EUA-Irão: a escalada, o jogo político e a saída possível

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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Constantemente promovido pelos canais televisivos e por outros meios de comunicação social - incluindo as plataformas digitais –, o espetáculo político funciona como uma droga de efeito rápido: estimula, excita, mas não alimenta; promete cura, mas não trata a doença. E depois, quando a adrenalina baixa, volta a pergunta que incomoda: onde estão os resultados? No dia a dia, o que resta são os custos exorbitantes dos combustíveis, da Saúde, da habitação e de tudo o resto, somados a uma sensação crescente de insegurança.

Passado o efeito, fica tudo na mesma – ou pior. O circo acaba, com o tempo, por revoltar o espectador contra os atores políticos, que não produzem resultados, e contra os comentadores, que falham previsões como quem troca de camisa. É uma política feita para a fotografia: o essencial é manter-se visível, no centro da arena.

Quando os resultados não se materializam, a estratégia costuma mudar de direção: ou se anunciam reformas em catadupa (no estilo faz-de-conta), ou se aumenta a polarização e se procura um inimigo a quem atribuir todas as culpas. O espetáculo pode mobilizar multidões – pode, até, ganhar eleições. Mas é o resultado concreto que sustém o poder e, por algum tempo, garante a paz social.

Ou então, para continuar no poder, o mau líder tenta destruir – ou, pelo menos, enfraquecer – as instituições que sustentam os regimes democráticos. Se é um fascista, procura capturá-las, subjugá-las, torná-las inteiramente obedientes. Se é um populista, o objetivo é mais rasteiro: reduzir a capacidade de controlo e fiscalização, eliminar os travões. A partir daí, manda-se como se quer.

Nero, um imperador errático, cultivava obsessivamente a adulação popular e o culto da personalidade. Projetava-se como figura divina – de Apolo ao Sol – e governou quase sempre em confronto com o Senado. Trump não pode ir tão longe num sistema com separação de poderes e uma imprensa plural. Mas tem tentado empurrar os limites: minimizar o papel do Congresso, pressionar a Justiça, atacar governadores democráticos, condicionar os media e as plataformas sociais. E, quando convém, volta ao velho expediente das operações militares externas: projetar força, ocupar o ciclo noticioso, galvanizar franjas do eleitorado.

À falta de resultados que melhorem o quotidiano das famílias, ataca as fundações da democracia e explora o nacionalismo: os EUA são apresentados como a potência número um na cena internacional. Tudo isto é feito com o calendário eleitoral a apertar: aproximam-se as eleições intercalares de 3 de novembro. Nesse dia estará em jogo o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes, vários lugares de governador e outras posições. Na prática, é o próprio poder de Donald Trump que vai a votos. E os sinais, em geral, não lhe são favoráveis. Daí a urgência de conter – e, idealmente, encerrar – a escalada com o Irão antes que ela ganhe vida própria.

Como irá evoluir esta escalada e qual é a saída possível – uma saída que evite um recuo eleitoral expressivo? É esta, creio, a pergunta central, numa altura em que volta a circular a hipótese de uma segunda ronda de contactos entre as partes, em Islamabad.

A resposta – um acordo em Islamabad, sim ou não? – não depende de uma única variável. Eu resumiria assim: Ormuz, a questão nuclear, o futuro da política interna iraniana e, por fim, o fator israelita (com o peso particular da linha dura e inaceitável de Netanyahu). Um entendimento minimamente viável teria de baixar a temperatura no Estreito, estabilizar o dossier nuclear e criar canais de desescalada que funcionassem fora das câmaras e dos grandes cabeçalhos – e não apenas em comunicados para consumo internacional.

Seria um erro enorme se as autoridades de Teerão concluíssem que não vale a pena voltarem a sentar-se com uma delegação americana. Conhece-se a lista de exigências de Washington – maximalista, no limite daquilo que Teerão pode aceitar sem se desautorizar internamente – e conhece-se também a posição iraniana perante cada uma dessas condições. Ainda assim, é plausível que um encontro, mesmo sem “negociações” formais, evite o retorno a hostilidades em larga escala e permita a outros atores continuar o trabalho diplomático já em curso – da China à Turquia, sem esquecer o Paquistão (aliado próximo de Pequim) – e, também, em vários países asiáticos e do Golfo.

A China e o Paquistão parecem estar a pressionar Teerão para que essa nova ronda de contactos – é cedo demais para lhe chamar “negociações” – aconteça agora ou em breve.

Ambos os lados teriam a ganhar com um acordo limitado. Para Washington, a vantagem é óbvia: travar uma dinâmica de escalada que, além de perigosa no terreno, aumenta o risco de violações do Direito Internacional Humanitário e degrada ainda mais a sua imagem na região e no Sudeste Asiático. E, convenhamos, a imagem americana hoje é muitas vezes lida através de dois filtros: a tentação do “músculo” e o alinhamento automático com a liderança israelita.

Para Teerão, o cálculo é igualmente claro: evitar o colapso económico e não cair na armadilha de uma guerra de represálias contra instalações petrolíferas e de gás natural – e contra portos dos Estados vizinhos do Golfo, onde basta um incidente para incendiar tudo.

Esta é uma crise que precisa de ser travada depressa. Em condições normais, seria assunto para o Conselho de Segurança da ONU. Vivemos, porém, num mundo em que as grandes potências escolhem, à carta, quais preceitos do Direito Internacional levam a sério.

Ainda assim, uma conjugação de esforços de um novo tipo – China, Índia e União Europeia, com um par de países do Sul (Paquistão e Indonésia, por exemplo) – poderia fazer a diferença, no meu entender, onde a ONU está paralisada: manter canais de contacto permanentes, fazer aceitar medidas de cessar-fogo minimamente verificáveis e desenhar um roteiro pragmático para Ormuz e para o dossier nuclear. É este o tipo de trabalho diplomático que evita desastres. Essencial.

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