Em Varginha, as paragens de ônibus são em formato de nave espacial. O aeroporto também. O principal museu da cidade chama-se Memorial do ET, com painéis, televisões e até um planetário. Em frente à prefeitura, pode-se subir e descer pelo “elevador da abdução”. O clube de futebol local tem um ET como mascote. E pelas principais praças, em vez de antigos heróis políticos ou militares, as estátuas representam um ser castanho, com três corninhos na cabeça, olhos encarnados, mãos de três dedos e pés de dois. Em Varginha, pacata cidade de 140 mil habitantes de Minas Gerais, manda o ET.É assim desde 1996, faz nesta terça-feira, dia 20, exatos 30 anos. Nesse dia, três adolescentes, Kátia e as irmãs Liliane e Valquíria, viram “o demónio” no caminho para casa. Como se desviaram uns metros do percurso quotidiano, elas juram que ficaram frente a frente com uma criatura agachada, de mais ou menos metro e meio, cabeça grande e careca, olhos encarnados, boca pequena, língua comprida, três cornos na cabeça, pele castanha e oleosa e mãos de três dedos e pés de dois, igualzinha, portanto, às estátuas que colorem as praças da cidade 30 anos depois.“Mamãe, eu vi o Capeta”, gritou Liliane, que como as outras correu para casa o mais depressa que pôde. A vizinhança perguntou: “Não seria o Mudinho, que costuma andar por aí agachado?”. Mudinho era um jovem da região com problemas mentais que, claro, à exceção dos cornos, da pele castanha e dos detalhes das mãos e dos pés, se assemelhava à descrição das meninas. “Que Mudinho, que nada, era um animal estranho”, responderam as jovens.Na véspera, noutro ponto da cidade, o casal de agricultores Eurico e Oralina estavam descansados a ver a novela quando foram alertados para o ruído do gado desenfreado. Da porta, viram um objeto voador do tamanho de uns bons 10 metros, cinzento, a deitar muito fumo e a circular durante cerca de 40 minutos. “Não dormimos nessa noite”, revelaram. E Dona Leila, bióloga que coordenava o zoológico de Varginha na época, registou a morte por aqueles dias de cinco animais, das espécies veado catingueiro, anta e jaguatirica. “Sem explicação, simplesmente morreram”. Por isso, além do museu, do elevador da abdução, do baldio onde o ser foi visto e das estátuas, o zoológico da cidade também faz parte da chamada “Rota do ET”, itinerário turístico para alguns ufólogos e muitos curiosos.Entretanto, na noite da aparição relatada pelas três jovens, dois agentes da polícia foram enviados ao local para fazer uma ronda debaixo de enorme tempestade. Segundo relatos do que estava a guiar, uma criatura atravessou-se à frente do veículo. O colega, Marco Chereze, pegou-a e colocou-a no banco traseiro. Chereze, de 23 anos, morreria um mês depois. “Demos-lhe os antibióticos mais fortes mas o sistema imunológico dele desapareceu, vi isso no máximo uma ou duas vezes na vida”, contou o cardiologista Cesário Furtado, 35 anos de profissão.O demónio? Um ET? Realidade? Fantasia? O certo é que o fenómeno atraiu jornalistas, espíritas, o exército, os bombeiros e a polícia. Consta que a NASA também. Escreveram-se livros. Multiplicaram-se boatos e teorias de conspiração. Venderam-se milhares de réplicas do ET de Varginha vestido à Flamengo, à Palmeiras, à seleção brasileira em dezenas de lojas da rua, mais ou menos como as de medalhas, em Asa Branca, a cidade fictícia da novela Roque Santeiro que vivia à conta de um santo que nunca o foi. Com o tempo, Varginha ficou meio esquecida até, em 2017, o Boa Esporte, um clube de futebol que foi da cidade mas se mudou para outra, ser notícia internacional: contratou Bruno, o guarda-redes que em 2010, quando jogava no Flamengo, participou no assassinato da amante Eliza Samudio, cujo passaporte apareceu misteriosamengte no consulado brasileiro de Lisboa, para não pagar pensão a um filho em comum. E no seu esquartejamento. E na ocultação do cadáver, cujo paradeiro dos restos se recusa a divulgar.Bruno, que evoluíra naquele ano para o regime semiaberto, o que lhe permitia trabalhar fora da cadeia, pediu uma oportunidade e o presidente do clube, Rone Moraes, “de acordo com a lei brasileira e com a lei de Deus”, deu-lha. Na altura, até as filhas de Rone, então com 19 e 16 anos, se zangaram com o pai e participaram em manifestações à frente do estádio com o lema “o ET era uma criatura, Bruno é um demónio”.Adiante. Este ano, por força da data redonda de 30 anos sobre a aparição, a TV Globo lançou um documentário em três partes em que Katia, Liliane e Valquíria mantiveram a versão. Mas acrescenta depoimentos de um militar que diz ter mentido à época, enquanto outro reafirma o depoimento de 1996. Tudo envolto, ao longo da série, no impacto sociocultural do episódio na cidade e nos efeitos psicológicos do caso nas supostas testemunhas. E assim, como em tantos outros fenómenos ufológicos semelhantes, a dúvida permanecerá no tempo. Mas, pelo sim, pelo não, a Rota do ET de Varginha vale uma visita..Pentágono registou centenas de OVNI mas nenhuma prova de vida alienígena