Donald Trump não é homem de consensos. Desde a entrada do homem de negócios na política que se tornou num fator de polarização. Nada disto é novo, mas agravou-se nos últimos tempos. Além da impopularidade recorde desde o início do segundo mandato, atingida há dias, a forma como arrastou o seu país para uma nova guerra terá sido a última gota para os alemães. Com um cenário político marcado pelo crescimento do extremismo e da divisão, a Alemanha mostra uma rara unidade na rejeição do presidente dos Estados Unidos. Por razões históricas, Berlim tem mantido uma política de proximidade para com Washington, ainda que com altos e baixos. Por exemplo, em 2002, durante a resposta dos EUA ao 11 de Setembro, o chanceler Gerhard Schröder distanciou-se da administração de George W. Bush — no seu livro de memórias, o homem entretanto caído em desgraça pelas suas ligações a Vladimir Putin classificou a política levada a cabo pelo vice Dick Cheney como uma "sequência de erros de cálculo" que se traduziram na invasão do Iraque.Mais de duas décadas depois, a divergência entre a Alemanha e os Estados Unidos não se resume a uma questão de política externa — é a quase toda a política de Donald Trump. A imposição de taxas aduaneiras aos produtos da União Europeia, a posição errante perante a Ucrânia e a preferência pelo retomar de relações com Moscovo, a saída de várias instituições e acordos internacionais, a ameaça de tomar a Gronelândia e, por fim, a guerra no Irão foram afastando até quem mais mostrava afinidades com o presidente norte-americano e o movimento MAGA, a Alternativa para a Alemanha (AfD). .Em tom diplomático, os colíderes do partido de extrema-direita emitiram uma nota na qual expressavam a sua "grande preocupação" com os ataques lançados por Israel e EUA. Em declarações à TV, Tino Chrupalla disse que Trump começou como presidente da paz e "vai acabar como presidente da guerra". Alice Weidel, a outra líder do partido, já tinha criticado em janeiro a política de Trump face às suas ameaças à soberania da Dinamarca e à operação de rapto do venezuelano Nicolás Maduro. Perante um conflito sem fim à vista e com as consequências do mesmo a chegar às carteiras dos alemães, Weidel deu ordens para as ligações aos norte-americanos serem menos visíveis. Segundo o site Politico, em consequência, foi cancelado um jantar em Berlim entre deputados da AfD e um funcionário do Departamento de Estado e um elemento da embaixada dos EUA. O partido lidera as sondagens em duas regiões do leste, cujas eleições se realizam em setembro, e não quer perder votos entre os eleitores que são genericamente mais pró-russos e mais críticos dos Estados Unidos.Os estudos de opinião são claros: em janeiro, 61% dos alemães consideravam Trump uma ameaça para o seu país (sondagem Bild/INSA). A sua popularidade estava em 73 pontos negativos, graças a 84% de opiniões desfavoráveis e 11% de opiniões favoráveis (sondagem YouGov). .O mais recente afastamento deu-se ao mais alto nível. Frank-Walter Steinmeier, o presidente da Alemanha, não poupou críticas ao congénere norte-americano num discurso proferido perante o corpo diplomático, na terça-feira. "Esta guerra é também — e peço que me perdoem dizer isto, como alguém diretamente envolvido — um erro politicamente desastroso. E isso é o que mais me frustra. Uma guerra realmente evitável, desnecessária, se o seu objetivo era impedir o Irão de desenvolver uma arma nuclear", disse. Steinmeier referia-se ao seu envolvimento porque, enquanto chefe da diplomacia alemã à época, foi um dos envolvidos no acordo nuclear entre o Irão e a comunidade internacional, assinado em 2015. O presidente germânico lembrou ainda o óbvio — a violação do direito internacional — e desvalorizou a ameaça que representava o Irão. "Há poucas dúvidas de que, em qualquer caso, a justificação de um ataque iminente aos EUA não se sustenta." Em conclusão: "Assim como acredito que não haverá um regresso às relações com a Rússia como eram antes de 24 de fevereiro de 2022, também acredito que não haverá um regresso às relações transatlânticas como eram antes de 20 de janeiro de 2025”, disse em alusão à invasão da Ucrânia pelo exército de Putin e ao dia da tomada de posse de Trump.O homem que é considerado o mais atlantista de todos os chanceleres, Friedrich Merz, já tinha perdido as suas ilusões. Ainda antes de ter tomado posse, e perante as declarações chocantes da administração Trump, em particular de J.D. Vance, o democrata-cristão declarou ser prioridade do governo "fortalecer a Europa o mais rapidamente possível, para que, passo a passo, se possa alcançar a independência em relação aos EUA". Ainda assim, Merz tem tentado manter o equilíbrio possível. .De visita à Casa Branca, no início do mês, ouviu em silêncio o quase octogenário criticar o espanhol Pedro Sánchez e o britânico Keir Starmer pelas objeções à guerra. Ainda concordou com os objetivos declarados pelos EUA para levar avante a operação Fúria Épica. Mas foi distanciando-se progressivamente. Primeiro queixou-se dos "impactos maciços nos custos da energia" e no potencial de causar nova onda de refugiados para a Europa. Mais recentemente, considerou um erro a decisão dos EUA de aliviar as sanções à Rússia de forma a permitir o comércio de algum petróleo e com isso tentar segurar os preços do crude. "Queremos assegurar que a Rússia não aproveite a guerra no Irão para enfraquecer a Ucrânia", comentou Merz.O seu ministro Boris Pistorius, o social-democrata que permaneceu na pasta da Defesa, teceu críticas aos EUA desde o início da guerra. "Esta não é a nossa guerra", foi como respondeu aos apelos de Trump para que os aliados da NATO se envolvessem. O presidente norte-americano tem desde então vindo a criticar os líderes dos países da Aliança Atlântica ("cobardes") e chamado à organização de "tigre de papel". Pistorius devolveu as críticas. "O que realmente me preocupa mais nesta guerra é que não houve consulta [com os aliados], não há estratégia, não há um objetivo claro e a pior coisa, do meu ponto de vista, é que não há uma estratégia de saída", disse na quinta-feira em Camberra. .As críticas francas de Pistorius refletem a nova estratégia do SPD para as relações externas, aprovada em fevereiro. De acordo com o documento do partido liderado por Lars Klingbeil, a Alemanha e a União Europeia devem repensar a sua relação com os Estados Unidos. Em declarações à agência DPA, o homem que integra a coligação como ministro das Finanças e vice-chanceler, disse que o seu país tem de adotar uma posição realista, o que implica manter uma parceria com os EUA, mas desenvolver as suas próprias capacidades. Um documento que poderia ter sido aprovado pela CDU de Merz. .I Guerra de Memes Mundial. Há Call of Duty de Trump ou caso Epstein do Irão, tudo serve para 'trolar'