Ainda é possível dizer que EUA e Europa são aliados?Eu acho que sim.Mesmo no meio de tudo o que diz ou ameaça fazer o presidente Donald Trump?Houve um repórter muito perspicaz que, há uns anos, cunhou a frase: “os opositores do presidente Trump levam-no à letra, mas não a sério, enquanto os apoiantes o levam a sério, mas não à letra”. Trump é certamente alguém que domina a arte da hipérbole, de chamar a atenção, de fazer marketing. Penso que há um método nisto, desde tentar semear ambiguidade estratégica até simplesmente dominar. Ele não é necessariamente consistente, mas é dominante. E esta incoerência faz com que todos estejam sempre de olho nele, porque nunca se sabe ao certo onde vai parar. E o que isso significa para a NATO?Penso que é preciso analisar com mais precisão a estratégia do presidente em relação à Aliança. Por um lado, expõe os aliados ao poderio russo como forma de os pressionar e obrigar a empenharem-se mais na sua própria defesa. E, nesse sentido, creio que o principal alvo tem sido a Alemanha. Por outro lado, não quer ir tão longe ao ponto de convidar a uma invasão russa da Europa ou arriscar uma guerra terrestre de maior escala no continente. E assim, está constantemente a caminhar na corda bamba entre, por um lado, as declarações que fazem as pessoas questionar-se: “será que ainda está comprometido com a NATO?” Mas, por outro lado, deixando sempre claro nos documentos estratégicos, nas discussões privadas com os funcionários da Administração, que o artigo 5.º continua a ser importante e valioso. E este equilíbrio delicado é, creio, a característica definidora da política Europa-NATO. E os responsáveis da administração Trump defendem-no dizendo que já não podemos agir como se estivéssemos nos anos 1990, porque temos um concorrente do mesmo nível na Ásia, problemas não resolvidos no Médio Oriente e uma guerra na Europa, para não falar dos problemas na América Latina, como a Venezuela. Isto significa que precisamos que os europeus façam mais. E o método de Joe Biden de os sufocar com abraços acalmou-os em vez de os despertar. Como justifica, então, o que quis fazer com a Gronelândia? Penso que a Gronelândia teve a ver com o legado presidencial. Grandes presidentes americanos expandiram o país. Passámos de 13 colónias na costa leste, seguindo a doutrina do destino manifesto até à Califórnia. Thomas Jefferson é elogiado pela compra da Louisiana. [O secretário de Estado, William] Seward comprou o Alasca. Outros presidentes já fizeram propostas pela Gronelândia. Portanto, acho que ele basicamente olhou para o Hemisfério Ocidental e pensou: é isto que os grandes presidentes fazem. Sem falar na sua vida passada no ramo imobiliário e de marketing... Mas recuou quando foi confrontado com aquilo que os amigos, e ele geralmente considera muitos dos parceiros europeus como amigos, disseram - incluindo Mark Rutte, que respeita como secretário-geral da NATO. Quando o presidente aumentou o nível de tensão, os europeus reagiram dizendo que aquilo já estava a ir longe demais e que era preciso trabalhar numa saída negociada, talvez algo como a base soberana que os britânicos têm em Chipre como solução para a Gronelândia. Não sei se os dinamarqueses aceitariam isso, mas penso que está, pelo menos, em vias de negociação. E espero que com a intervenção de Rutte, e o presidente aparentemente ficou muito satisfeito com essa intervenção, estejamos agora num ponto em que possamos negociar a resolução do problema. Os americanos pensam o mesmo que o presidente sobre a NATO? De um modo geral, a opinião pública americana em relação à Europa é muito positiva. São considerados primos civilizacionais, um local de herança comum, um ótimo destino de férias, como Portugal, por exemplo. Penso também que há um reconhecimento razoável da enorme dependência económica que temos uns dos outros. Quarenta e oito dos 50 estados norte-americanos exportam mais para a Europa do que para a China. Os volumes de investimento direto são enormes. Superam de longe qualquer outra relação de investimento no mundo. Esta é realmente a essência da relação económica transatlântica, mais do que o comércio. Portanto, é isso que eu acho que o povo americano entende. Intuem que do lado certo estão os britânicos, os alemães, os franceses, os italianos, os portugueses, e do lado errado estão os russos. Acho que há um instinto reaganesco saudável, se é que lhe