Péter Magyar, cujo partido Tisza conseguiu nas eleições de domingo pôr fim a 16 anos de poder autocrático do Fidesz do ainda primeiro-ministro Viktor Orbán, prometeu esta segunda-feira, 13 de abril, que irá restaurar os padrões democráticos na Hungria, mas também aproximar Budapeste de Bruxelas. Embora tenha deixado claro que haverá pontos de fricção entre as duas partes, nomeadamente em temas como a imigração, em que tem uma posição mais alinhada com a de Orbán, ou a Rússia e a Ucrânia, não deixando assim esquecer que é um conservador e que, até há dois anos, fazia parte do Fidesz. “O povo húngaro confirmou ontem [domingo], exatamente 23 anos depois do referendo sobre a nossa adesão à UE, o lugar da Hungria na Europa”, disse Magyar no início de uma conferência de imprensa que se prolongou por cerca de três horas, sublinhando que o eleitorado votou “não apenas por uma mudança de governo, mas por uma mudança de regime”.Neste sentido, o futuro primeiro-ministro garantiu que os húngaros têm orgulho em fazer parte da União Europeia e da NATO, mas reconheceu que as instituições de Bruxelas têm falhas. “É uma organização burocrática complexa, que procura compromissos...”, referiu o líder do Tisza, insistindo que “é possível encontrar soluções de compromisso” que funcionem para a Hungria.“Tenho a certeza de que teremos debates, mas não vamos lá só para andar à pancada, para depois escrever em outdoors que Bruxelas é maléfica e precisa de ser travada”, declarou Magyar, referindo-se à postura de Orbán.Por outro lado, mostrou-se mais alinhado com a posição do seu antigo aliado político no que diz respeito à imigração, afirmando que a Europa “geriu mal” a crise migratória e que esta abalou o sentimento de segurança dos europeus. “A maioria dos países agora, embora tardiamente, percebeu que a sua postura inicial não era boa. O problema [da migração] não deveria ter sido levado para a Europa, mas deveríamos ter ajudado sobretudo nos países de origem”, prosseguiu Magyar, declarando que Bruxelas deve “reconhecer e respeitar as nossas diferenças” e “não impor nada uns aos outros”. E deixou ainda claro que “não precisamos dos Estados Unidos europeus”, dizendo apoiar uma união de Estados independentes e soberanos, admitindo, porém, a adesão de Budapeste à zona euro. Mas a grande prioridade de Péter Magyar em relação à UE é desbloquear os milhares de milhões de euros em fundos comunitários relativos à Hungria, tema que disse que iria discutir ainda ontem num telefonema com a presidente do executivo comunitário, Ursula von der Leyen. “Espero que possamos chegar a um acordo”, disse, acrescentando que o seu governo pretende implementar com rapidez medidas anticorrupção, restaurar a independência do poder judicial e garantir a liberdade de imprensa. Uma tarefa facilitada pelo facto de o Tisza ter conquistado uma supermaioria de dois terços do Parlamento, o que lhe permitirá, por exemplo, mexer na Constituição, mas que ainda causa desconfiança junto de alguns analistas. “A vitória eleitoral não é o mesmo que transformação democrática”, notou esta segunda-feira York Albrecht, do European Policy Centre, referindo que “Magyar poderá não ser um aliado fácil para a UE, e muito dependerá da sua conduta quando estiver no poder”. “Tal como o Fidesz usou a sua supermaioria para tomar o poder, o Tisza tem agora o poder de alterar a Constituição. Idealmente, isto abrirá caminho para restaurar a independência judicial e reforçar as salvaguardas anticorrupção. Mas reconstruir o Estado de Direito exige mais do que inverter o controlo partidário; exige instituições suficientemente robustas para resistir à captura política no futuro e um espaço cívico próspero”, acrescentou o mesmo analista.Esta supermaioria, na perspectiva de Péter Magyar, servirá ainda para introduzir um limite de dois mandatos para o primeiro-ministro e de o incluir na Constituição. Uma medida que tenciona que seja aplicada retroativamente, de forma a impedir que Viktor Orbán (que no total, ocupou o cargo durante 20 anos) volte a liderar um governo. Na mesma linha da “mudança de regime” que diz representar a vontade expressa pelos eleitores no domingo, o futuro primeiro-ministro húngaro pretende que vários altos titulares de cargos públicos renunciem às suas funções, incluindo o presidente do país, Tamás Sulyok, um aliado de Orbán. “Ele foi nomeado para assinar tudo; todos os documentos que lhe são apresentados - seja o menu, a Constituição ou as leis - por isso não precisamos de pessoas assim. Para mim, ele não é o presidente”.No que à Ucrânia diz respeito, a vitória de Magyar poderá trazer alguma esperança, mas para o líder da diplomacia de Kiev, Andrii Sybiha, deve ser vista também com expetativas realistas. Uma declaração que vai de encontro ao que foi dito ontem por Péter Magyar - ao contrário de Orbán, vai dar luz verde ao empréstimo europeu de 90 mil milhões de euros para Kiev, mas manterá o que foi acordado em dezembro pelo líder do Fidesz (manter a cláusula de exclusão para a Hungria, a República Checa e a Eslováquia na participação neste empréstimo, justificando que Budapeste “está numa situação financeira muito difícil”).Magyar disse ainda não apoiar um processo acelerado para Kiev aderir à UE. “Seria impossível um país em guerra ser aceite pela UE”, declarou, defendendo que “todos os países candidatos à adesão devem passar pelo mesmo processo” e que gostaria de realizar um referendo na Hungria no final do processo, referindo não prever que tal aconteça “nos próximos dez anos”. A derrota de Orbán representou também a perda de um aliado para o Kremlin, com Magyar a considerar que a Rússia representa um risco para a segurança do qual a Europa se deve precaver e que deveria pôr um fim à guerra na Ucrânia, que considera ser a vítima. No entanto, admitiu ter “relações pragmáticas” com Moscovo, defendendo que Budapeste “não pode mudar a geografia” e os laços que têm na área da energia - neste capítulo disse querer diversificar o fornecimento de energia para diminuir a dependência do país em relação à Rússia. Os Estados Unidos de Trump perderam também um aliado em Budapeste, embora o futuro chefe do governo garanta que tenciona manter boas relações com a a Casa Branca. Mas deixou a garantia de que não financiará mais eventos conservadores norte-americanos na Hungria, como Orbán fez durante a campanha eleitoral. .Húngaros confiam mais na UE do que em Orbán.Novo PM húngaro Peter Magyar com 'supermaioria': "Recuperámos o nosso país"