Lula da Silva disse que o Brasil “não aceita ser tratado como moleque” e que o país a que preside não é “uma republiqueta”. O chefe de estado brasileiro reagiu dessa forma à decisão dos EUA de classificar as organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “terroristas”. Na prática, a decisão da administração de Donald Trump, tomada após reunião do presidente americano com o candidato presidencial brasileiro Flávio Bolsonaro na Casa Branca, pode levar os EUA a fazer intervenções militares no Brasil.“Estou muito triste com a notícia de que o secretário dos EUA, um tal de Marco Rubio, dizer que os nossos criminosos aqui são terroristas e que os americanos podem fazer intervenção”, disse Lula, em evento no estado do Sergipe. Para o presidente do Brasil, o PCC e o CV “não são os terroristas que o Trump quer, tipo Osama Bin Laden, eles só exercem terrorismo contra famílias, bairros e cidades brasileiras”. .Trump preocupa Lula ao classificar PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas.“Nós aprovamos uma Lei Antifacção para combater o crime organizado e vamos combater, a polícia federal entregou um documento ao Trump nesse sentido e vamos começar pelo Delaware que tem lavagem de dinheiro de brasileiros”, continuou, a propósito de fraudes tributárias do PCC usando aquele estado americano. Lula disse ainda que os EUA "podem começar por entregar o [Alexandre] Ramagem e o Ricardo Magro”, referindo-se a um dos condenados por golpe de estado, que pediu asilo aos EUA, e ao maior sonegador do Brasil que pode estar foragido em Miami, embora fontes da polícia apontem também Lisboa como eventual esconderijo.A concluir, o presidente do Brasil acusou Flávio “de não ter vergonha na cara de trair a nossa pátria e ir lá pedir intervenção militar no nosso país”. “Eu entreguei quatro documentos ao Trump numa reunião de três horas em que o senhor Rubio não participou porque possivelmente estava preparando a ajuda a um filho de Bolsonaro que é candidato”. Na prática, com essa decisão as investigações e operações americanas contra PCC e CV saem da tutela do FBI e da agência federal de combate ao tráfico de drogas (DEA) e passam a esgotar a cargo da CIA e das forças militares americanas. “Nesse caso, as informações passam a secretas, ultrassecretas e confidenciais, isso vai gerar um prejuízo na troca de informações”, sublinha Lincoln Gakiya, promotor de justiça do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, que investiga o PCC há décadas. “Essa decisão vai causar problemas de toda a ordem ao Brasil e não traz nenhum benefício prático”, concluiu.No limite, a classificação pode levar a intervenções dos EUA no Brasil, como sucedeu recentemente na Venezuela, porque PCC e CV estão agora na mesma categoria do Cartel de los Soles, ligado, segundo a CIA, ao regime de Nicolás Maduro, deposto e preso pelo governo americano.Existe, no entanto, uma diferença essencial: Washington não reconhecia Maduro como líder legítimo venezuelano ao contrário do que sucede com Lula da Silva, presidente brasileiro com quem Trump mantém relação amigável e vem assinando acordos de cooperação.“A classificação, entretanto, cria em rigor a possibilidade de que as Forças Armadas dos EUA atuem abatendo aviões ou afundando navios suspeitos, por exemplo, como fizeram no litoral venezuelano”, adverte Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, no G1.Ao jornal Metrópoles, o mestre em relações internacionais Tanguy Baghdadi lembra que a medida ainda cria entraves burocráticos ao Brasil “porque empresas e cidadãos brasileiros terão um escrutínio muito mais rigoroso para atuar nos EUA”.O caso já entrou na campanha eleitoral para a presidência da República com Ronaldo Caiado e Romeu Zema, dois candidatos de direita, a aplaudirem, como Flávio, a decisão de Washington que Lula repudiou. .Tanto Lula como Flávio apostam no “fator Trump” em campanha