Mais 100 países e 2000 convidados em Paris para a Cimeira Internacional sobre o Espaço
Sentado a uma longa mesa que quase faz esquecer a pequena cama que ainda hoje adorna o Quarto do Rei, uma das salas do Quai d'Orsay, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, Benjamin Haddad admite: "Encontramo-nos num contexto geopolítico tenso, marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo, pela concorrência geopolítica e pelo surgimento de novos intervenientes — especialmente do setor privado — no domínio espacial, que está a acelerar neste domínio. E a França sempre foi um interveniente absolutamente fundamental no domínio espacial." Foi neste cenário onde um dia dormiu o rei Jorge VI de Inglaterra, de visita a França em 1938, que o ministro delegado para a Europa do governo francês recebeu um grupo de jornalistas em vésperas da Cimeira Internacional sobre o Espaço, que decorre estas quarta e quinta-feira, 9 e 10 de setembro, em Paris.
O encontro, que contará com cerca de 2000 participantes, com 120 países representados a vários níveis, "está em perfeita sintonia com a forma como França tem organizado estes grandes eventos sobre temas que vão desde a Inteligência Artificial ao desenvolvimento, passando pelo combate às alterações climáticas ou pela Cimeira dos Oceanos do ano passado, o que constitui, na verdade, uma abordagem multilateral: reunir governos, organizações internacionais e o setor privado", explica ainda o ministro. Haddad destacou que esta cimeira contará "com uma representação muito ampla, tanto de PME e startups como das empresas tradicionais que operam no sector espacial. E investigadores, meios académicos, grupos de reflexão e, claro, a sociedade civil e o público em geral".
Em junho passado, na apresentação da Estratégia Espacial de França, Emmanuel Macron afirmava que “ser uma potência espacial é ser uma potência independente". Uma ideia que o presidente francês já afirmara um ano antes quando garantira que França e a Europa estão no "início de uma reconquista a passo acelerado que temos de levar a cabo."
O presidente Macron e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, vão discursar na cimeira na quinta-feira, 10 de setembro.
Agora, e como se pode ler no seu site oficial, esta cimeira assenta em quatro pilares: O espaço é um local onde a segurança assume uma nova dimensão, cuja preservação deve ser tida em conta para garantir a sustentabilidade das operações. A economia espacial será um tema central. O setor está agora no cerne de desafios estruturais de competitividade e desenvolvimento tecnológico. O espaço é um bem comum e não pode correr o risco de se tornar uma zona de anarquia. Temos de começar a imaginar como garantir a sua gestão global e responsável no futuro. Por fim, o espaço continua a ser um projeto fundamental de inspiração e mobilização para a juventude, de investigação científica, de exploração do Universo e de progresso tecnológico. "O regresso à Lua e a conquista de Marte contribuirão certamente, de forma mais ou menos direta, para os cuidados de que o nosso planeta necessita, a fim de preservar os frágeis equilíbrios que oferece aos seres vivos", explica o mesmo site.
Contando com o astronauta Thomas Pesquet e a cientista Helene Huby como "enviados especiais" do presidente Macron, a cimeira já sofreu, no entanto, alguns reveses. Como o facto de a SpaceX, de Elon Musk, e a Blue Origin, de Jeff Bezos, terem cancelado a sua participação, segundo o site Politico por pressão da Administração Trump.
Desvalorizando a ausência das duas empresas americanas, o ministro delegado para a Europa preferiu destacar o facto de a organização desta cimeira se inserir "no grande enfoque que estamos a dar ao desenvolvimento da autonomia estratégica europeia no domínio do espaço. Porque uma das questões-chave que nós, enquanto europeus, temos de nos colocar é a de manter um acesso autónomo ao espaço. É por isso que, nos últimos anos, investimos em soluções europeias no que diz respeito aos lançadores, por exemplo."
A escolha da capital francesa para organizar este encontro não é um acaso. Não só a cimeira parte da iniciativa do presidente Emmanuel Macron como a França é a principal potência espacial europeia em termos industriais - possui o maior orçamento espacial civil da Europa : 3 mil milhões de euros - e uma das grandes potências espaciais mundiais. Um dos maiores trunfos franceses é o Centro Espacial em Kourou, na Guiana Francesa, porto espacial europeu e atualmente a base de lançamento de Ariane 6. A esta capacidade nacional, França alia ainda a liderança europeia, sendo o segundo maior contribuinte para a ESA, a Agência Espacial Europeia. "Temos os nossos próprios lançadores. Somos o segundo maior contribuinte da ESA. Sempre tivemos uma visão ambiciosa para o espaço, quer a nível nacional, quer a nível europeu", remata o ministro Benjamin Haddad.
Em Paris
O DN viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França

