007 (ainda exigem milhões de dólares em compensação). As empresas devem exigir garantias de segurança para voltar. “Com uma transição política, a Venezuela poderá aumentar a produção de petróleo para entre 1,3 milhões e 1,4 milhões de barris por dia em dois anos e potencialmente atingir 2,5 milhões de barris por dia durante a próxima década”, disseram os analistas do JPMorgan numa nota citada pela Reuters.Enquanto as empresas norte-americanas não voltam ao país, Trump parece contentar-se em trabalhar com o regime venezuelano e a presidente interina, Delcy Rodríguez, para um acordo para ficar com 30 a 50 milhões de barris de petróleo que ficaram presos por causa do bloqueio naval - o que poderá representar um negócio de 1,9 mil milhões de dólares. Caso o petróleo comece a chegar, pode ser uma prova de que o regime está a colaborar, apesar da retórica contrária da até agora vice-presidente (e ministra do Petróleo) de Maduro . Parte dos barris que ficaram presos iam a caminho da China, o principal comprador do petróleo venezuelano. Pequim não está feliz com a situação e denuncia o “bullying” de Washington. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, disse que este é um “ato típico de intimidação, uma grave violação do direito internacional, uma severa infração à soberania da Venezuela e causará graves danos aos direitos do povo venezuelano”. Os EUA estarão entretanto a exigir ao regime venezuelano que corte relações com Pequim (e Moscovo).O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, já explicou que a ideia não é ficar pelos 50 milhões de barris, mas supervisionar a venda do petróleo venezuelano de forma “indefinida”. Numa reunião da Goldman Sachs, Wright revelou que a partir de agora os EUA vão vender a produção proveniente da Venezuela ao mercado, controlando depois os dividendos das vendas para beneficiar tanto os americanos como os venezuelanos. Petroleiros apreendidosO bloqueio naval que deixou milhões de barris de petróleo presos na Venezuela continua entretanto a funcionar, com os EUA a apreenderem ontem mais dois petroleiros alvo de sanções. Um deles, o Marinera navegava com bandeira russa desde há dias (antes era o Bella 1 e tinha bandeira falsa da Guiana, sendo na prática apátrida). Seguia alegadamente vazio (os EUA ainda não disseram o contrário), tendo saído supostamente do Irão. Ia a caminho da Venezuela quando escapou ao bloqueio. Os norte-americanos, que continuam a usar o nome Bella 1 porque ao abrigo da lei internacional os navios apátridas podem ser intercetados, estavam a persegui-lo há várias semanas. E não é clara a razão para agirem agora, nas águas do Atlântico Norte entre a Islândia e a Escócia, numa operação em que contaram com o apoio da Força Aérea britânica. Na véspera, o The Wall Street Journal tinha revelado que a Rússia teria enviado um submarino e outros navios para escoltar o petroleiro. Mas a operação terá ocorrido sem interferência. Moscovo reagiu à apreensão do navio denunciando uma violação das normas internacionais. “Nenhum Estado tem o direito de usar a força contra navios devidamente registados nas jurisdições de outros Estados”, indicou o Ministério dos Transportes russo. Já o Ministério dos Negócios Estrangeiros exigiu um “tratamento humano e digno” dos russos a bordo do navio e a sua libertação. Noutro incidente, nas Caraíbas, o petroleiro Sophia, de bandeira do Panamá, foi apreendido pela Guarda Costeira dos EUA. O navio tinha partido das águas venezuelanas no início de janeiro como parte de uma frota de embarcações que transportavam petróleo venezuelano para a China em “modo clandestino”, ou seja, com o transponder desligado, segundo dados e fontes do setor marítimo citados Reuters. Os norte-americanos falam de um “petroleiro apátrida, sancionado e pertencente à frota fantasma”..Costa afirma que Gronelândia “pertence ao seu povo” e tem “todo o apoio” da União Europeia.Venezuela e EUA já estão em negociações secretas para levar petróleo para refinarias americanas