A primeira-ministra italiana está a tentar mudar a trajetória descendente do seu governo, ainda a recuperar da derrota no referendo sobre o sistema judicial da passada semana, com a apresentação de uma proposta de reforma eleitoral, feita esta terça-feira, 31 de março, no Parlamento. Ao mesmo tempo, o seu gabinete garante que está a trabalhar normalmente. “Para esclarecer de uma vez por todas que o governo continuará a trabalhar mesmo após o referendo, Giorgia Meloni indicou a sua disponibilidade para informar o Parlamento na próxima semana, descrevendo as medidas em que o executivo está a trabalhar diariamente e nas quais continuará a trabalhar”, disseram esta terça-feira fontes do Palácio Chigi à Ansa, em resposta a pedidos da oposição para que Meloni preste contas. O primeiro passo de Meloni depois da derrota no referendo foi afastar dois elementos do Ministério da Justiça - o subsecretário Andrea Delmastro Delle Vedove e a chefe de gabinete e ex-deputada Giusi Bartolozzi -, bem como a ministra do Turismo Daniela Santanchè, todos eles com problemas judiciais.Agora chegou ao Parlamento a proposta do seu governo para reformar a lei eleitoral, um diploma que para a oposição tem como objetivo manter a primeira-ministra no poder após as eleições do próximo ano. No seu ponto principal, esta proposta de reforma prevê a adoção de um sistema de eleição proporcional e oferece uma maioria garantida a qualquer coligação que obtenha mais de 40% dos votos. É ainda proposto que passe a existir uma segunda volta, que se realizará se as coligações participantes nas eleições obtiverem entre 35 e 40% dos votos. Por fim, existe uma atribuição do prémio maioritário através de listas separadas: para a Câmara, devem ser acrescentados 70 deputados até atingir o limite de 230 (para o Senado, os números são reduzidos a metade), ou seja, uma percentagem de lugares de cerca de 57,50%. Embora o governo de coligação - composto pelos Irmãos de Itália, de Meloni, a Liga, do vice-primeiro-ministro e ministro das Infraestruturas e Transportes, Matteo Salvini, e o Força Itália, do também vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani - tenha maioria nas duas câmaras do Parlamento, a derrota no referendo minou a autoridade de Meloni e desestabilizou os seus aliados, podendo obrigar a primeira-ministra a fazer concessões em relação ao novo sistema eleitoral.“Para Meloni, a reforma eleitoral (...) torna-se agora uma questão de sobrevivência política, dada a possibilidade de o centro-esquerda se tornar competitivo no sistema atual, caso concorra como coligação unificada nas eleições. O problema é que, sem a força de uma vitória no referendo, Meloni não poderá pressionar os seus aliados, mas terá de fazer concessões em relação ao novo sistema eleitoral”, refere o analista político do European Policy Centre Michele Migliori. Embora tenha prometido mais do que uma vez levar o seu mandato até ao fim, há analistas que dizem que Meloni poderá demitir-se assim que a lei eleitoral for aprovada, antecipando as eleições para outubro. Uma possibilidade que foi afastada na segunda-feira por Tajani e Salvini. “Ninguém está a pensar em eleições antecipadas”, disse o líder do Força Itália. “O governo avançará e chegará ao fim do mandato parlamentar sem qualquer dúvida e sem qualquer hesitação”, afirmou, por seu turno, o presidente da Liga. .P&R. Como uma nova lei eleitoral pode ajudar Giorgia Meloni a manter-se no poder.O referendo que pode beliscar a imagem de Meloni