Duas semanas e meia depois da operação militar dos EUA que levou à queda de Nicolás Maduro, acha que os venezuelanos estão hoje melhores do que estavam no início do ano?Melhores não, porque efetivamente não mudou aquilo que os venezuelanos esperavam, que era o fim do regime político. Mas a ideia de chegarem, a curto ou médio prazo, empresas americanas que poderão vir a investir na indústria do petróleo está a gerar expectativas, sobretudo para as pessoas que vivem nos estados petrolíferos. Há expectativas do ponto de vista económico.Surpreendeu-a que os EUA tenham levado Maduro e deixado o resto do regime de pé?Acho que surpreendeu a todos. Pelo menos, tínhamos esperanças - e eu acho que tem a ver com a esperança - de que houvesse um plano depois da extração de Maduro que envolvesse a oposição, os intervenientes que consideramos que possuem legitimidade. Uma legitimidade que conseguiram no ato eleitoral, em 2024. E a partir do momento em que eles são afastados deste processo, ficamos todos com muitas dúvidas sobre como é que vai ocorrer esta transição.E surpreendeu-a que o regime tenha conseguido controlar tão facilmente as ruas?Eu acho que há muito medo. Num primeiro momento, o governo chefiado por Delcy Rodríguez tomou medidas que limitavam a liberdade de expressão e de movimento. Agora, parece que a normalidade se está a instalar, mas o medo perdura, tal como as dúvidas sobre o que vai acontecer a seguir. Acho que os venezuelanos ficaram sem capacidade de reação, porque estão a olhar para tudo como se estivesse em suspenso. A oposição está fora do território e não há uma liderança nas ruas. Sem lideranças e sem organização a sociedade civil permanece atenta, com medo, mas com cautela. Com muita cautela, porque, como sabemos, os coletivos, que são grupos armados, também estão nas ruas. Há muito medo e muita cautela. A sociedade está em suspenso. A verdade é que, cada dia que passa, a oposição, a meu ver, perde força.Como assim? A cada dia que passa, a cada minuto que passa, os líderes da oposição vão perdendo força. Vamos ver se eles conseguem manter este capital de legitimidade que conseguiram reunir. Seria bom que se conseguisse, em pouco tempo, a pacificação e depois a transição. Seria ideal. Eles perdem força, mas há alguma margem. Penso que María Corina Machado, que é a líder da oposição, tem mostrado que está disposta a mobilizar o capital de esperança, e não só o capital de confiança, que depositaram nela, não só os vários partidos da oposição, mas a população, que em julho de 2024 votou em Edmundo González. A María Corina Machado tem feito alguns gestos simbólicos, como a entrega da medalha do Prémio Nobel a Donald Trump.O que achou desse momento?Parece-me que não é útil valorizar se foi bom ou se foi mau, acho que temos de manter este gesto ao nível do simbólico. Pode até ser considerado um ato, eu não gostaria de usar a palavra de quase desespero, mas um ato de parte de María Corina Machado no sentido de lembrar que Trump está, ou deveria estar, comprometido com a liberdade. O Nobel era a única coisa que, a nível simbólico, María Corina Machado tinha para dar a Trump. Delcy Rodríguez tem a chave do território, a capacidade de controlar um território parcelado, onde há vários intervenientes, onde há vários poderes. María Corina Machado tem o poder da legitimidade, da confiança que foi depositada nela pela população e quando foi eleita como líder da oposição. E o Nobel era o que María Corina Machado tinha, a nível simbólico, para poder dar a Trump. O que mais podia ela dar a Trump, senão a medalha do Nobel? Foi um ato simbólico de quem não quer ser esquecida ou quer lembrar à liderança dos EUA que deve estar comprometida com a liberdade. A oposição tem um capital importante que está muito vinculado à esperança moral. Alguns países no mundo, vamos pensar, na Europa, por exemplo, continuam a considerar Edmundo González