Há pelo menos 81 deputados trabalhistas que já pediram publicamente para Keir Starmer se demitir e duas secretárias de Estado renunciaram mesmo aos cargos, mas o primeiro-ministro britânico e líder do Labour continua a dizer que ninguém desencadeou ainda uma corrida à liderança e que pretende continuar à frente do governo e do partido."O Partido Trabalhista tem um processo para contestar um líder, e esse processo não foi desencadeado", disse Starmer esta terça-feira, 12 de maio, no início de um conselho de ministros que se previa difícil mas onde, segundo alguns dos presentes, ninguém o desafiou. Fontes indicaram à Sky News que o primeiro-ministro não lhes deu hipótese."O país espera que continuemos a governar. É isso que estou a fazer e é isso que devemos fazer enquanto gabinete", insistiu, avisando que as últimas horas foram "desestabilizadoras" e que isso tem "um custo económico real" para o país e as famílias.Sem uma demissão, o que é preciso para desencadear uma corrida à liderança?O Partido Conservador, quando esteve no poder, passou por várias corridas à liderança – houve cinco primeiros-ministros conservadores em 14 anos. Mas o procedimento no Partido Trabalhista é mais complicado. Para desencadear uma eleição interna, o eventual adversário precisa de reunir 81 apoios – correspondente a 20% do atual grupo parlamentar.Há 81 deputados que querem a saída de Starmer, mas isso não significa que estejam a apoiar outra candidatura. Aliás, nem é certo que todos apoiem o mesmo candidato quando chegar a hora de o fazer, até porque representam diferentes correntes dentro do partido.E a partir do momento que declaram publicamente o seu apoio a um deles (e não o podem fazer em segredo), não podem mudar de opinião – a não ser que ele desista.E a palavra adversário não é por acaso: o atual detentor do cargo estaria automaticamente no boletim de voto (a não ser que desistisse), podendo defender a sua posição junto dos militantes trabalhistas.O último líder do Labour a enfrentar uma corrida à liderança (na realidade foram duas, em 2015 e 2016) foi Jeremy Corbyn, quando o partido estava na oposição. E ele ganhou o voto dos militantes nas duas vezes. Por muito impopular que Starmer seja, nada garante que perderia essa eleição.Esta eleição decorre por voto preferencial. Se um candidato tem 50% dos votos, é eleito. Mas se nenhum chegar a esse valor, então o menos votado sai da corrida e os votos são distribuídos por quem os seus eleitores disseram ser a sua segunda preferência. E assim sucessivamente até um dos candidatos ter mais de 50%.Starmer deixou claro que ninguém desencadeou esse processo e que vai continuar. Mas a pressão continua. Porque perder a confiança de 80 deputados (ou mais) significa também que será difícil aprovar legislação no Parlamento (se todos resolverem votar contra o governo).Além disso, a pressão também aumenta se houver membros do governo a demitirem-se. Esta terça-feira (12 de maio) já houve duas secretárias de Estado que se demitiram: a responsável pela pasta da Fé e Comunidades, Miatta Fahnbulleh, e a da Proteção e Combate à Violência contra as Mulheres e Raparigas, Jess Phillips. E pode ser apenas o início de uma enxurrada de demissões. Na segunda-feira (11 de maio) houve quatro membros júniores do governo (são deputados, mas uma espécie de assessores dos ministros) a demitirem-se..Reino Unido. Discurso de Starmer compra tempo, mas não cala a revolta .Com tanta contestação, porque é que ainda ninguém lançou a corrida à liderança? O problema pode ser, simplesmente, porque o favorito a suceder a Starmer não está no Parlamento e por isso não pode ser candidato. O autarca da Grande Manchester, Andy Burnham, é o nome que se fala, mas terá primeiro que ser eleito antes de desafiar o primeiro-ministro – e da última vez que o tentou fazer, foi travado pelo partido.O próximo passo é por isso ver se há algum deputado que se demite do seu cargo para permitir eleições, abrindo a porta a Burnham. E se ele consegue ser candidato (na segunda-feira, 11 de maio, Starmer não rejeitou totalmente essa possibilidade) e, mais importante, ganhar, sabendo-se que o Reform UK e até os Verdes (os principais vencedores das eleições locais da semana passada) tentarão impedir que isso aconteça.Burnham não é o único nome que se fala, mas o ministro da Saúde, Wes Streeting, ainda não revelou as suas cartas. Streeting teria mais hipóteses se lançasse agora o desafio a Starmer, porque a expectativa é que perca se espera pela chegada de Burnham. Mas também tem os seus problemas – nomeadamente a proximidade ao atual primeiro-ministro, além da amizade com Peter Mandelson (cuja nomeção para embaixador dos EUA prejudicou Starmer, devido à relação que tinha com o falecido pedófilo Jeffrey Epstein).E se Streeting entrar na corrida, a probabilidade de a antiga número dois do governo Angela Rayner avançar é muito grande – representam alas diferentes do partido, o primeiro mais à direita, ela mais à esquerda. Sendo que Ranyer ainda está a lidar com os problemas do fisco, tendo-se demitido do cargo quando veio a público que não tinha pago os impostos devia pela sua segunda casa.É a contar com esta divisão dentro do Partido Trabalhista que Starmer continua a desafiar as probabilidades, insistindo que não se demite e que vai continuar à frente do governo - mesmo que pareça apenas uma questão de tempo.Entretanto, no meio de toda a contestação, o primeiro-ministro prepara o Discurso do Rei, que vai ser esta quarta-feira (13 de maio) no Parlamento. O discurso que será lido pelo rei Carlos III é escrito pelo Governo, contendo as prioridades para o próximo ano parlamentar.