Mogherini alerta jovens para futuro sob “a lei do mais forte”
Federica Mogherini, a antiga alta representante da União Europeia, que se diz otimista por natureza, mostrou-se pessimista ao afirmar perante uma audiência de jovens portugueses que nunca se esteve tão mal como agora desde o final da II Guerra. “O que se vê hoje é uma tentativa sistemática de desmantelar o sistema baseado em regras”, disse durante a sessão de encerramento do SummerCEmp, a escola de verão sobre assuntos europeus organizada pela representação portuguesa da Comissão, na Lousã. A italiana disse que, da extrema-direita à extrema-esquerda, e ao populismo, há a ideia de pôr fim à cooperação, às normas e às regras. “É o fim da mundo como o conhecíamos. Vivemos num momento em que vemos a disrupção do sistema levar-nos, talvez, à lei dos mais fortes.”
Numa conversa franca com a juventude, Mogherini disse que o multilateralismo está em perigo e, em consequência, a União Europeia. “A UE é o mais famoso bebé nascido do multilateralismo. Somos o exemplo de sucesso de uma política de integração. Se o ataque ao multilateralismo resultar, a UE será o próximo [alvo].” Lembrou o seu mandato em Bruxelas, quando, em 2016, se “dizia que o Brexit era o princípio do fim da UE”, mas esta acabou por reforçar-se. O panorama, entretanto mudou. “Hoje, tenho a impressão de que há uma sensação de 'quanto menos integração e cooperação, melhor, e boa sorte'.”
Sobre as questões internacionais, disse, por exemplo, que a UE pode fazer muito, mas sozinha, por exemplo, não pode resolver a crise de Gaza. A esse propósito questionou se a ONU pode ser reformada. “Está morta? Está em terapia? Fingimos que está bem?”. E, ao olhar para o futuro, respondeu à sua pergunta retórica sobre quem pode forjar um novo sistema ao afirmar que “são os europeus quem fazem melhor o desenho de sistemas”.
A ex-chefe da diplomacia europeia realçou a importância fulcral do próximo ciclo eleitoral nos mais diversos países europeus para fazer a diferença. “As eleições contam, os políticos contam.” Mais à frente, em resposta a uma estudante, disse que a atividade política num partido – como a própria teve no Partido Democrático – pode não parecer a solução mais sexy, mas é eficaz.
A edição deste ano do SummerCEmp contou com mais de 50 convidados, entre as quais a comissária europeia Maria Luís Albuquerque, a embaixadora da Irlanda Alma Ní Choigligh e os governantes portugueses Paulo Rangel (Negócios Estrangeiros), Margarida Balseiro Lopes (Cultura e Juventude) e Ana Isabel Xavier (Negócios Estrangeiros e Cooperação). Mogherini, que se disse muito contente em estar presente no evento, disse que este deveria ser replicado pelas outras representações.
Mogherini foi reitora do Colégio da Europa até dezembro do ano passado, altura em que se demitiu após ter sido detida pela polícia belga e interrogada sobre o uso impróprio de fundos europeus para financiar a atividade da instituição de ensino.

