Laéssio, 53 anos, não é um desconhecido das instituições que furta: já foi preso por 11 vezes.
Laéssio, 53 anos, não é um desconhecido das instituições que furta: já foi preso por 11 vezes.

O maior ladrão de livros do Brasil agora investe no furto de quadros

Laéssio de Oliveira assaltou dois organismos públicos em São Paulo já em 2026 mas, vigiado pela polícia, foi gravado a dizer que também tramou um roubo de Matisses, em 2025 
Publicado a
Atualizado a

Láessio Rodrigues de Oliveira passou do mercado de livros raros para a área dos quadros e obras de arte. Quem ouvir a frase acima pode pensar que estamos a falar de um renomado connoisseur, de um bem sucedido marchand, de um colecionador inveterado ou de um simples esteta. Talvez Laéssio, 53 anos, seja também tudo isso, mas não só: é um assaltante assumido que a polícia do Brasil classifica de “maior ladrão de livros raros” do país. 

Só em 2026, há relatos (e imagens divulgadas pelo programa Fantástico, da TV Globo) de furtos de Laéssio no Clube Português, instituição que preserva a história do Brasil e de Portugal, e no Instituto Histórico e Geográfico, ambos em São Paulo.

Em fevereiro, ele e dois comparsas, um homem e uma mulher, são filmados pelas câmeras de segurança a colocar 16 obras do acervo do Clube Português dentro das calças e das saias mal a vigilante sai momentaneamente da sala. “São obras de 1600, de 1700, logo têm valor incalculável”, diz Fabíola Neves, diretora sociocultural do clube, à Globo.    

Em março, o maior ladrão de livros do Brasil tentou roubar no Instituto Histórico e Geográfico, onde se apresentou como um pesquisador do estado do Espírito Santo com um interesse específico na Revolução Constitucionalista de 1932. Mas, mesmo com uma máscara de proteção, o diretor do organismo reconheceu-o. “Pela testa”, afirma João Tomás Amaral.

Afinal, Laéssio, 53 anos, não é um desconhecido das instituições que furta: já foi preso por 11 vezes e uma delas após assalto ao mesmo Instituto Histórico e Geográfico, em 2006.

Por esses e por outros roubos, a polícia anda sempre de olho no ladrão de livros, solto pela última vez em 2020. E, numa escuta recente ao seu telefone, percebeu que Laéssio esteve por trás também de um assalto à Biblioteca Mário de Andrade, ainda na maior cidade do Brasil, de 2025, no qual foram furtadas 13 obras de arte, incluindo algumas do brasileiro Cândido Portinari e do francês Henri Matisse. 

Nos diálogos, Laéssio conta a Gabriel de Mello, identificado como um dos criminosos envolvidos na ação criminosa, que estava “migrando” para o mercado de quadros. “Mas a minha especialidade mesmo continua a ser o livro, livros muito valiosos, muito raros, eu espalho isso pelo mundo todo, mas eu estou me metendo com negócio de quadro agora também”, diz ele na gravação.

Natural de Teresina, no Piauí, Laéssio, mais velho de seis filhos e vítima de maus tratos do pai por apresentar trejeitos efeminados, cresceu em São Bernardo do Campo, cidade nos arredores de São Paulo. Era balconista de padaria quando começou a pesquisar partituras e revistas de época de Carmen Miranda, cantora luso-brasileira por quem é obcecado desde a adolescência, no Museu de Imagem e do Som, em São Paulo. 

“Quando lá fui, no entanto, já fui com más intenções”, admitiu em documentário do canal Globoplay, de 2023, sobre a sua vida. “E a partir daí pensei ‘se tem tanta coisa aí nas bibliotecas para quê comprar?’ e comecei assim”, continuou no filme Cartas Para um Ladrão de Livros, de Carlos Juliano Barros. 

De então para cá, furtou fotografias do funeral do imperador brasileiro Dom Pedro II, um dos primeiros atlas do Brasil feito por um cartógrafo neerlandês, as primeiras edições autografadas de cânones da literatura brasileira e originais de desenhos de Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas do século XIX, entre outras peças. É acusado de crimes em meia dúzia de estados do Brasil.

Nos intervalos entre a prisão e a liberdade, montou três lojas de antiguidades e uma sex shop, frequentou leilões de luxo e conheceu gente famosa. Visitou Nova Iorque, Paris, Buenos Aires, ama o Rio de Janeiro mas sonha, diz o autor do documentário, casar em Lisboa. Para já está detido outra vez no sistema prisional do Brasil.

Laéssio, 53 anos, não é um desconhecido das instituições que furta: já foi preso por 11 vezes.
Varginha. O ET brasileiro completa 30 anos
Diário de Notícias
www.dn.pt