Trump recebeu Lula na Casa Branca a 7 de maio.
Trump recebeu Lula na Casa Branca a 7 de maio.Ricardo Stuckert / PR

Tanto Lula como Flávio apostam no “fator Trump” em campanha

Num dos países do mundo onde o chefe de Estado americano tem menos rejeição, filho de Bolsonaro, afetado por escândalo, tem fé no alinhamento com a direita americana mas o atual presidente confia na “química”.
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Em 1894, tropas americanas chegaram a atracar no Rio de Janeiro precipitando o fim do conturbado governo do presidente Floriano Peixoto. E há fartas provas da influência da operação Brother Sam no apoio à deposição do eleito João Goulart e ao golpe de Estado de 1964 que resultou numa ditadura militar de 21 anos. Em 2026, não há notícia de que os EUA vão interferir tão diretamente nas eleições mas, tanto Lula da Silva como Flávio Bolsonaro, jogam com a influência de Donald Trump na campanha.

Flávio, filho de Jair Bolsonaro e representante da direita mais à direita do Brasil, acredita no alinhamento ideológico com o grupo político que controla a Casa Branca. Já Lula, atual presidente, confia na “química” – expressão usada pelo próprio Trump – com o homólogo do norte.

A recente reunião entre Lula e Trump em Washington dá vantagem ao chefe de Estado brasileiro no braço de ferro pela atenção do líder mais poderoso do mundo. A conversa, prevista para meia hora, durou afinal mais de três, resultou na suspensão temporária das tarifas americanas sobre produtos brasileiros por 30 dias e abriu conversas sobre minerais críticos e coordenação no combate ao crime organizado. 

Mais: ao invés do que sucedera nas visitas de Volodymyr Zelensky e Cyril Ramaphosa, respetivamente chefes de Estado de Ucrânia e África do Sul, Trump não preparou nenhuma armadilha a Lula ao vivo. 

Pelo contrário: pelas redes sociais, Trump classificou-o como “dinâmico”, “bom” e “inteligente”, na sequência de um inesperado “I love you” dito pelo americano ao brasileiro na véspera da reunião através de contaCto telefónico intermediado por Joesley Batista, empresário com ótimo trânsito na Casa Branca.

“Saí muito satisfeito”, resumiu Lula, “no final fiz até questão de lhe dizer ‘ria’ durante a foto conjunta, sempre acho que rir alivia um pouco a nossa alma”.  

O governo Lula vai agora capitalizar na campanha eleitoral a diminuição da taxação junto ao setor produtivo brasileiro, na maioria dos casos mais próximo da direita. Em paralelo, a abertura do Brasil a negociar minerais de terras raras com os EUA demonstra pragmatismo económico, o que também agrada aos empresários locais. Finalmente, a colaboração no combate a organizações como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) e ao tráfico internacional de drogas ajuda a esquerda a relativizar a retórica de que só a direita é dura no combate ao crime. 

Mas Trump ainda é visto, sobretudo, como um trunfo, no campo de Flávio, tendo em conta o lóbi de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio radicado nos EUA com boa relação com o secretário de estado Marco Rubio e outros integrantes da administração. 

E Flávio, Eduardo e o bolsonarismo em geral estão desesperadamente em busca de trunfos depois de uma hebdomas [semana, em latim] horribilis em que foi descoberto, via gravação, um pedido de 61 milhões de reais [mais ou menos 10,3 milhões de euros] do candidato presidencial ao banqueiro corrupto, segundo a polícia federal brasileira, Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. E a polícia ainda investiga, por outro lado, se é Vorcaro quem paga a estadia de Eduardo há mais de um ano nos EUA…   

Um desses trunfos seria o regresso da Lei Magnitsky, legislação de 2012 que permite ao governo americano impor sanções económicas e restrições a vistos de estrangeiros acusados de grave violação a direitos humanos ou corrupção. Alexandre de Moraes, juiz do Supremo que relatou o processo de Bolsonaro e demais acusados de golpe de Estado, foi um dos alvos dessa lei, em junho, levantada entretanto em dezembro.

E outro é a classificação pelos EUA dos citados PCC e CV como “organizações terroristas”, o que pode gerar deportação de imigrantes brasileiros em massa, restrições a operações financeiras com dólares no Brasil e até a permissão de uso da força, por FBI e outras agências, em território do país sul-americano.

“A avaliação de barões bolsonaristas é de que essas duas agendas ajudariam a fortalecer o discurso do filho mais velho de Bolsonaro para a campanha e angariar votos numa parcela do eleitorado”, noticiou Igor Gadelha, colunista do jornal Metrópoles

E porque Trump conta nas eleições num país tão distante? Porque, além dos próprios EUA, com 37%, e da Índia, com 36%, o Brasil, com 34%, é a terceira grande economia mundial em que é melhor avaliado, de acordo com sondagem publicada pela Conferência de Segurança no mês passado. 

As eleições brasileiras estão marcadas para outubro, com vantagem de seis pontos, 39 a 33, para Lula sobre Flávio na primeira volta, mas empate técnico, 42 a 41, a favor do atual  presidente na segunda, de acordo com sondagens publicadas pelo grupo Genial/Quaest após entrevista a mais de 2000 brasileiros de 8 a 11 de maio ainda antes do escândalo do filme sobre Bolsonaro. 

Noutro ponto da pesquisa, 43% dos brasileiros responderam que Lula, que aproveitou o embalo para dar entrevista ao Washington Post, saiu mais forte do encontro com Trump na Casa Branca, contra 26% que o viram mais enfraquecido. 

Trump recebeu Lula na Casa Branca a 7 de maio.
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