O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo expressou esta terça-feira, 17 de março, a sua “inabalável solidariedade com o governo e o povo irmão de Cuba”, depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter dito acreditar que vai ter a “honra de tomar” a ilha, considerando que pode fazer “o que quiser” com o país após meses de bloqueio petrolífero. “É uma nação muito debilitada neste momento”, afirmou Trump na segunda-feira, depois de milhões de cubanos ficarem às escuras por causa de um apagão generalizado. A ilha atravessa um momento difícil, depois de os EUA terem fechado a torneira ao petróleo venezuelano - na sequência da operação militar que levou à queda do presidente Nicolás Maduro - e ameaçarem os outros países com sanções caso continuassem a fornecer Cuba. Este apagão é o sexto em ano e meio, mas o primeiro geral desde o início do bloqueio petrolífero dos EUA (os cortes de eletricidade eram contudo constantes nos últimos meses). Esta terça-feira, o sistema elétrico começou a ser restabelecido aos poucos, mas esse processo costuma demorar vários dias até estar concluído e, desta vez, a ilha quase não dispõe de combustível para acionar os geradores que permitem voltar a ligar as centrais termoelétricas. Além disso, o facto de estas infraestruturas estarem degradadas significa que a luz pode voltar a falhar a qualquer momento. “Hoje, a Ilha da Liberdade enfrenta desafios sem precedentes, que se tornaram o resultado direto do embargo comercial, económico, financeiro e, mais recentemente, energético a longo prazo imposto pelos EUA a Cuba”, afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, em comunicado. Moscovo disse ainda que forneceu e continuará a fornecer a Cuba o apoio necessário, incluindo financeiro.Os apagões constantes estão a causar tensão nas ruas. O que começou como um protesto pacífico na sexta-feira à noite na localidade de Morón, por causa dos cortes de energia e da escassez de alimentos, acabou já na madrugada de sábado com um incêndio no escritório do Partido Comunista Cubano. Vídeos partilhados nas redes sociais mostravam a multidão a gritar “liberdade”. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, reagiu dizendo ser “compreensível a frustração causada pelos cortes de energia”, assim como as “queixas e reivindicações”, mas não a “violência e o vandalismo” e lembrando que não haverá “impunidade”. Na sexta-feira, Díaz-Canel tinha anunciado o início de negociações com a Administração de Trump com o objetivo de “encontrar soluções, através do diálogo, para as diferenças bilaterais que temos entre as duas nações”. O presidente disse que não entra combustível em Cuba há três meses, indicando que a ilha aumentou a produção doméstica de petróleo e gás e que planeia aumentar a geração de energia solar em 10% até ao final de março.Segundo o jornal The New York Times, que cita quatro fontes envolvidas no processo, os EUA exigem a saída do próprio Díaz-Canel para avançar nas negociações com Havana. Mas aceitam que o regime pode continuar de pé, deixando os próximos passos para os cubanos. A ideia é fazer em Cuba o que foi feito na Venezuela, onde Maduro foi substituído pela até então vice-presidente Delcy Rodríguez, que está a colaborar com Washington. A queda de Díaz-Canel, que sucedeu a Raúl Castro na presidência em 2018 e é visto pelos EUA como um entrave a reformas económicas estruturais, daria a Trump uma vitória simbólica, escreveu o The New York Times. Isto porque o presidente norte-americano poderia dizer que fez cair outro líder de esquerda latino-americano crítico dos EUA, depois de Maduro. Contudo, esse cenário não agrada aos exilados cubanos, que esta terça-feira pediram a Trump que se “desligue” do regime instalado na Revolução de 1959. E rejeitaram as reformas propostas por Havana. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, também as considerou “insuficientes”. O vice-primeiro-ministro e ministro do Comércio Externo e Investimento, Óscar Pérez-Oliva Fraga (sobrinho-neto de Fidel e Raúl Castro), anunciou que os cubanos que vivem no exterior vão poder investir na ilha - vão poder, por exemplo, ser sócios ou proprietários de empresas privadas em Cuba. Não só em pequenas empresas, mas em projetos maiores de infraestruturas e outros setores. .Cuba anuncia início de negociações com os EUA e libertação de 51 presos na sequência da falta de petróleo.“Cuba sempre precisou de aliados externos para sobreviver. Hoje não tem mais nenhum"