O primeiro contacto significativo entre russos e chineses ocorreu durante a era mongol?Martin Wagner (MW): É difícil determinar quando é que os russos e os chineses se encontraram pela primeira vez. Provavelmente, conheceram-se durante a era mongol, cujo império, no século XIII, se estendia da Hungria ao sul da China e ligava a Europa à Ásia. Em Karakorum, a capital mongol, por exemplo, serviam pessoas da China e da Rus. O que é certo, no entanto, é que eram representantes de entidades políticas multiétnicas e tinham pouco em comum com os russos e os chineses de hoje.Será o Tratado de Nerchinsk a primeira prova de que a Rússia e a China eram/são vizinhas?Sören Urbansky (SU): No século XVII, dois acontecimentos desenrolaram-se em paralelo: a Rússia conquistou a Sibéria, atingiu a costa do Pacífico e chegou às fronteiras da China. Ao mesmo tempo, a Rússia procurou, repetidamente, estabelecer contacto oficial com a corte imperial chinesa. Durante mais de meio século, porém, os mal-entendidos moldaram estes primeiros contactos até que o Tratado de Nerchinsk, em 1689, estabeleceu uma fronteira comum. Em Pequim, durante muito tempo não se compreendeu que os “bárbaros” do norte e os enviados que se recusavam a prestar a sua reverência eram do mesmo povo. Em Moscovo, durante mais de meio século, ninguém conseguia ler as cartas do imperador chinês.O facto de um polaco ter servido de intérprete do lado russo e um português e um francês do lado chinês demonstra o quão pouco se conheciam, ao ponto de não existirem diplomatas que falassem as línguas do seu vizinho?MW: Não só um português, um polaco e um francês traduziram entre os representantes dos Estados russo e chinês - também negociaram um acordo e codificaram o primeiro tratado bilateral entre os impérios em latim. Precisamente porque ambos os lados os reconheceram como intermediários, conseguiram ultrapassar a distância linguística, cultural e política. Sem Tomás Pereira e os seus colegas, russos e chineses, que não se entendiam, provavelmente não teriam encontrado um terreno comum.No século XIX, a Rússia, tal como as outras potências europeias, aproveitou a decadência da Dinastia Qing?SU: Sim. Pode argumentar-se que a Rússia aproveitou o declínio Qing de forma ainda mais decisiva do que muitas outras potências europeias. Em meados do século XIX, o Império Russo anexou vastos territórios da China da Dinastia Qing através do Tratado de Aigun (1858) e da Convenção de Pequim (1860), territórios maiores do que a Alemanha e a França atuais juntas, que permanecem parte da Rússia até hoje. Por volta de 1900, a Rússia expandiu ainda mais a sua influência construindo um troço fundamental da Ferrovia Transiberiana em território chinês, utilizando esta infraestrutura colonial para exercer um controlo direto e indireto sobre partes do nordeste da China até ao século XX..Qual foi o impacto da Revolução Russa na China?MW: A Revolução Russa de outubro de 1917 teve o seu impacto na China tardio e indiretamente, mas de forma ainda mais duradoura, até aos dias de hoje. Isto porque o marxismo chegou à China não através da Rússia, mas do Japão. E foram os anarquistas chineses, e não os comunistas, que primeiro observaram a fundação do Estado Socialista - apenas para rejeitar o modelo. Só em 1921 é que o Comintern, o braço de Moscovo da revolução mundial, estabeleceu em Xangai - a partir de algumas dezenas de comunistas - o partido que ainda hoje governa a China. E só após o estabelecimento do Estado Comunista em 1949 é que o modelo soviético se tornou o seu modelo - embora Mao o tenha adaptado rapidamente às condições chinesas. Até hoje, o Partido Comunista Chinês defende a sua tradição: a ditadura comunista.Como era a relação entre Mao Tsé-tung e Estaline?MW: Era uma não-relação, porque cada lado exigia do outro aquilo que o outro não estava disposto a dar. Por outras palavras: para Estaline, Mao era um revolucionário de segunda categoria que primeiro ignorou e depois manteve à distância. Para Mao, porém, Estaline foi - com o tempo - um ausente, um adversário, uma figura paternal, um humilhador, um presságio de desgraça: em suma, um outro significativo a cuja sombra não conseguia escapar. A sua hierarquia expressava-se por meio de jogos de poder. Mao passou o inverno de 1949-50 em Moscovo para negociar um tratado de amizade, mas Estaline não o recebeu, mandou espiá-lo e até fabricou uma entrevista com Mao.O conflito sino-soviético mostrou que a rivalidade geopolítica era mais forte do que a aliança ideológica?MW: A rutura entre os impérios comunistas não teve origem em diferenças ideológicas. Se estudarmos as conversas entre Estaline e Mao ou os seus sucessores, torna-se claro: não discutiam sobre a suposta inter- pretação correta de Marx ou de Lenine, mas sobre conflitos de interesses tangíveis - na geopolítica, na economia, na defesa e também em relação à soberania nacional, à hierarquia bilateral e, não menos importante, às suas animosidades pessoais. Na década de 1960, enquadraram estes conflitos em termos ideológicos - porque era a única linguagem que ainda partilhavam. Subjacente