Todos os dias, no canal de Telegram de Nicolás Maduro, há uma mensagem nova: uma foto do ex-líder venezuelano e da sua mulher, Cilia Flores, com a palavra de ordem “Queremo-los de volta” e a indicação de quantos dias já passaram desde o seu “sequestro”. Esta terça-feira (3 de fevereiro), cumpre-se um mês da operação militar dos EUA em Caracas que permitiu a entrega dos dois à justiça de Nova Iorque, onde vão responder pelos crimes de narcoterrorismo e narcotráfico. Eles declararam-se inocentes.Foram precisas apenas duas horas e 20 minutos na madrugada de 3 de janeiro para cerca de 200 militares das forças especiais, apoiados por 150 aviões, desmantelarem as defesas aéreas da capital venezuelana e extraírem Maduro e a mulher do complexo onde viviam. Mais de 80 pessoas foram mortas, incluindo 32 militares cubanos que faziam parte da segurança do líder venezuelano e dois civis..Maduro está numa prisão descrita como “inferno na terra” e arrisca perpétua.A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina a 5 de janeiro, no mesmo dia em que Maduro (e Cilia) era presente a tribunal em Nova Iorque e se declarava “preso político”. .Maduro declara-se “inocente” e “prisioneiro de guerra” no tribunal de Nova Iorque .Segundo fontes do The Guardian, tanto Delcy como o irmão, Jorge Rodríguez, líder da Assembleia Nacional, tinham tido contactos com os norte-americanos, prometendo colaborar após a queda de Maduro. As fontes da agência Reuters indicam que também o ministro do Interior, Diosdado Cabello, que controla a polícia e as milícias, terá dialogado com os EUA..EUA tiveram reuniões secretas com Diosdado Cabello meses antes da captura de Maduro.“Vamos governar o país”, disse o presidente norte-americano, Donald Trump, numa conferência de imprensa no dia da operação contra Maduro, indicando que o regime continuaria de pé e estava a colaborar com os EUA - se não o fizesse, arriscava ter um destino pior do que o do líder venezuelano entretanto deposto. Segundo o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Maduro teve várias hipóteses de deixar a Venezuela voluntariamente, mas rejeitou todos os acordos e tinha-se tornado num “impedimento ao progresso”.Apesar de publicamente continuar a exigir a libertação de Maduro, Delcy Rodríguez tem aproveitado para fazer inúmeras mudanças dentro da Venezuela. A mais recente, na última quinta-feira, foi a aprovação na Assembleia da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, que vai facilitar que empresas estrangeiras participem na exploração das reservas de petróleo venezuelanas - as maiores do mundo. A lei reverte a nacionalização feita em 1976, aprofundada pelas expropriações do ex-presidente Hugo Chávez após 1999, potencialmente reduzindo a participação estatal na setor a níveis mínimos. Trump deixou claro desde o início que o petróleo venezuelano era o seu alvo (disse essa palavra 20 vezes na conferência de imprensa de dia 3, não tendo falado de democracia). E alegou que as petrolíferas norte-americanas iam investir cem mil milhões de dólares para recuperar o setor (apesar de as empresas não mostrarem o mesmo entusiasmo). Desde a operação que levou à queda de Maduro, os EUA assumiram também o controlo da venda do petróleo que estava parado pelo bloqueio naval e vão administrar os lucros para benefício dos venezuelanos. A presidente interina também fez várias mudanças no governo, nomeadamente na área económico, escolhendo pessoas que lhe eram próximas, mas também em quase três dezenas de cargos de liderança a Força Armada Nacional Bolivariana. O ministro da Defesa, Vladimir Padriño, que se pensava poder representar um desafio para Delcy Rodríguez, tem-se mostrado ao seu lado, com os analistas a dizer que ficou fragilizado pelas falhas dos militares venezuelanos durante a operação dos EUA.O regime também prometeu libertar um número considerável de presos políticos, mas isso tem acontecido a conta-gotas. Segundo a organização não-governamental Foro Penal, já foram libertados mais de 300, mas outros 700 continuam atrás das grades. Delcy Rodríguez propôs entretanto uma lei de amnistia geral para todos os presos políticos desde 1999, com as famílias a receber o anúncio com otimismo e cautela.Desde o estrangeiro, a oposição liderada por María Corina Machado (que foi deixada em segundo plano por Trump, cujo favor tentou recuperar oferecendo-lhe a medalha do Nobel da Paz) insiste para a libertação de todos e procura um lugar à mesa para uma transição democrática.."O Nobel era a única coisa que, a nível simbólico, María Corina Machado tinha para poder dar a Trump".Entretanto, Maduro e Flores estão no Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn, aguardando a próxima sessão do julgamento - marcada para 17 de março. Na última quarta-feira (28 de janeiro), o filho do ex-líder, o deputado Nicolás Maduro Guerra, revelou na Assembleia que o pai estava “de bom humor” e já estava “recuperado” do golpe no joelho que sofreu no dia da operação. No domingo anterior (25 de janeiro), Guerra tinha dito a uma multidão em Caracas que o pai lhes tinha pedido que fizessem “uma oração pela paz na Venezuela”.