podemos chamar assim. Ao mesmo tempo, os americanos não têm, e creio que isto se aplica à política externa em geral, opiniões fortes sobre assuntos internacionais. E dependem realmente do presidente para os orientar. Logo, a influência do presidente é determinante em muitos aspetos sobre a forma como os americanos pensam, agem e se comportam em relação à política externa. .Pedro Sánchez "está a fazer política" com a NATO e a guerra no Irão.Falou da relação com os líderes e aliados da NATO como algo pessoal. Não haverá pior relação do que a de Trump com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, que criticou na sua intervenção no Foro La Toja. Como se vê isso em Washington? Penso que todas as críticas que os europeus fazem a Trump são apenas uma conjetura, e não totalmente injustificada, de que ele vê a política, em parte, como teatro. Quer dizer, há conteúdo, sim, mas tem uma forma de apresentação e uma forma de marketing. E isto é visto com algum desdém, sendo considerado uma forma inadequada de conduzir a política externa. Mas quando analiso a posição de Pedro Sánchez sobre o assunto, percebo que está a cortejar a esquerda em Espanha. Houve eleições em Castela e Leão, as da Andaluzia estão a chegar. Ele tem problemas com o próprio governo e com a própria família, com acusações de corrupção contra a mulher. Não acompanho a política espanhola de perto, mas vemos isso em Washington. E ele está a aproveitar. E compará-lo-ia com Keir Starmer. O primeiro-ministro britânico, por pura falta de jeito, acabou por ser alvo de crítica, e quer desesperadamente evitá-la. Não é uma boa jogada na política britânica ser atacado pelo presidente americano. Em contraste, Pedro Sánchez procura ativamente o desprezo de Trump e parece deleitar-se com isso. Por isso, vejo-o como um líder político fraco, que tenta escapar aos seus dilemas políticos internos refugiando-se no palco internacional e atacando Trump. Repito, não defendo tudo o que presidente disse e a forma como tratou os nossos aliados, mas não aceitarei críticas de ninguém de Espanha que diga que o presidente está a fazer política ou a comportar-se de forma inadequada porque o primeiro-ministro deles é pelo menos tão mau como ele.Mas compreende a posição da Europa quando é criticada por não entrar na guerra com o Irão, mesmo não tendo sido avisada sequer cinco minutos antes... Gostaria de referir dois pontos. Em primeiro lugar, a relação entre Keir Starmer e Donald Trump deteriorou-se porque o presidente ligou a Starmer a propósito da opção de utilizar a base de Diego Garcia e outras bases britânicas para as operações. Portanto, no mínimo, os britânicos sabiam. Além disso, do meu ponto de vista no think tank, sem ter acesso a estas conversas entre líderes, eu conseguia ver que os EUA estavam a deslocar recursos maciços para a região. E ninguém o faz sem estar preparado para usar a força. Dito isto, compreendo a visão europeia de que não houve consultas suficientes. Mas penso que esta falha processual mascara, na verdade, uma diferença fundamental de opinião sobre se devemos ou não usar a força. E esse é o cerne da discordância. Portanto, esse é o primeiro ponto. Em segundo lugar, estamos onde estamos. E noto que os europeus não estão nada satisfeitos com a situação atual. Mas penso que, em vez de olharmos para trás e nos concentrarmos no que poderia ter sido, devemos procurar medidas pragmáticas e positivas para tentar mudar esta situação para um caminho melhor e mais saudável. Porque importa o que os europeus dizem. Parte da estratégia iraniana de atacar os Estados do Golfo e de fechar o Estreito de Ormuz, é pressionar os aliados dos EUA a forçar Washington a terminar a guerra nos termos do Irão. Se os europeus demonstrarem muita desunião ou frustração com os americanos, isso encoraja os iranianos.Penso que na Europa é difícil explicar qual é o objetivo final. E depois do Afeganistão existe preocupação nos governos sobre onde nos estamos a meter... Se a atitude europeia sobre isto tivesse sido desde o início: estamos surpreendidos - embora não devêssemos estar -, mas esta guerra já começou e desejamos tudo de bom aos americanos, e estamos com eles em espírito. E se quiserem podem aterrar os aviões, reabastecê-los, sobrevoar os territórios, o que não creio que torne a Europa cúmplice de uma guerra, nem ponha em risco vidas, soberania ou orgulho europeus, ou os coloque em