Rússia: a guerra como pano de fundo nas primeiras legislativas desde a invasão da Ucrânia
Começaram esta sexta-feira (18 de setembro) na Rússia as primeiras eleições legislativas desde 2021, e as primeiras desde a invasão da Ucrânia, prolongando-se durante todo este fim de semana até domingo.
A votação serve para definir a Duma, a câmara baixa do parlamento dominada pelo partido do presidente Vladimir Putin, o Rússia Unida, que tem uma maioria de dois terços.
Nas cabines de voto, os russos podem votar em dois boletins: um contém a lista de partidos e num outro votam em candidatos específicos. Pela primeira vez, o voto pode também ser feito eletronicamente -- algo que o próprio Putin aproveitou, votando a partir de casa.
Independentemente dos resultados - que também não oferecem propriamente margem para muitas dúvidas -, a mensagem vinda do Kremlin e transmitida pelo próprio Presidente antes do início das votações é clara: a guerra vai continuar.
"A vossa escolha e determinação irão demonstrar, mais uma vez, que milhões de pessoas apoiam os nossos combatentes, que somos um povo unido, ligado por valores comuns, pela memória histórica e pelo amor à Pátria", disse Putin numa mensagem televisiva citada pela Associated Press.
E de facto praticamente todos partidos que concorrem fazem parte deste consenso desenhado pelo Kremlin de apoio total à invasão da Ucrânia pelas forças armadas.
Entre as forças a votos, a segunda maior é o Partido Comunista, liderado desde a sua fundação pós-soviética por Gennady Zyuganov. Apesar de criticar políticas económicas do Kremlin, os comunistas russos apoiam a invasão russa. Do outro lado do espectro, a terceira maior força, o Partido Liberal Democrata, de extrema-direita, também defende com maior proximidade as posições do Kremlin.
O único partido que desafiava esta linha oficial, o Yabloko (Maçã, em russo), de matriz liberal social, foi barrado dos boletins de voto em agosto deste ano pela justiça russa, após uma queixa feita pelo partido ultranacionalista Rodina.
Ainda assim, devido ao sistema de voto em listas partidárias e candidatos individuais, alguns candidatos do Yabloko concorrem às eleições, temendo ainda assim a repressão do Kremlin, que já deteve vários membros do seu partido.
"Tenho muito medo. Os meus pais e o meu marido estão muito preocupados comigo. Tenho medo que a repressão comece", contou a candidata Polina Lermant, de Moscovo, à Reuters.
Estas eleições legislativas têm mais uma particularidade, já que são as primeiras que vão incluir residentes das quatro regiões ucranianas que a Federação Russa disse ter anexado no início da guerra.
Sem novidade, a Crimeia, região ucraniana que a Rússia ocupa e diz ter anexado desde 2014, também irá eleger representantes para a Duma.
Estas votações foram criticadas pelas autoridades ucranianas, segundo a AP. Kiev considera ilegal a votação nas zonas ocupadas e pediu que as eleições não fossem reconhecidas, avisando que os ucranianos podiam ser penalmente condenados caso participassem nelas.
O porta-voz da Comissão Europeia, Christian Wigand, falou na mesma voz, tendo condenado a votação "ilegal".
"Estas chamadas eleições representam mais uma violação flagrante do direito internacional. A União Europeia não reconhece, nem nunca reconhecerá, nem a realização destas chamadas eleições - eleições fraudulentas - nos territórios temporariamente ocupados da Ucrânia, nem os seus resultados", afirmou.
A ameaça dos drones ucranianos
A guerra na Ucrânia não é apenas um pano de fundo ou um tópico no programa eleitoral dos vários partidos. Os efeitos do conflito têm estado cada vez mais a serem sentidos dentro do território russo e estes dias de votação não foram exceção.
Em Sochi, importante cidade à beira do Mar Negro, a votação teve de ser adiada devido à ameaça de um ataque com drones ucranianos, noticiou o jornal Kyiv Independent, citando o autarca da cidade Andrey Propushin.
"Os membros das comissões eleitorais, os observadores e os eleitores que se encontram nos locais de votação foram transferidos para abrigos até que a ameaça de um ataque com drones seja levantada", afirmou ainda.
Mas também em Moscovo a ameaça dos drones ucranianos se fez sentir. Segundo a agência EFE, o autarca da capital russa, Sergei Sobyanin, informou que mais de 350 drones inimigos foram abatidos desde a tarde de quinta-feira, 64 deles nas proximidades de Moscovo.
E o Ministério da Defesa russo estimou que 629 aeronaves não tripuladas foram abatidas em todo o país.