e María Corina Machado líderes legítimos. Isto da legitimidade tem um peso, não podemos desvalorizar. Agora, seria muito bom que eles pudessem garantir um espaço nas negociações, neste processo que eles chamam de pacificação, ou nesta procura de estabilizar o país.Acha que vão conseguir regressar à Venezuela ou o regime vai continuar a bater o pé e a proibir esse regresso?Nós não conhecemos exatamente o que foi negociado entre Delcy Rodríguez, o seu irmão Jorge Rodríguez [líder da Assembleia Nacional], Diosdado Cabello [ministro do Interior] e o ministro da Defesa Vladimir Padrino e os EUA. Não sabemos todos os detalhes da negociação. Sabemos, sim, que Delcy Rodríguez está encarregue daquilo a que alguns chamam trabalho sujo.Em que sentido?Delcy Rodríguez é a responsável por dialogar, por convencer os outros intervenientes que ocupam espaços de poder, alguns mais legítimos que outros, a colaborarem. Não há dúvidas de que ela os conhece bem e, portanto, tem esse trabalho difícil de poder dialogar, de poder convencer, de manter alguma ordem nesse processo, nessa primeira fase, se considerarmos que o plano dos EUA começa por aí, pelo primeiro momento de pacificação. Que não pode ser um momento eterno. Não há condições para que Delcy Rodríguez continue a chefiar o poder por tempo indeterminado. Chegará o momento em que, e penso que em conjunto com o investimento económico, surgirá a necessidade de haver garantias do ponto de vista jurídico para os investimentos, ou de salvaguarda daquilo que essas empresas poderão vir a investir. Haverá uma pressão enorme para que se caminhe para a terceira fase do plano, que seria a transição, convocar as eleições. E aí esperamos todos que os partidos políticos possam participar.Trump falou que podia ser mais de um ano. Quanto tempo é que se pode aguentar esta situação?Eu acho que pode demorar até se conseguirem condições ideais para os investimentos. Já tivemos conhecimento de que muitas empresas exigiram garantias para poderem investir na Venezuela, na infraestrutura que está muito deteriorada, e sobretudo a questão da segurança jurídica, que lhes permita reaver os investimentos e lucrar naturalmente com aquilo que forem investir. Portanto, dependerá da capacidade que este governo, de facto, tem e terá de conseguir estes mesmos objetivos. Nós não sabemos. Só agora é que vamos, aos poucos, conhecendo o estado de descomposição do país do ponto de vista da sociedade, do ponto de vista político e económico. É agora que vamos conhecer os verdadeiros números, que só íamos conhecendo através do trabalho de algumas ONG que, com falta de condições, se aventuravam a disponibilizar alguns dados sobre, enfim, os vários âmbitos. Inclusive, nos presos políticos...O regime anunciou que ia libertar muitos presos políticos, mas por exemplo o Foro Penal diz que ainda há 770 detidos. Não se corre o risco, sabendo nós que Trump também se distrai com outros temas, agora já está na Gronelândia, de deixar de se preocupar com a Venezuela? E de ser enganado pelas promessas do regime e se perder o momento para a mudança?Sim, corre-se esse risco. Nós sabíamos, pelo menos eu tinha quase a certeza, de que iria ocorrer a extração ou o afastamento de Maduro. Porque o custo político e económico para Trump, se não fizesse nada, iria ser enorme. Agora, voltamos ao tema do dia seguinte, do plano, se é que houve um plano. Os presos que foram libertados, pelo que percebi, muitos deles não estão completamente livres, foram soltos, mas com medidas cautelares. Por isso sim, corremos esse risco, de que Trump se interesse por outros assuntos e ficamos sem perceber se efetivamente há uma estratégia da parte da Administração. Eu já li alguns comentários de pessoas que trabalharam com Trump e que acham que ele não tem uma estratégia. Ele, de facto, procura, sobretudo, atender interesses específicos. Entramos, aí, no domínio da