conflito com os iranianos. Se esta tivesse sido a atitude, penso que a reação dos EUA teria sido diferente. E depois, quando os iranianos decidiram atacar as bases europeias, mataram até um soldado francês no Iraque, então saber quais seriam as operações defensivas que poderiam empreender. Que os europeus estão a empreender e que poderiam provavelmente divulgar com mais ênfase. E isso poderia incluir a fase pós-combate, como a Europa está a fazer, mas também oferecer algo agora aos americanos, como recursos aéreos ou algo para demonstrar que estão envolvidos. Porque, certamente, tudo isto é do interesse europeu. E do ponto de vista americano não vemos realmente como é que a via de negociação europeia, que alguns defendem como sendo o caminho certo, fez alguma diferença.Como assim?Fomos a Genebra, pressionámos os iranianos sobre o enriquecimento de urânio, e eles simplesmente recusaram-se a negociar. E a esperança é que mais pressão ajude a alcançar um melhor resultado negociado. No mínimo, os iranianos estão enfraquecidos, e isto é importante por causa dos grupos aliados na região, e também por causa do seu enorme arsenal de mísseis balísticos, tudo isto ignorado pelo JCPOA [o acordo nuclear de 2015]. Quer dizer, abdicámos das sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU, que contavam com o apoio da China e da Rússia e nunca recuperaremos, em troca de restrições nucleares limitadas, enquanto ignorámos todas estas outras questões. E isto é muito grave. E os israelitas começaram a dizer: “Ei, pessoal, estão a transferir componentes de mísseis balísticos para o Líbano.” E sempre que se levanta isto aos europeus eles dizem: “Bem, vamos tentar uma designação terrorista.” Mas isso não é repor as sanções nucleares. Os europeus dirão: “Isso deixa o JCPOA em risco”. Portanto não havia realmente outro caminho a seguir. E, mais uma vez, tentámos retomar as negociações após a Guerra dos Doze Dias, mas não deu em nada. Portanto, penso que estamos numa competição de longo prazo com os iranianos. Não vamos enviar tropas terrestres para o terreno. Os dias das invasões do Iraque ao estilo de George W. Bush acabaram. Mas estamos numa competição e esta fase, no mínimo, enfraquece o Irão e agora, com o bloqueio económico, os iranianos estão a ser ainda mais enfraquecidos. Veremos onde as negociações vão parar e depois passaremos para a próxima fase, até que, eventualmente, o Irão tenha um novo governo.Acha que Trump conseguirá um acordo melhor que Obama? Sim, porque mesmo uma moratória de 15 anos sobre o enriquecimento iraniano parece agora muito melhor do que parecia naquela altura, porque ele reduziu muitas instalações nucleares a escombros e destruiu a base industrial de defesa iraniana, de modo que não podem construir um escudo balístico antimíssil em torno do programa nuclear. E enfraqueceu os aliados, pelo que qualquer acordo parecerá agora melhor do que o JCPOA. E Trump, que construiu a sua carreira opondo-se ao JCPOA, não vai querer um JCPOA “light”.Algum conselho para os europeus lidarem com Trump? Eu teria em conta a importância da partilha de encargos. E deixaria de lado a moralização incessante, não que todos os europeus o façam. Além disso, penso que é importante trabalhar com coligações de parceiros que não sejam necessariamente apenas europeus. Os japoneses, os coreanos, ver como podem oferecer pacotes de ajuda aos americanos, o que pode ser feito para preencher uma lacuna num potencial cenário de crise. E não devem dar aos iranianos a esperança de que podem separar os europeus dos americanos, porque isso só fará com que os iranianos se entrincheirem ainda mais. E, por último, uma queixa europeia que ouço em Washington, por vezes, é que os americanos têm uma perceção diferente da ameaça russa em comparação com a Europa, ou seja, não tão acentuada como a dos europeus. Mas, se aplicarmos isto ao Médio Oriente, os americanos veem os iranianos como um problema real, enquanto a Europa, que parece argumentar que isto é algo distante, não o vê da mesma forma. Por isso, é importante estar ciente de que a vossa posição importa, e se são aliados, é preciso pelo menos apoiar o facto de que Helsínquia e Tallinn veem a Rússia de uma forma, Lisboa e Madrid podem ver o Sahel de outra, e Washington pode ver o Médio Oriente de forma diferente..EUA-Irão: a escalada, o jogo político e a saída possível.Três lições da guerra com o Irão