Três lições da guerra com o Irão

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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O aparente desfecho do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão chegou através de uma trégua alcançada antes de expirar o ultimato dramático anunciado por Donald Trump. O presidente norte-americano encontrou, assim, uma saída minimamente airosa para uma situação em que o Irão detinha - e continua a deter - a iniciativa estratégica, impondo o ritmo da escalada e condicionando as opções de Washington. E deste confronto, que abalou a economia global nas últimas semanas, emergem pelo menos três lições.

A primeira é que o Irão demonstrou uma capacidade de resistência muito superior ao que Washington e Telavive antecipavam. O regime perdeu parte da sua liderança política e militar, eliminada pelos sucessivos ataques de decapitação, mas mostrou estar preparado para esse cenário: a coordenação descentralizada da resistência funcionou, apoiada num vasto arsenal de mísseis e drones de baixo custo. Mais importante ainda, Teerão soube explorar a sua posição geográfica e o controlo efetivo sobre o Estreito de Ormuz, um dos principais choke points energéticos do planeta, por onde passa uma fatia crítica do petróleo e do gás natural do Golfo.

O regime perdeu parte da sua liderança política e militar, eliminada pelos sucessivos ataques de decapitação, mas mostrou estar preparado para esse cenário (...)"
O regime perdeu parte da sua liderança política e militar, eliminada pelos sucessivos ataques de decapitação, mas mostrou estar preparado para esse cenário (...)"EPA / Wael Hamzeh

A segunda lição é que os Estados Unidos saem enfraquecidos deste conflito, tanto aos olhos dos aliados, como dos adversários. Ficou claro que, apesar da sua superioridade militar, não conseguiram impor a sua vontade ao Irão. E a guerra tornou ainda mais visível a fratura crescente com os aliados europeus e, talvez mais preocupante, a erosão da confiança dos estados árabes do Golfo. Para os líderes da Arábia Saudita, do Qatar e dos Emirados, Washington precipitou-se numa guerra evitável e, quando a escalada se tornou inevitável, revelou-se incapaz de neutralizar a ameaça iraniana.

O Irão, longe de ser derrotado, emerge como um ator enfraquecido, mas imprevisível, disposto a assumir riscos elevados – e com quem os vizinhos terão inevitavelmente de lidar, porque a geografia não muda, ao contrário das alianças.

A terceira conclusão diz respeito à Rússia, que foi a grande beneficiária desta guerra. Moscovo recebeu um precioso balão de oxigénio financeiro com a escalada dos preços do petróleo e o alívio parcial de algumas sanções. Viu os Estados Unidos atolados num conflito que, caso a trégua não evolua para uma paz duradoura, poderá transformar-se numa guerra longa e sangrenta, com consequências imprevisíveis. E ainda assistiu ao enfraquecimento político da NATO enquanto bloco coeso, exposto pela recusa europeia em participar na guerra e pela resposta pública de Trump.

A China também colheu dividendos, procurando posicionar-se como defensora do multilateralismo e do respeito pelo Direito Internacional, embora a sua forte dependência do petróleo do Golfo lhe deixe um sabor agridoce. Não será descabido supor que Pequim tenha pressionado Teerão a aceitar negociar.

"A Rússia foi a grande beneficiária desta guerra. Moscovo recebeu um precioso balão de oxigénio com a escala dos preços do petróleo. E viu os EUA atolados num conflito que se poderá tornar uma guerra de atrito.”

A estas três lições somam-se várias interrogações sobre a evolução futura da situação no Médio Oriente, a começar pela sustentabilidade da trégua. Perante a ofensiva israelita no Líbano, o Irão voltou a fechar o Estreito de Ormuz. Resta saber se esta situação se prolongará e se a trégua resistirá, mas ficou evidente que Israel tem interesses próprios que nem sempre coincidem com os dos Estados Unidos. Esses interesses podem tornar inviável uma paz duradoura e obrigar Washington a escolher entre duas opções difíceis: ficar preso num conflito interminável com o Irão, com custos humanos, políticos e económicos devastadores; ou, num futuro não muito distante, reduzir drasticamente o seu envolvimento militar no Médio Oriente, como acabou por fazer na Indochina em 1975 e no Afeganistão em 2021. A diferença é que, desta vez, está em causa uma região decisiva do ponto de vista geoestratégico, com impacto direto na arquitetura do sistema financeiro internacional.

O pior cenário para os Estados Unidos seria aquele que acelerasse tendências já em curso, rumo a um mundo multipolar, e diminuísse o peso do dólar como principal moeda de reserva global.

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