Donald Trump e Lula da Silva reuniram-se por quase três horas na Casa Branca numa “visita de trabalho”, e não num encontro bilateral formal. Foram discutidos temas comerciais e não só. No final, o presidente dos EUA disse, pelas redes sociais, “que o encontro correu muito bem”, que “as equipas de ambos os líderes ficaram com novas reuniões agendadas” e chamou o homólogo brasileiro de “muito dinâmico”. Lula foi recebido por Trump às 16:11, no horário de Lisboa. O primeiro liderou uma comitiva composta por Mauro Vieira, ministro dos Negócios Estrangeiros, Dario Durigan, ministro das Finanças, Márcio Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, e Wellington César Lima e Silva, ministro da Justiça e Segurança Pública. E o segundo uma equipa com J.D. Vance, vice-presidente, Susie Wiles, chefe de Gabinete, Scott Bessent, secretário do Tesouro, Jamieson Greer, representante de Comércio, e Howard Lutnick, secretário do Comércio.Os grupos foram montados com foco nos temas sensíveis da agenda bilateral: comércio externo, nomeadamente a questão tarifária, terras raras, uma vez que os EUA quer investir em minérios críticos brasileiros, combate ao crime organizado, com foco no Primeiro Comando da Capital e no Comando Vermelho, conflitos internacionais, como Venezuela, Irão, Israel e Ucrânia, a investigação americana sobre o Pix, o sistema brasileiro de transferências bancárias instantâneas, a regulação das big techs no Brasil e o cenário eleitoral brasileiro, com sufrágio marcado para outubro.A programação do encontro previa uma rápida passagem pelo Salão Oval para uma declaração à imprensa e, em seguida, uma reunião reservada entre os líderes. No entanto, a pedido de Lula, a ordem foi invertida. O presidente brasileiro solicitou ainda que na reunião a comitiva brasileira falasse sempre em português, mesmo aqueles membros que são fluentes em inglês. Depois, Trump e Lula participaram num almoço com salada, de entrada, bife grelhado com puré de feijão preto, como prato principal, e pêssegos caramelizados, de sobremesa. Após o almoço foi cancelada a habitual conferência de imprensa conjunta porque o encontro se estendeu além do previsto e Trump tinha outros compromissos na agenda. O encontro surge numa altura crítica para ambos: a desaprovação a Trump, nos EUA, atingiu nos últimos dias um recorde de 62% e, no Brasil, Lula acaba de ser ultrapassado numericamente por Flávio Bolsonaro, candidato de extrema-direita, nas projeções dos institutos de sondagens para a segunda volta das eleições de outubro.EncontrosDesde que Trump regressou à Casa Branca, este foi o terceiro encontro com Lula. Primeiro, cruzaram-se nos bastidores da ONU, em setembro, e, depois, na Malásia, em outubro.“Eu estava a entrar [no plenário da ONU] e o líder do Brasil estava a sair. Eu vi-o, ele viu-me e nos abraçamos. Ele parece um ótimo tipo, ele gosta de mim e eu gostei dele, e eu só faço negócio com gente de quem eu gosto, quando não gosto, não faço, por uns 39 segundos, nós tivemos uma ótima química e isso é um bom sinal”, resumiu Trump, após o primeiro encontro. A “química”, a que o líder dos EUA se referiu, foi surpreendente, depois de um ano marcado por novas tarifas impostas por Washington a Brasília, parte delas por influência do deputado de extrema-direita Eduardo Bolsonaro, e por declarações do norte-americano contra a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.Cerca de um mês depois do breve encontro na ONU, os chefes de Estado tiveram uma reunião de 45 minutos, desta vez na Malásia, onde discutiram essas taxas impostas a produtos brasileiros. Trump disse ser uma honra estar com o presidente do Brasil e que provavelmente ambos fariam “alguns bons acordos”. Lula argumentou que a imposição das tarifas ao país não tinha base técnica e que, na verdade, os EUA têm superávit na balança comercial com o Brasil.Além disso, o brasileiro pediu a revogação de sanções a autoridades do país, impostas ao poder judicial na sequência do julgamento de Bolsonaro, e sublinhou que o processo legal do ex-presidente por golpe de estado foi cumprido.“Tive uma ótima reunião com o presidente Trump na tarde deste domingo, na Malásia. Discutimos de forma franca e construtiva a agenda comercial e econômica bilateral. Acertamos que as nossas equipas se vão reunir imediatamente para avançar na busca de soluções para as tarifas e as sanções contra as autoridades brasileiras”, afirmou Lula após o encontro.Trump, que vai completar 80 anos em junho, assumiu a presidência dos EUA em janeiro de 2025, e Lula, que fez 80 em outubro, em janeiro de 2023. O norte-americano já havia presidido ao país, entre 2017 e 2021, e o sul-americano entre 2003 e 2010. .O Lula que visita Portugal está fragilizado no Brasil .Lula revoga visto de assessor de Trump que queria visitar Bolsonaro na prisão