microgeopolítica, aquela que nos obriga a olhar para interesses muito específicos, económicos ou empresariais, e não há uma estratégia política clara e definida. Temos muitas dúvidas sobre a estratégia de Donald Trump. Muitos acreditam que vai no sentido da contenção do crescimento da China ou do aumento da influência da China. Pode ser, mas, como lhe digo, temos muitas dúvidas sobre o que verdadeiramente Donald Trump pretende.Mais facilmente as empresas petrolíferas que têm de investir vão pressionar, se calhar, para acelerar a transição do que propriamente o interesse do presidente dos EUA...Exatamente. Eu penso que a chegada dos capitais e a necessidade de poderem fazer os investimentos, funcionar e operar com alguma normalidade poderá, efetivamente, desencadear algumas das mudanças que se esperam. E também penso que, porque há uma diáspora que se vai organizando, sobretudo na área do petróleo, e quer regressar, que também poderá, eventualmente, pressionar a partir de dentro. Agora é com os venezuelanos. E penso que Trump também estará a contar com isso. Mas isto pode, de facto, demorar algum tempo.Falando nos venezuelanos, muitos são luso-venezuelanos. Como é que a comunidade portuguesa está a ver esta situação?Muitos luso-venezuelanos ficaram na Venezuela. Ou, pelo menos, alguns membros da família, os homens, os pais, os donos do comércio, que enviaram as mulheres, os filhos e os netos, por exemplo, para Portugal, para outros destinos. Esses luso-venezuelanos que ficaram lá vão alimentando alguma expectativa sobre a reativação do setor do petróleo e o que isso poderá vir a facilitar ou atrair dinheiro e pessoas, que são potenciais compradores e clientes dos seus negócios. Os que estão fora estão atentos, ainda com alguma esperança, porque a saída de Maduro abriu uma janelinha, uma luz de esperança. Naturalmente muitos luso-venezuelanos estão com essa esperança de poderem regressar à Venezuela. E há grupos e comunidades inteiras da diáspora desejosos de um retorno ordenado ao país.Saíram quase oito milhões de pessoas nestes últimos anos. Foi um êxodo enorme. Alguns vão querer voltar, mas vai depender das condições na Venezuela.E muitos estão a ser obrigados a regressar. Não podemos esquecer o número significativo de venezuelanos que estão a ser deportados dos EUA, milhares de venezuelanos, não só ilegais. E muitos são discriminados, porque o discurso da administração os está a colocar no cesto dos delinquentes, o que é muito grave. E muitos dos que saíram venderam tudo para poderem chegar aos EUA e voltam sem nada, o que é dramático. É uma situação dramática aquela que se está a viver do ponto de vista das deportações.Estamos a falar do fim do madurismo, mas não do chavismo. Este ainda pode, sem Maduro, ganhar as eleições?O legado de Hugo Chávez permanece, sobretudo, no meio dos cerca de dois milhões de funcionários públicos que existem na Venezuela e em muitos dos que vivem de apoios e de subsídios no país. Chávez acabou por iniciar um movimento de tipo político-ideológico, que foi muito favorecido pelos excedentes da venda do petróleo e, portanto, a memória que está associada a Hugo Chávez, é uma memória, diríamos, boa para muitos. Acho que não podemos falar de madurismo. Maduro nunca foi um líder popular, muito pelo contrário, ele manteve-se no poder pela força, e perdeu toda a legitimidade quando não reconheceu os resultados das últimas eleições. Portanto madurismo não me parece que exista e que volte a existir, mas chavismo sim. Agora não terá a mesma força que tinha. E até será bom se o partido de Hugo Chávez participar, junto com várias correntes políticas, numas eleições. Significaria que a democracia estaria a voltar à Venezuela. Isso é o que todos nós desejamos..María Corina Machado aponta como principal objetivo "regressar à Venezuela" .Corina Machado diz ter entregado medalha do Nobel a Trump em almoço na Casa Branca