O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, pode ter comprado tempo com o discurso desta segunda-feira (11 de maio), afastando a possibilidade de uma corrida imediata à liderança do Partido Trabalhista após o mau resultado nas eleições locais em Inglaterra e para os Parlamentos de Gales e Escócia. Mas não calou as críticas.Mais de 50 deputados do Labour exigem a demissão do líder (o número continua a subir, mas ainda está aquém dos 81 necessários para apoiar outro candidato), com Catherine West a recuar no desafio a Starmer, mas a querer que ele saia até setembro.No discurso do tudo ou nada, o primeiro-ministro admitiu que “foram cometidos erros”, assumiu a responsabilidade e prometeu provar aos que duvidam dele que estão errados. E avisou que o Labour não está apenas a enfrentar “tempos perigosos”, mas também “adversários muito perigosos”, numa referência ao Reform UK de Nigel Farage, mas não só. .“Isto é nada menos do que uma batalha pela alma da nossa nação, e quero deixar bem claro como vamos ganhar, porque não podemos ganhar como uma versão mais fraca do Reform ou dos Verdes. Só podemos vencer como uma versão mais forte do Partido Trabalhista, um partido tradicional no poder, não um partido de protesto”, disse. Fez ainda três anúncios, defendendo laços mais fortes com a União Europeia e deixando claro que vai traçar “uma nova direção para o Reino Unido” na próxima cimeira europeia - o que já está a causar críticas dos apoiantes do Brexit. O segundo anúncio passa precisamente por um programa “ambicioso” para os jovens, permitindo que vivam, estudem ou trabalhem na Europa. O primeiro-ministro anunciou finalmente a nacionalização da empresa British Steel (aço) com os críticos a dizerem que na prática isso já tinha acontecido desde que o Estado tinha assumido o controlo de uma siderurgia que pertencia à empresa chinesa em abril do ano passado. Por tudo isso, dentro do partido - o alvo do discurso - houve quem dissesse que não houve substância, nomeadamente em relação aos problemas com o custo de vida (a principal preocupação dos eleitores), considerando que Starmer está apenas a tentar ganhar tempo.Apenas uma coisa joga a favor do líder trabalhista: aqueles que são considerados os seus principais rivais não estão preparados para avançar e o desafiar. A começar por Andy Burnham. O autarca da região de Grande Manchester é o favorito de muitos dentro do partido, mas o problema é que não está no parlamento. Há uns meses, tentou concorrer a um lugar que ficou vago, mas foi travado pelo Comité Nacional Executivo do partido.Questionado depois do discurso sobre se Burnham seria autorizado a concorrer noutra eleição, Starmer disse que a decisão cabe a esse comité - não fechando totalmente esta porta.O problema é que não basta ele ter autorização do partido, precisa de ganhar essa eleição - e terá o Reform e os Verdes, entre outros, a fazer de tudo para o travar. E, nessa disputa, o partido poderá também perder as eleições para mayor da Grande Manchester, o que seria um desaire para todos. O próprio Burnham não se pronunciou esta segunda-feira (11 de maio) sobre o discurso de Starmer, mas outra das eventuais rivais do primeiro-ministro, a antiga número dois do governo, Angela Rayner, defendeu que foi um erro travá-lo e que ele deve regressar ao Parlamento. Rayner não se lançou na corrida, sabendo que ainda tem que resolver os problemas com o fisco - demitiu-se do cargo depois de vir a público que tinha pago menos do que devia pela sua segunda casa e o processo ainda está a decorrer. Mas não poupa as críticas a Starmer, tendo dito que “o que estamos a fazer não está a resultar e precisa de mudar”. E deixou claro que avança, apesar dos problemas, se o atual ministro da Saúde, Wes Streeting, se lançar na corrida. Este é visto como representante da direita do partido, enquanto Rayner é da ala mais à esquerda. E o primeiro-ministro teria sempre a oportunidade de se defender em qualquer corrida à liderança.No final, o partido poderia passar por uma fase de instabilidade, sem que no final o resultado seja o desejado - especialmente se Burnham não for a votos. E depois de eleito um novo líder, este pode optar por convocar eleições, por considerar que tem que ter o mandato dos eleitores - e isso ameaça custar o lugar a muitos deputados, razão pela qual não haverá mais a juntar-se à rebelião (só 54 em 403)..Keir Starmer faz discurso de relançamento sob fogo.P&R - Irá Keir Starmer conseguir resistir ao desaire eleitoral dos trabalhistas?