Oito milhões de húngaros são chamados no domingo para umas eleições cujo resultado é incerto. Pela primeira vez desde que chegou ao poder, Viktor Orbán vê o seu lugar em risco graças à aguerrida oposição de Péter Magyar. Mas a este último não é suficiente ter mais votos: a reforma eleitoral e o recente redesenho dos círculos eleitorais favorecem o nacional-populista. Para Magyar, as eleições legislativas são "um referendo sobre o lugar da Hungria no mundo", como disse à Associated Press.Péter Magyar, o conservador que quer devolver a normalidade ao país.Em 2022, a deriva autocrática de Viktor Orbán mostrava-se impante na ressaca das eleições. Uma coligação que juntou seis partidos, da esquerda à direita, com o objetivo de derrotar o Fidesz, não conseguiu sequer um terço dos 199 lugares do parlamento. Mas, no ano seguinte, um escândalo de pedofilia viria a chocar o país — a origem do fenómeno Magyar e a queda de popularidade do primeiro-ministro. Ao conceder um perdão a um diretor de um lar de crianças que tinha sido preso por encobrir abusos sexuais infantis, a presidente Katalin Novák assinou também o fim da sua carreira política, bem como à da ministra da Justiça, Judit Varga, ambas do Fidesz. O ex-marido de Varga, Péter Magyar, até então diretor da instituição estatal responsável por empréstimos a estudantes, também anunciou a sua demissão. Durante anos, Magyar manteve-se na sombra da mulher. Acompanhou-a para Bruxelas, onde Varga foi assistente parlamentar entre 2009 e 2018, ano em que foi chamada para o governo: primeiro como secretária de Estado para a União Europeia, um ano depois como ministra da Justiça. Na capital belga, Magyar obteve em 2011 um cargo na representação permanente da Hungria na UE. Ao regressar a Budapeste, segundo o portal noticioso Telex, foi o responsável pela estratégia de comunicação da mulher enquanto ocupou cargos de direção em várias empresas públicas. Uma ascensão que se pode explicar pela amizade formada enquanto estudante de Direito com o ministro adjunto de Orbán, Gergely Gulyás, e à entrada num restrito círculo do poder apelidado Stádium Klub. .Podem as eleições de domingo ser o fim do “reinado” de 16 anos de Viktor Orbán na Hungria?. Caracterizado como ambicioso, individualista, irascível, e veemente defensor das suas ideias, Magyar rompeu com o Fidesz quando o escândalo foi conhecido, em 2024. Tornou-se numa figura pública ao liderar uma campanha de indignação na qual acusou o governo do Fidesz de corrupção em massa. Nesta altura já se tinha divorciado de Judit Varga e havia sido afastado do Stádium Klub. Um mês depois, Magyar anunciou a fundação do partido Tisza (nome do segundo maior rio húngaro). E, cumprindo a promessa de que iria expor a corrupção do governo, divulgou um áudio da ex-mulher, na qual Varga revelava que o braço-direito de Orbán adulterou provas num escândalo de corrupção que envolvia altos funcionários do Fidesz. Como um bumerangue, as suas acusações voltaram-se com toda a força: Judit Varga acusou-o de violência doméstica; Evelin Vogel, a ex-namorada pós-separação, também o acusou de ser agressivo. A esta última, acusou-a de estar a tentar chantageá-lo em troca de 70 mil euros. Mas há mais: no início do ano foi publicado um vídeo “ao estilo russo” de Magyar em relações íntimas com uma mulher, e apresentado como uma orgia de drogas. O líder do Tisza negou consumir drogas, e afirmou que é um “quarentão com atividade sexual regular”. Além disso, é alvo de vídeos feitos por IA onde a sua figura anuncia que, se for eleito primeiro-ministro, vai baixar a idade da reforma, ou aparece de camisa-de-forças. O Fidesz também o descreve como subserviente a Bruxelas ou aliado de Kiev.Contra a manipulação, Magyar tem percorrido o país, incluindo vilas e aldeias onde Orbán é mais popular, num discurso contra a corrupção e que, no fundo, promove as ideias conservadoras do Fidesz antes da sua deriva antieuropeia e pró-russa.Viktor Orbán, o autocrata e rato ajudante do leão russo.Em 1989, perante uma multidão estimada em 250 mil pessoas, Viktor Orbán, então com 25 anos, teve a sua primeira prova de fogo enquanto político ao exigir a saída das tropas soviéticas do seu país. Em 2026, o serviço de informações externas russo SVR propôs encenar uma tentativa de assassínio contra o primeiro-ministro húngaro para dar-lhe um novo impulso nas sondagens. Uma viragem de 180 graus face a Moscovo que seria surpreendente se de há anos para cá o líder do Fidesz não tivesse aprofundado as relações com Vladimir Putin, apesar da — ou exatamente devido à — guerra na Ucrânia. Em outubro passado, revelou há dias a agência Bloomberg, um telefonema entre ambos demonstrou o papel que Orbán se propôs. “A nossa amizade atingiu um nível tão elevado que posso ajudar de qualquer forma —há uma história nos nossos livros de imagens húngaros em que um rato ajuda um leão”, disse a Putin, de acordo com a transcrição do telefonema. “Estou pronto para ajudar imediatamente. Em qualquer assunto em que eu possa ser útil, estou ao seu serviço.” .Vance foi à Hungria apoiar Orbán e acusar a UE de “interferência” eleitoral.Segundo o relatório do SVR obtido por um serviço de informações europeu, “a maioria (52,3%) está insatisfeita com o estado das coisas no país”, escreveram. “A insatisfação prevalece não só nas cidades, mas também nas zonas rurais (50,8%), onde tradicionalmente a posição do partido no poder Fidesz é forte.” A encenação do assassínio, propunha a agência russa, iria “alterar a perceção da campanha, saindo do domínio racional das questões socioeconómicas para um domínio emocional, onde os temas principais passarão a ser a segurança do Estado e a estabilidade e defesa do sistema político”. Desconhece-se se esta interferência eleitoral chegou a ser proposta a Budapeste. As armas usadas por Orbán e o seu Fidesz para assustar a população são demonizar a União Europeia, na pessoa de Ursula von der Leyen, e a Ucrânia, através de Volodymyr Zelensky — em especial, nos últimos tempos, a acenar com o fantasma de os húngaros serem enviados para a guerra. O mais recente capítulo da tensão com Kiev deu-se na sequência de terem sido encontrados explosivos junto de um gasoduto que liga a Rússia à Hungria na Sérvia. Orbán não acusou formalmente a Ucrânia, mas disse que o país sob agressão russa está a “trabalhar há anos para cortar a energia russa da Europa”. O diretor da agência de contraespionagem sérvia de pronto ilibou Kiev, o que levou o opositor de Orbán Péter Magyar e o Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano a caracterizarem o sucedido como uma operação de falsa bandeira. Acusado por uma investigação jornalística de ter enviado espiões para Bruxelas entre 2012 e 2019 para saber e tentar influenciar as medidas europeias em resposta às suas políticas de ataque à liberdade de imprensa, ao Estado de direito ou à independência judicial, assim como à investigação ao desvio de fundos da UE na Hungria, Orbán é visto por alguma extrema-direita como um modelo de liderança devido à sua posição inflexível face à imigração — no que é secundado pela larga maioria da população, inclusive Péter Magyar. Acolhido como uma estrela nos Estados Unidos de Trump, Orbán recebeu na terça-feira o vice-presidente norte-americano. Durante esta ação de campanha eleitoral, J.D. Vance acusou a União Europeia de interferência eleitoral.