"Sou inocente, não sou culpado. Sou um homem decente”, disse Nicolás Maduro na primeira ida ao tribunal de Nova Iorque, onde vai responder por narcoterrorismo e narcotráfico. O ex-líder venezuelano quis fazer uma declaração pessoal, mas foi interrompido pelo juiz Alvin Hellerstein, que explicou que teria tempo para falar no futuro.Mas até ouvir a tradução, Maduro ainda disse em espanhol que era um “prisioneiro de guerra” (repetiu à saída da sala, quando um manifestante lhe gritou que era um presidente “ilegítimo”) e que foi “raptado da sua casa em Caracas”. E insistiu: “Ainda sou o presidente do meu país”. A sua mulher, Cilia Flores, que surgiu na audiência com vários hematomas no rosto que o advogado disse terem sido feitos durante a detenção, também se declarou inocente. É acusada dos crimes de narcotráfico e posse de armas, tal como conspiração nos dois casos, mas não narcoterrorismo como o marido. E identificou-se em tribunal como “primeira-dama” da Venezuela. Nem o ex-líder venezuelano nem a mulher pediram para ser libertados sob fiança, sabendo que isso não aconteceria, podendo os seus advogados pedi-lo mais tarde. Maduro escolheu para a sua defesa Barry J. Pollock, que representou o fundador da WikiLeaks Julian Assange e foi essencial nas negociações que permitiram a sua libertação. Mas o ex-líder venezuelano mostrou-se muito ativo em tribunal, tirando notas e passando recados (que pediu ao juiz para manter). Já Cília Flores terá como advogado Mark Donnelly, do Texas.O caso está nas mãos do juiz Alvin Hellerstein, de 92 anos, um veterano do tribunal federal de Nova Iorque que já teve nas mãos muitos casos relacionados com segurança nacional e mediáticos - desde os processos de indemnizações após os atentados do 11 de setembro de 2001 ao caso de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinstein. Caso Maduro seja condenado, arrisca uma pena entre os 30 anos e a prisão perpétua. A próxima audiência em tribunal será a 17 de março. Delcy Rodríguez toma posseHoras depois de Maduro dizer ao juiz que continua a ser o presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez assumia esse cargo de forma interina na Assembleia Nacional - liderada pelo irmão, Jorge Rodríguez, que foi reeleito para o cargo no início de uma nova sessão legislativa. Delcy Rodríguez conta com o “apoio incondicional” do filho de Maduro, deputado que também é acusado pelos EUA. “A pátria está em boas mãos, pai, e em breve vamos abraçar-nos aqui na Venezuela ”, disse emocionado Nicolás Maduro Guerra. “Venho com dor pelo sofrimento causado pela agressão militar ilegítima ao presidente venezuelano, venho com dor pelo sequestro de dois herois que estão como reféns “, disse Delcy Rodríguez no juramento como “presidente encarregada” da Venezuela. “Mas venho também com honra em nome de todos os venezuelanos e venezuelanas e em nome do libertador Simon Bolívar. Juro pelo comandante Hugo Chávez”, acrescentou. “Juro não descansar um único minuto para garantir a paz e a tranquilidade espiritual, económica e social do nosso povo. Juremos, como um só país, fazer avançar a Venezuela nestes tempos difíceis.”O Supremo Tribunal venezuelano tinha decidido no domingo que Delcy Rodríguez devia assumir a presidência, tendo ela presidido logo à primeira reunião do Conselho de Ministros. No comunicado que partilhou em espanhol e inglês no Telegram, a presidente interina reivindicou o “direito à paz” e à “soberania” da Venezuela. Maduro só foi mencionado no fim do texto. Antes, e ao contrário das declarações públicas que fez, Rodríguez convidou os EUA “a trabalhar conjuntamente numa agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento conjunto, no marco da legalidade internacional que fortaleça uma convivência duradoura”. Lembrou ainda que os dois povos “merecem a paz e o diálogo, não a guerra” e que isso foi algo que Maduro sempre quis. “Essa é a Venezuela em que acredito, a que dediquei a minha vida”, acrescentou.Os EUA resolveram apostar na “cooperação” com o atual regime depois de deter Maduro, rejeitando que a transição passe pela oposição liderada por María Corina Machado. Apesar de tudo, a opositora descendente de portugueses agradeceu a Trump, em nome dos venezuelanos, a sua “firmeza e determinação em defender a lei”. Reiterou que a Venezuela “será o principal aliado dos EUA em matéria de segurança, energia, democracia e direitos humanos”, acreditando que “a liberdade está próxima”.Críticas na ONUHoras antes de Maduro ir a tribunal, o Conselho de Segurança das Nações Unidas discutia a legalidade da operação militar dos EUA para o capturar. “Estou profundamente preocupado com a possível intensificação da instabilidade no país, o potencial impacto na região e o precedente que isso pode criar para a forma como as relações entre os Estados são conduzidas”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, numa declaração entregue ao Conselho pela responsável pelos Assuntos Políticos, Rosemary DiCarlo.“Não há guerra contra a Venezuela ou o seu povo”, disse o embaixador dos EUA na ONU, Mike Waltz, insistindo que houve “uma operação cirúrgica de aplicação da lei, facilitada pelos militares norte-americanos, contra dois fugitivos indiciados pela justiça norte-americana”. Mas também deixou claro que os norte-americanos não vão “permitir que o Hemisfério Ocidental seja usado como base de operações para os adversários do seu país”. O embaixador venezuelano, Samuel Moncada, denunciou “um ataque armado ilegítimo, sem qualquer justificação legal” da parte dos EUA, que apenas resulta da “ganância” pelos recursos naturais do país. A Rússia, a China e a Colômbia também condenaram a operação militar como ilegal, com Moscovo a falar em “neocolonialismo”, Pequim a falar em “bullying” e Bogotá em “ataques” e a temer nova onda migratória. Mas a maioria dos restantes membros do Conselho de Segurança não criticou diretamente os EUA, preferindo salientar a ilegitimidade do governo de Maduro, assim como a importância do respeito pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas. Países da esquerda latino-americana como Cuba, México, Brasil ou Chile, que não são membros do grupo dos 15 mas participaram no debate, também criticaram Washington, enquanto a Argentina, representante da direita, defendeu a ação dos EUA. .Maduro diz-se inocente em tribunal. Irmãos Rodríguez consolidam controlo total sobre o Estado venezuelano.Quem é o juiz de 92 anos responsável pelo caso de Maduro?