Funcionários da administração Trump estiveram em conversações com o ministro do Interior da Venezuela, o linha-dura Diosdado Cabello, meses antes da operação norte-americana que resultou na detenção de Nicolás Maduro, noticia este sábado, 17 de janeiro, a Reuters, que cita várias fontes familiarizadas com o assunto que pediram anonimato.Estas comunicações mantêm-se ativas desde então, funcionando como um canal crítico para a gestão da crise no país sul-americano.Os oficiais de Washington terão avisado Cabello, de 62 anos, para não utilizar os serviços de segurança ou os grupos de milícias armadas (colectivos) que este supervisiona para atacar a oposição venezuelana. Este aparato de segurança, que inclui os serviços de informações e a polícia, permanece praticamente intacto após a operação militar de 3 de janeiro que removeu Maduro do poder.Cabello figura na mesma acusação de tráfico de droga do Departamento de Justiça dos EUA que serviu de base para a captura de Maduro, mas não foi detido durante a operação. Segundo a Reuters, as comunicações entre os EUA e o homem forte do regime, que datam do início da atual administração Trump e se intensificaram nas semanas anteriores ao derrube de Maduro, têm abordado não só a estabilidade do país, mas também as sanções impostas ao próprio ministro e o processo judicial que este enfrenta.Ainda segundo aquela agência de notícias norte-americana, para Washington, manter Cabello sob controlo é vital. Se o ministro decidir mobilizar as forças sob o seu comando, poderá gerar o tipo de caos que o presidente Donald Trump deseja evitar, pondo em causa a autoridade da presidente interina, Delcy Rodríguez. Embora Cabello tenha declarado publicamente unidade com Rodríguez, a rivalidade histórica entre ambos é vista com preocupação pelos serviços de informações norte-americanos.Poder para fazer descarrilar tudoApesar de Delcy Rodríguez ser peça central da estratégia de Trump para a Venezuela, é amplamente aceite que Cabello detém o poder necessário para consolidar ou descarrilar os planos de transição. Antigo oficial militar e braço-direito de Hugo Chávez, Cabello exerce uma influência profunda sobre as agências de contra-inteligência e grupos de civis armados.Elliott Abrams, antigo representante especial para a Venezuela, sublinhou à Reuters que a saída definitiva de Cabello será o verdadeiro sinal de mudança. "Se e quando ele sair, os venezuelanos saberão que o regime começou realmente a mudar", afirmou, agora no Council on Foreign Relations.Atualmente, Cabello supervisiona a libertação de presos políticos. No entanto, o processo tem sido descrito como extremamente lento, com centenas de pessoas nesta situação ainda encarceradas.Enquanto isso, em Washington, alguns legisladores questionam a decisão de não capturar Cabello simultaneamente com Maduro. A congressista Maria Elvira Salazar afirmou recentemente que Cabello é, em muitos aspetos, "pior do que Maduro". Contudo, para a Casa Branca, o ministro continua a ser um interlocutor necessário -- ainda que temporário -- para garantir o acesso às reservas de petróleo e evitar um conflito civil em larga escala.