a isto, porém, existia um conflito sobre a ordem política: regime totalitário versus regime autoritário. Enquanto a União Soviética, após Estaline, restringiu o regime do terror, Mao expandiu-o na China.A visita de Nixon à China e a aproximação entre americanos e chineses desequilibraram a Guerra Fria?SU: Sim, em grande medida. A visita de Richard Nixon à China em 1972 e a aproximação sino-americana remodelaram a geopolítica da Guerra Fria. Esta mudança foi possibilitada pela guerra fronteiriça de 1969 entre a China e a União Soviética, que aprofundou a divisão sino-soviética. A abertura não pôs fim à ordem bipolar, mas transformou-a numa relação triangular mais flexível entre os Estados Unidos, a China e a União Soviética. Washington ganhou influência, Pequim reduziu o isolamento e o poder soviético foi estrategicamente limitado.Os comunistas chineses aprenderam com os erros de Gorbachev?SU: Pode até argumentar-se que ainda estão a aprender. Na perspectiva do Partido Comunista Chinês, as reformas associadas a Mikhail Gorbachev são amplamente recordadas como fracassos. Enquanto Gorbachev afrouxou o monopólio político do partido através da glasnost e da perestroika, a China procurou a liberalização económica, mantendo rigidamente o regime de partido único. O colapso da União Soviética continua a ser um trauma formativo para a elite política chinesa. É visto como um destino a evitar a todo o custo. Esta memória ajuda a explicar por que é que o PCC se agarra ao poder e suprime até os mais pequenos sinais de oposição.A atual aliança sino-russa é sincera ou meramente circunstancial?MW: Não há dúvida de que é genuína - tanto nos seus interesses partilhados como nas suas rivalidades comuns. A China e a Rússia beneficiam, tanto externa como internamente, da sua parceria: minam a ordem mundial liberal e reforçam-se mutuamente como sistemas autoritários, tanto a nível político como económico. Ao mesmo tempo, perseguem visões distintamente diferentes para o mundo de amanhã. Pequim procura uma ordem global com apenas duas superpotências, a China e os Estados Unidos, enquanto Moscovo ambiciona uma “ordem mundial multipolar” em que a Rússia seja mais do que meramente uma potência regional. Esta luta partilhada pode tanto fortalecer ainda mais a sua parceria como conduzir a novos conflitos. Por conseguinte, devemos preparar-nos para a possibilidade de Pequim e Moscovo libertarem totalmente o potencial destrutivo da sua parceria..Com a crise demográfica russa, é concebível que os chineses recuperem territórios no Extremo Oriente russo, mesmo que inicialmente através de emigração ilegal?SU: Não, isso continua a ser altamente improvável, pelo menos por enquanto. Houve uma migração significativa de trabalhadores chineses para a Sibéria e para o Extremo Oriente Russo na década de 1990, mas hoje o perfil mudou: estudantes, investidores e turistas - o maior grupo de visitantes estrangeiros - substituíram em grande parte os pequenos comerciantes e agricultores. A Rússia continua a manter um controlo firme sobre a região, restringindo o investimento chinês. No entanto, a presença económica da China tem crescido, particularmente desde 2022, com novas pontes sobre o rio Amur e a cidade de Vladivostok designada como porto franco para embarcações chinesas. Contudo, a recuperação territorial não é previsível. A Rússia é uma potência nuclear e os custos para a China seriam proibitivos.Se a China se tornar a principal potência mundial, ultrapassando os EUA, como é que isso seria visto pela Rússia?MW: Os historiadores como nós não são bons a prever o futuro. No entanto, os seguintes cenários parecem concebíveis: a ascensão da China poderá fortalecer a sua aliança com a Rússia - se Moscovo aceitar o seu papel de parceiro júnior ainda mais enfraquecido, se a China proporcionar à Rússia um aumento do comércio e se a Rússia beneficiar suficientemente disso, também em comparação com o resto do mundo. A relação também poderia mudar no sentido oposto. Se a China não subordinar os seus interesses económicos globais ao apoio à Rússia, Moscovo poderá procurar laços mais estreitos com os Estados Unidos - tanto por interesse económico como pelo cálculo estratégico de contenção da China. Isso também dependerá de quem governar em Moscovo e Pequim na altura.Putin e Xi confiam realmente um no outro?SU: Na verdade, não, uma vez que a confiança entre autocratas parece ser notoriamente limitada. Como historiadores, precisamos de ser cautelosos quando Putin e Xi se autointitulam publicamente como “bons amigos” ou “velhos amigos”. Encontros repetidos, bem mais de 40 até à data, permitiram-lhes compreender as prioridades e os estilos de trabalho um do outro, mas a confiança genuína continua a ser ilusória. A relação entre eles é pragmática, construída sobre interesses comuns e cálculos estratégicos, em vez de confiança pessoal, refletindo a natureza cautelosa e transacional das alianças entre líderes poderosos e autoritários..“O enquadramento, a ambição e o alcance global da Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota foram de Xi”