O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, continua com o seu cargo em risco, mas uma revolta trabalhista não parece para já nos planos e ele insiste que “nunca vai desistir” do mandato que recebeu em 2024. Há três condições que o beneficiam neste momento: a dificuldade de uma rebelião devido às características da corrida à liderança do Labour, a não existência de um adversário claro dentro do partido (com os suspeitos do costume a ficarem ao seu lado) e o facto de, em maio, haver eleições locais em Inglaterra e para os parlamentos do País de Gales e Escócia, e ninguém querer chegar à liderança na véspera de uma derrota (as sondagens apontam nesse sentido). A passada segunda-feira (9 de fevereiro) terá sido o pior dia para Starmer desde que chegou ao n.º 10 de Downing Street, com o líder trabalhista escocês, Anas Sarwar, a pedir que se demitisse no rescaldo do escândalo da nomeação de Peter Mandelson para embaixador do Reino Unido nos EUA. Uma nomeação que foi feita apesar de serem conhecidas as ligações do político ao pedófilo Jeffrey Epstein. .Keir Starmer entre as manifestações de apoio e os pedidos de demissão.Mas Sarwar ficou sozinho no seu apelo à saída de Starmer, com o primeiro-ministro a receber o apoio do seu governo - e de alguns membros do partido que são apontados como eventuais candidatos à sucessão. Ao final do dia de segunda-feira discursou à porta fechada para os seus deputados e no conselho de ministros, esta terça-feira (10 de fevereiro) de manhã, agradeceu o apoio do executivo, que diz estar “forte e unido”. A líder da oposição, Kemi Badenoch, defende que só escapou porque os ministros têm medo de perder os seus cargos. Mas acredita que isso não vai durar muito. “É apenas uma questão de quando ele sairá, não se sairá. A sua posição é claramente insustentável”, disse à Sky News. Num evento em Hertfordshire, Starmer deixou contudo claro que não está a pensar desistir. “Nunca abandonarei o mandato que me foi dado para mudar este país”. E explicou que a verdadeira luta não é interna, no Partido Trabalhista, mas é contra a “política da divisão” do Reform UK. Revolta internaStarmer pode não se demitir, mas há um mecanismo para o forçar a sair. Mas não é fácil. Em mais de um século, nunca um primeiro-ministro trabalhista foi desafiado pelo partido, sendo que apenas quatro líderes enfrentaram uma corrida pela liderança - o último foi Jeremy Corbyn, em 2016, que se manteve no cargo graças ao voto dos militantes.Entre os conservadores, que tiveram seis líderes nos últimos dez anos, o processo é anónimo: os deputados enviam uma carta ao chamado Comité 1922 a retirar a confiança ao líder, desencadeando um voto de confiança quando 15% do grupo parlamentar fizer o mesmo. Caso o líder perca esse voto (também secreto), não pode concorrer à eleição interna subsequente. Se ganhar, fica “safo” durante um ano. No caso do Labour, o cenário é diferente: o processo não é anónimo e é preciso que 20% do grupo parlamentar (o que atualmente significa 81 deputados, já que o partido tem 404 eleitos) apoie a candidatura de um único rival ao líder. E este tem automaticamente o direito a ter o seu nome do boletim de voto nas eleições internas, ao contrário do que acontecia nos conservadores.Um eventual candidato à sucessão (que tem que ser deputado) precisa de reunir os apoios (seja em segredo ou declarando publicamente as suas intenções à espera que eles apareçam) e quando tiver a lista informar a secretária-geral do partido (atualmente é Hollie Ridley). Os nomes dos apoiantes acabam por ser tornados públicos, pelo que é mais arriscado dar esse passo, e têm que ter a certeza que apostaram no nome certo, já que não podem mudar a meio do processo (só se o seu candidato desistir). Os deputados que não estiverem na lista, são convidados a apoiar outro rival (ou o atual líder). Os candidatos precisam depois de conseguir obter o apoio de 5% das delegações do partido a nível nacional ou de pelo menos três organizações associadas, incluindo dois sindicatos. Quem passar esse obstáculo, é alvo do escrutínio dos militantes. Se Starmer perder, apresenta a demissão de primeiro-ministro ao rei Carlos III, com o sucessor ou sucessora a ser chamado depois a formar governo. Os principais nomes de que se fala para desafiar Starmer são o ministro da Saúde, Wes Streeting, que nunca escondeu o desejo de poder ser líder do partido. Contudo o facto de ser amigo de Mandelson poderá tornar-se um obstáculo e uma sondagem entre os militantes mostrou que perderia face a Starmer. Outros ministros também são falados, como a do Interior, Shabana Mahmood, ou o da Energia, Ed Miliband, que já liderou o partido de 2010 a 2015.Outra possibilidade é Angela Rayner, a ex-vice-primeira-ministra que se demitiu em setembro depois de ser revelado que não pagou os impostos que devia pela sua segunda residência. Continua contudo popular entre os militantes (numa sondagem de novembro, ganharia facilmente a Starmer), mas a investigação do fisco ainda não acabou o que poderá complicar as suas possibilidades. O autarca de Manchester, Andy Burham, queria ser líder, mas não é deputado e foi proibido de concorrer a uma eleição intercalar para regressar à Câmara dos Comuns. Todos eles deram o seu apoio a Starmer, até porque agora não parece ser a melhor altura para o desafiar - especialmente tendo em conta as eleições de maio a nível local. O cenário não é positivo para o Labour, que a nível nacional está em segundo lugar nas sondagens com 19% das intenções de voto, oito pontos atrás do Reform UK e apenas um à frente dos conservadores. Na Escócia, onde há eleição para o parlamento, o Partido Nacionalista Escocês lidera, seguido do Reform UK e só depois o Labour. No País de Gales, também para a Assembleia local atualmente dominada pelos trabalhistas, o partido arrisca não ir além do quarto lugar, atrás dos nacionalistas do Plaid Cymru, do Reform UK e dos Verdes. Um possível futuro líder vai querer que essa eventual derrota fique no currículo de Starmer, que se tiver um resultado muito mau pode até optar por se demitir.