O seu livro começa com a invasão do Capitólio em 2021. Porquê esse momento? Sentiu que abalou as instituições americanas?Sim, foi o pesadelo dos Pais Fundadores, uma revolta popular violenta contra as ideias e instituições da República, e as normas de comportamento civilizado das quais as democracias dependem. Coloquei-o no início do livro para estabelecer um motivo ou tema - que, por mais que pareçam duradouros e permanentes, os alicerces da República não podem ser dados como garantidos. Os Pais Fundadores eram “profundamente hipócritas”, mas, como diz no livro, “ao escolherem a democracia em vez do despotismo, deixaram o caminho aberto para corrigir ou compensar as suas falhas”. Em 250 anos, muitos tentaram, mas será que o conseguiram? Sim, tem sido sempre um trabalho em curso rumo a “uma união mais perfeita”. Foram necessários grandes compromissos: com a escravatura, os direitos civis, os poderes federais e os poderes estaduais, entre os princípios enunciados de forma tão eloquente na Declaração de Independência e a busca do interesse próprio e as suas consequências para os nativos americanos, os afro-americanos, os hispano-americanos, os imigrantes, as mulheres.Os Pais Fundadores criaram um sistema político com muitos freios e contrapesos que ainda hoje está em vigor, apesar de algumas críticas. Apesar das suas falhas, qualquer outra opção seria pior?O sistema de freios e contrapesos depende de cada instância do poder agir de forma eficaz, honrada e de acordo com os protocolos. A principal falha - penso eu - reside nos poderes monárquicos do executivo..Escreveu que “mesmo sem ter a admiração de todos, o magnata tornou-se um representante da América”. Estava a referir-se à segunda metade do século XIX, mas poderia estar a falar de Donald Trump. Esse fascínio pelo magnata explica parte do seu sucesso, mesmo mais de um século depois? Sim, acho que isso é verdade. A ascensão pessoal é um princípio fundamental da cultura. A ostentação da riqueza é um desdobramento que o sociólogo Thorsten Veblen descreveu por volta do final do século XIX, e que F. Scott Fitzgerald e Hollywood retomaram. Trump é típico dessa espécie - embora haja mais do que isso, é claro. Paraíso dos self-made-men, a América ainda atrai pessoas hoje em dia ou o sonho americano já não é o que era? O sonho americano continua vivo, mas não para milhões de americanos. Esse é o problema que o país sempre enfrentou. O sonho precisa de oportunidades em constante expansão, o que exige fronteiras em constante expansão. Quando o sonho se desvanece, as pessoas perdem a fé em todas aquelas belas palavras e hinos extáticos, os poderes transcendentais da crença americana. Foi isso que Trump compreendeu - ele profanou o sagrado e o MAGA [Make America Great Again] sentiu a emoção de o fazer. Ter um continente americano sob o controlo dos EUA é uma antiga ambição dos presidentes dos Estados Unidos que Trump herdou? Sim, a ambição de conquistar o Canadá vem de longa data, mas ninguém a levou a sério desde que há memória. A ideia de que a América Central - na verdade, o Hemisfério Ocidental, incluindo a América do Sul - deveria ser uma esfera de influência dos EUA remonta a 1823 e a James Monroe, o presidente que deu o seu nome à Doutrina Monroe.Make America Great Again é a visão do Partido Republicano de Trump sobre o excecionalismo americano que Tocqueville observou no século XIX?Sim. A um certo nível, é o grito de um povo habituado ao domínio, que, incitado por Trump, se sente ameaçado, enfraquecido, abandonado. O MAGA faz com que se sintam poderosos.Este ano celebramos os 250 anos da Declaração de Independência. Será este um momento de união ou as divisões são demasiado profundas? Acho que ninguém pode dizer. Neste momento, os sinais indicam que a divisão continuará a prevalecer.250 anos depois, os EUA são a maior superpotência. É claro que isso se deve ao seu poder económico e militar, mas o soft power - Hollywood, a música, as universidades americanas, etc. - é quase tão importante para explicar por que razão os EUA são o país mais poderoso do mundo?Isso é verdade, e Trump parece desinteressado nos benefícios que isso traz ao seu país. Os seus cortes devastadores na USAID podem ser acrescentados aos danos à reputação.O Don é australiano. Como é que a Austrália, um país continental, de língua inglesa, com uma tradição de imigração e multiculturalismo, vê as mudanças nos EUA nos últimos anos?Com uma certa apreensão. As mesmas forças anti-imigração foram despertadas aqui. Esperamos que o tecido multicultural não se rasgue. .“Trump despreza a Europa e não revela grande preocupação com os apetites imperialistas de Putin”