Durante anos, a ideia de um cordão sanitário na política francesa tinha um alvo: a extrema-direita do Reagrupamento Nacional (desde quando ainda era Frente Nacional). Mas, após a segunda volta das eleições municipais de domingo (22 de março), cresce o debate sobre a necessidade de um cordão sanitário à esquerda, que vise os radicais da França Insubmissa (LFI, na sigla original) e ao eterno candidato presidencial e fundador, Jean-Luc Mélenchon. “Mélenchon tornou-se um fardo para a esquerda hoje em dia”, defendeu o primeiro secretário do Partido Socialista Francês, Olivier Faure, acreditando que o candidato da LFI em Toulouse (que contava com o apoio dos socialistas na segunda volta) teria ganhado “se não tivesse sido prejudicado por Jean-Luc Mélenchon, pelos seus excessos, pelas suas tendências antissemitas”. Uma das polémicas a envolver o partido passa pela forma como ele pronunciou nomes como “Epstein”, focando no facto de o falecido pedófilo ser judeu.Apesar de não ter havido um acordo nacional entre PS e LFI , a segunda volta das municipais contou com várias destas alianças à esquerda - e nem todas foram bem sucedidas.Houve vitórias em Nantes ou Lyon, por exemplo, mas fiascos em Toulouse, Limoges ou Brest. E em Paris e Marselha, onde os candidatos socialistas recusaram aliar-se à LFI, conseguiram ganhar sem esse apoio.No PS, há quem defenda que é preciso criar um cordão sanitário à volta de toda a LFI, exigindo a demissão do líder do partido - que os críticos acusam de não ter mostrado “clareza” ao aceitar estas alianças. “Olivier Faure deve demitir-se. É um fracasso total”, disse à BFMTV o reeleito autarca de Saint Ouen, Karim Bouamrane. “É muito fácil dizer ‘sou contra a LFI’ antes das eleições, e depois, durante as eleições e entre as duas voltas, ir fazer acordos com a LFI”, exclamou o presidente da câmara, expressando o seu desejo de “uma nova direção para garantir que não estamos numa dualidade em 2027”, isto é, nas eleições presidenciais, entre o Reagrumento Nacional (favorito nas sondagens) e Mélenchon.“A esquerda republicana deve romper todos os laços com a LFI sem hesitações. Permitir a formação de alianças esta semana, depois de termos afirmado o contrário há apenas 15 dias, é um erro que nos prejudicará em 2027. Precisamos de clareza sobre os nossos valores, não de manobras políticas”, defendeu no X o deputado socialista Jérôme Guedj. Antes da segunda volta das municipais, o presidente francês, Emmanuel Macron (que não poderá se recandidatar em 2017), já tinha deixado o aviso contra os extremos - tanto à direita como à esquerda - considerando que ambos representam “um perigo para a República”..Esquerda ganha fôlego para as presidenciais, mas com aviso dos eleitores sobre a França Insubmissa