Acampamento na Porta do Sol, em Madrid, pelo direito a habitação.
Acampamento na Porta do Sol, em Madrid, pelo direito a habitação.Foto: EPA/Borja Sanchez-Trillo

Ter emprego já não chega: habitação deixa mais 770 mil trabalhadores na pobreza em Espanha

Relatório da Oxfam Intermón revela que um em cada três trabalhadores que arrendam casa a preços de mercado fica abaixo do limiar de pobreza depois de pagar a renda.
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Numa altura em que a crise da habitação ganha cada vez mais protagonismo no debate e nas ruas de diversos países europeus, incluindo Portugal, um novo estudo revela que os custos com a habitação colocam mais 770 mil trabalhadores em situação de pobreza em Espanha.

Os dados constam de um relatório da organização não governamental Oxfam Intermón, divulgado esta terça-feira, 20 de outubro, e noticiado pelo jornal espanhol El País.

Segundo o estudo Cuando trabajar no es suficiente (Quando trabalhar não é suficiente), a taxa de pobreza laboral em Espanha aumenta de 11,48% para 15,49% quando são descontadas despesas como rendas, prestações de crédito à habitação e impostos sobre os imóveis. O número de trabalhadores abaixo do limiar de pobreza passa, assim, de 2,2 milhões para perto de três milhões.

A situação é particularmente grave entre os trabalhadores que vivem em casas arrendadas a preços de mercado. Neste grupo, a taxa de pobreza sobe de 19,35% para 34,08% depois do pagamento da renda. Ou seja, aproximadamente um em cada três trabalhadores fica abaixo do limiar de pobreza após suportar os custos da habitação.

Já entre os proprietários, o cenário é diferente. Para quem tem casa própria totalmente paga, a taxa de pobreza praticamente não se altera, passando de 8,19% para 7,95%. Entre os trabalhadores que ainda pagam um empréstimo à habitação, aumenta de 7,77% para 10,22%.

De acordo com o El País, os cálculos da Oxfam Intermón baseiam-se nos rendimentos declarados em 2024, recolhidos através do Inquérito às Condições de Vida do Instituto Nacional de Estatística espanhol (INE). A estimativa dos 770 mil trabalhadores resulta de um cálculo adicional da organização, que desconta os encargos com a habitação aos rendimentos dos agregados familiares.

O relatório evidencia a desigualdade crescente entre proprietários e arrendatários, numa altura em que o acesso à habitação tem motivado manifestações em vários países europeus, como França, Itália, Espanha e Portugal, onde o último fim de semana ficou marcado por protestos contra o aumento do custo de vida e dos preços das casas.

Entre as mobilizações pelo direito a habitação estiveram as acampadas do Porto e de Lisboa, inspiradas pelo mesmo tipo de protesto em Madrid na sequência do caso Maricarme. Os acampamentos nas duas maiores cidades portuguesas foram dissolvidas na manhã desta terça-feira (20) e estão previstos mais manifestações para a noite de hoje.

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