O governo britânico divulgou esta quarta-feira, 11 de março, a primeira tranche de documentos relacionados com a nomeação de Peter Mandelson como embaixador nos Estados Unidos, cargo do qual foi demitido em setembro por causa da extensão da sua relação com o criminoso sexual norte-americano Jeffrey Epstein. No total são 147 páginas de documentos, tendo o secretário-chefe do primeiro-ministro, Darren Jones, explicado no Parlamento que existem outros que o governo deseja divulgar, mas a Polícia Metropolitana solicitou que tal não seja feito para já, por causa da investigação criminal em curso contra Mandelson, que esteve detido durante algumas horas em fevereiro por suspeita de má conduta em cargo público. Mesmo assim, revelou Jones, serão divulgados mais documentos em breve.Um dos documentos agora revelados é um relatório de due diligence elaborado pelo gabinete do governo em dezembro de 2024 sobre a nomeação de Peter Mandelson como embaixador nos EUA e que concluiu que existia um “risco reputacional geral” devido à sua relação com Jeffrey Epstein, com base em várias informações que detalhavam as suas ligações ao norte-americano.Já uma carta divulgada também esta quarta-feira descreve uma reunião de 11 de setembro de 2025, presidida pelo primeiro-ministro, durante a qual foi tomada a decisão de demitir Mandelson, com Keir Starmer a mencionar a sua preocupação “com o facto de as respostas fornecidas por Mandelson a Olly Robbins, Subsecretário de Estado para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Commonwealth (FCDO), sobre os emails, não lhe darem confiança de que não haveria novas revelações”. Os emails aqui referidos são a troca de correspondência entre Mandelson e Epstein já após a sua primeira condenação por crimes sexuais em 2008.“Os emails revelaram uma profundidade e extensão da relação com Epstein que ele [Starmer] desconhecia quando tomou a decisão de nomear Mandelson", pode ler-se na na carta agora divulgada. O primeiro-ministro aceitou afastar Mandelson do cargo, deixando “clara a sua profunda preocupação com as vítimas de Epstein”.O arquivo divulgado por Downing Street mostra ainda que Jonathan Powell, conselheiro de segurança nacional de Keir Starmer, disse que considerou a nomeação de Mandelson “estranhamente apressada”, tendo o o advogado do primeiro-ministro, Mike Ostheimer, escrito após uma conversa telefónica com Powell que este expressou preocupações “sobre o indivíduo e a sua reputação” ao chefe de gabinete do líder do governo, Morgan McSweeney. De recordar que McSweeney apresentou a sua demissão no início de fevereiro, responsabilizando-se pela nomeação de Mandelson como embaixador..Pode consultar aqui o arquivo divulgado:. Um outro documento, datado de 11 de dezembro de 2024 e rotulado como “informação confidencial oficial” mostra algumas das etapas do processo de nomeação de Mandelson como embaixador britânico nos EUA, indicando que McSweeney discutiu com Starmer candidatos, sendo o "principal candidato Peter Mandelson", tendo também discutido “a relação de Peter com Jeffrey Epstein, que analisaremos consigo". Esta nota mostra ainda que o diretor de comunicação da época, Matthew Doyle, “está satisfeito com as suas respostas [de Mandelson] às perguntas sobre o contacto [com Epstein]”. De recordar que há um mês, Starmer, já fragilizado pelo caso Mandelson, teve de se defender no parlamento devido à amizade Doyle com um ex-deputado trabalhista condenado por posse de imagens pornográficas de menores. Matthew Doyle, que foi diretor de comunicação de Starmer até março de 2025 e que o primeiro-ministro nomeou membro da Câmara dos Lordes em dezembro, foi suspenso em seguida do Partido Trabalhista.Na sequência da sua demissão, em setembro último, Peter Mandelson pediu mais de 500 mil libras de indemnização por rescisão de contrato, tendo recebido apenas 75 mil libras - sendo 40.330 libras referentes ao pré-aviso de três meses previsto no seu contrato e 34.670 libras de indemnização especial por rescisão. Segundo os documentos agora divulgados, as negociações “começaram com um pedido do indivíduo [Mandelson] para o pagamento do restante dos custos salariais de quatro anos do contrato a termo. Isto totalizaria 547.201 libras”.Liberais pedem documentos do ex-príncipe AndréFalando esta quarta-feira no parlamento, secretário-chefe do primeiro-ministro afirmou que Mandelson “nunca deveria ter sido nomeado”, mas que, em defesa de Keir Starmer, o relatório de due diligence do gabinete “não expôs a profundidade e a extensão” da relação do ex-embaixador com Epstein.“Já tomámos medidas para corrigir as fragilidades do sistema e garantir que, quando os padrões de conduta não atingem os elevados padrões esperados, haverá consequências mais severas”, disse Darren Jones, acrescentando que “estamos a conduzir uma revisão do sistema de verificação de segurança nacional para garantir que aprendemos com as falhas nas políticas e nos processos relacionados com o caso de Peter Mandelson.”Jones – que classificou o pedido de Mandelson de uma indemnização superior a 500 mil libras como “inapropriado e inaceitável”, explicando que o valor final acordado “visou evitar custos ainda maiores envolvendo um longo processo judicial no tribunal do trabalho - garantiu que as vítimas do criminoso sexual norte-americano serão a “prioridade máxima” do governo, pedindo desculpa por terem de “reviver os horrores” sem que “ainda haja justiça a ser feita”.Durante este debate, os conservadores, através do ministro do Gabinete Sombra Alex Burghart, afirmou que Keir Starmer “sabia tudo o que precisava de saber” ao nomear Mandelson, descrevendo a decisão como uma “má escolha”. “O primeiro-ministro sabia tudo o que precisava de saber. A responsabilidade era dele. E continua a ser. Ele desiludiu o seu partido. Dececionou o seu país. Duvido muito que algum dos dois volte a confiar nele”.Para Ed Davey, líder dos Liberais Democratas, “estes ficheiros mostram, sem sombra de dúvida, que o primeiro-ministro estava bem ciente dos riscos da sua nomeação. Que insulto às mulheres e raparigas que sofreram às mãos de Epstein”. Criticando o pagamento feito posteriormente a Mandelson e notando que “o embaixador caído em desgraça deve doar integralmente qualquer indemnização que tenha recebido a instituições de solidariedade”, Davey referiu que estes foram “os primeiros documentos dos arquivos Epstein do Reino Unido. O governo deve agora divulgar todos os documentos relacionados com a nomeação de Andrew como enviado comercial, obtidos pelos Liberais Democratas, até ao final de março.”.Caso Epstein. Mandelson libertado sob fiança após ser detido por suspeita de má conduta em cargo público.Starmer promete não desistir e uma revolta interna é difícil antes de eleições de maio