A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão desencadeou novo capítulo de relações tensas entre o presidente norte-americano e as capitais europeias. O isolamento a que os EUA ficaram votados quando pediram ajuda da NATO deixou Donald Trump irado. Pior ficou depois das declarações do atual líder europeu mais crente nas relações transatlânticas, Friedrich Merz. O chanceler alemão disse que os EUA estavam a ser “humilhados” pelo Irão e que “claramente foram para a guerra sem qualquer estratégia”. A retaliação não se fez esperar. Depois de ter dito que o democrata-cristão é “totalmente ineficaz”, anunciou um aumento das taxas aduaneiras aos automóveis europeus e que o seu país estava a “estudar” um corte no número de militares estacionados na Alemanha. A Europa, já a sofrer as consequências económicas da guerra, corre o risco de ficar exposta à ausência de capacidades militares..Trump mantém impasse no Irão e abre frente de batalha com a NATO.A decisão de retirar 5 mil militares da Alemanha - de um total de 36 mil - nos próximos seis a 12 meses foi tornada oficial pelo secretário da Guerra, Pete Hegseth, que a sustentou como resultado de “uma revisão completa da postura das forças do Departamento na Europa”. Mas Donald Trump disse no dia seguinte que iria “muito mais longe” do que isso, desmentindo a ideia de uma planificação revista. O anúncio apanhou o comando da NATO de surpresa, o qual, como outros responsáveis, ficou sem saber de que militares se trata. “Não há detalhes porque Trump acabou de inventar este número”, comentou uma fonte norte-americana à Euronews. “A cifra de 5 mil é um número de destaque que Trump retirou do nada porque queria fazer algo demonstrativo como parte da sua confrontação com Merz.”. Devido à ameaça russa, a presença de militares norte-americanos em território europeu tinha vindo a ser reforçada, invertendo a tendência das últimas décadas e a tentativa gorada de Trump, no seu primeiro mandato, de retirar 12 mil soldados. Entre cerca de 50 bases e outras áreas militares, a administração Biden instalou um posto de comando avançado em Poznan, na Polónia, levou mais tropas para os países bálticos, e reforçou a sua presença na base aérea Mihail Kogalniceanu, na Roménia, bem como na base aérea de Larissa e na base naval de Souda, ambas na Grécia. Além disso, abriu caminho, através da assinatura de acordos de cooperação, para o acesso a bases aéreas, navais e terrestres da Suécia e da Finlândia. .68Mil militares norte-americanos estão estacionados em permanência na Europa. A estes juntam-se forças em rotatividade e em exercícios. Destes, 36 mil estão nas várias bases alemãs.. A administração Trump está agora a ensaiar um caminho inverso - ainda que o raio de ação esteja constrangido pelo Congresso, que mandatou as forças norte-americanas a manterem um mínimo de 76 mil militares no continente europeu. Além da Alemanha, o presidente norte-americano considerou igualmente reduzir a presença em Itália - o segundo maior contingente, mais de 12 mil - e Espanha. Ao contrário de Berlim, que não limitou a utilização das bases, Madrid e Roma não permitiram que as forças dos EUA fizessem uso das bases, o que deixou Trump a vociferar contra Pedro Sánchez e Giorgia Meloni e a dizer que iria “provavelmente” fazer o mesmo que à Alemanha. “Por que não deveria? A Itália não nos tem ajudado em nada e a Espanha tem sido horrível. Absolutamente horrível,” disse. Segundo o seu ponto de vista, os EUA ajudaram a Europa a defender a Ucrânia da invasão russa, mas os europeus não retribuíram na guerra do Irão. Noutro desenvolvimento, o diretor para a política da NATO no gabinete do secretário da Guerra, Mark Jones, foi retirado do seu posto em março, noticiou a Atlantic na segunda-feira. Jones, que trabalhava com a Aliança Atlântica há mais de duas décadas e era diretor há 10 anos, foi “acusado de ser fundamentalmente demasiado pró-NATO”. Na Alemanha, a retórica de Trump caiu especialmente mal porque, ao contrário do que sucedia até 2022, o país está a investir em massa na defesa. Começou com o discurso de Olaf Scholz três dias depois da invasão da Ucrânia, e na qual o social-democrata reconhecia o ataque como um momento histórico de mudança (Zeitenwende) e anunciou a alocação de 100 mil milhões e euros para a defesa. Essa política foi aprofundada com a chegada de Friedrich Merz, que dispôs de condições históricas para contornar as limitações ao endividamento para investir até um bilião de euros ao longo de uma década, na defesa e nas infraestruturas. .31Bases e outros 19 locais militares é onde oficialmente as tropas dos EUA estão estacionadas, em dúzia e meia de países. Apesar de presentes em mais países, estão em muito menor número do que até à queda do Muro de Berlim, quando se contava mais de 210 mil soldados..Além da renovação dos equipamentos e do armamento - e em paralelo, do crescimento da indústria militar - , Berlim planeia aumentar as forças de 180 mil para 260 mil pessoas, além de mais do que duplicar o número de reservistas, atingindo 200 mil. Boris Pistorius, que se manteve de um executivo para o outro na pasta da Defesa, há muito proclamou que a Europa deve assumir mais a responsabilidade pela sua própria segurança, tendo repetido a mensagem após o anúncio do Pentágono. Os problemas são, por um lado, a forma como os EUA estão a gerir o tema, ao tomarem decisões sem consultar os aliados - como aconteceu com a guerra no Irão - e o agravamento das dificuldades em reabastecer equipamentos, armas e munições. Pistorius havia defendido um plano para que as capacidades europeias compensassem a redução norte-americana, para “evitar lacunas perigosas”. Nada disso aparenta estar a ser levado em conta. Por outro lado, o rápido esvaziamento de stocks dos EUA durante a guerra com o Irão deixa a Europa e a Ucrânia com um atraso significativo nas entregas. Um dos casos flagrantes é o dos Tomahawk. Os mísseis de cruzeiro de longo alcance deveriam ser colocados na Alemanha a partir de 2027, mas esse acordo está agora em perigo, ora por não haver mísseis em número suficiente, ora porque o Pentágono avalia o cancelamento do que seria a primeira implantação de mísseis de longo alcance naquele país desde o fim da Guerra Fria. Além disso, segundo o Financial Times, o Reino Unido, a Polónia e a Lituânia esperam atrasos. A Ucrânia, que se debate com permanente dificuldade em obter armamento norte-americano, ficou a saber que é de esperar ainda mais demoras para abastecer os sistemas de defesa aérea Patriot, mas também as munições para os sistemas HIMARS e NASAMS.