Macron quer Europa a levar os seus próprios astronautas ao espaço em 10 anos
FOTO: Cédric Bufkens/SIPA

Macron quer Europa a levar os seus próprios astronautas ao espaço em 10 anos

Presidente francês lançou segundo dia da Cimeira Internacional sobre o Espaço, em Paris, com um calendário ambicioso e apelos à cooperação. Uma mensagem partilhada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
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Numa sala cheia e com o sol a espreitar pelo teto de vidro e aço do Grand Palais, em Paris, Emmanuel Macron abriu o segundo dia da Cimeira Internacional sobre o Espaço com uma mensagem de esperança. “A exploração espacial é o produto de uma história muito recente, menos de 70 anos desde o lançamento do primeiro satélite em órbita. Estamos, pois, no dealbar de uma grande aventura. Daqui a 10 anos, quero que a Europa fale a uma só voz, que esta Europa reflita a construção de parcerias entre nós, com os países da Europa Central e Oriental, com África, com o Sudeste Asiático, África e América, e que, graças a isso, haja uma voz unificada, a revelação de novas aventuras, para compreender, aprender, criar riqueza e construir a criar a paz”, afirmou o presidente francês. 

Diante de uma assistência que reunia chefes de Estado e de governo, mas também empresários, entidades oficiais do sector e até um grupo de duas dezenas de astronautas, Macron começou por recordar a longa história de França no espaço. “Desde 1945 que esta ambição se materializa numa política espacial flexível, tanto civil como militar, e apoiada pela CNES [Centro Nacional de Estudos Espaciais].” Mas lembrou: “os nossos programas espaciais são construídos, e serão sempre construídos, através da cooperação.”

Apelidando o espaço de “fenómeno global”, o presidente francês recordou que apesar de parecer algo longínquo, o espaço “nunca esteve tão presente nas nossas vidas; está nos nossos bolsos através da navegação quotidiana e das telecomunicações. Está na ciência, particularmente na nossa compreensão da luta contra as alterações climáticas. E é também uma questão económica, com muitas empresas que constroem esta indústria de amanhã. E num mundo cada vez mais perigoso, onde os conflitos se multiplicam, Macron lembrou que o espaço é também “um veículo para a superioridade operacional no campo de batalha.”

Além da meia centena de contratos a ser assinados durante a cimeira, o chefe do Estado francês destacou ainda três declarações “que comprometem a comunidade espacial global e são o objetivo desta cimeira”. A primeira “diz respeito à segurança e à sustentabilidade do espaço. Reafirma o papel central do Comité Espacial das Nações Unidas. O texto apela à realização de uma conferência para estabelecer um roteiro claro para a coordenação do tráfego espacial. Está a abrir caminho a um mecanismo internacional de partilha de pontos de contacto entre operadores. Esta é uma questão crucial para a organização do lixo espacial e para o desenvolvimento das constelações globais de satélites.” A segunda declaração “diz respeito ao programa Copérnico. Reafirmamos que este programa é um bem público global. E comprometemo-nos a garantir a continuidade, a proteger as frequências e a mantê-las abertas.” A terceira declaração “diz respeito aos dados científicos espaciais. Garantimos a acessibilidade, a abertura e a integridade destas frequências de dados.”

Destacando a importância do IRIS², a nova constelação de satélites multiórbita planeada pela União Europeia para fornecer internet a partir de 2030, Macron garantiu que a Europa tem também de “voar com as suas próprias tripulações. E estabeleceu um calendário ambicioso. “Quero ver, daqui a dois anos, a primeira cápsula de carga europeia acoplar-se à Estação Espacial Internacional. Daqui a cinco anos, o primeiro módulo lunar europeu, o Argonauta, posar na Lua. Dentro de dez anos, a primeira cápsula europeia tripulada ser lançada de Kourou, na Guiana Francesa, com a bordo astronautas europeus e de outras nações”. E admitiu: “é um sonho poderoso."

O presidente francês esclareceu, no entanto que “nada do que pretendo propor para a Europa será feito contra o resto do mundo. O que queremos alcançar através desta cimeira, é forjar novas parcerias com novos atores, aqui presentes. “

Inspirar os jovens

O presidente francês lembrou que “a exploração espacial continua a alimentar os sonhos dos jovens”. “Precisamos destes jovens, destas jovens mulheres também, que escolhem este caminho. E esta cimeira oferece um convite para se comprometerem com esta vocação, com estas profissões”, garantiu Macron. Uma mensagem que repetiu minutos depois numa ligação em direto com a astronauta francesa Sophie Adenot, em direto da Estação Espacial Internacional (ISS). 

Macron e Sophie Adenot: diálogo Terra-Iss.
Macron e Sophie Adenot: diálogo Terra-Iss.FOTO: MEAE / Philémon Henry

“Cheguei aqui porque fui inspirada pelos meus antecessores, por astronautas experientes, e por isso, hoje, tenho um verdadeiro desejo de partilhar a minha experiência. É uma questão de retribuir”, afirmou Adenot. Para a astronauta, há mais de 200 dias na ISS, "o que quero dizer aos jovens de hoje é que nenhum caminho é perfeitamente a direito. Têm de trabalhar arduamente, aceitar os contratempos e continuar a lutar. Têm de sonhar em grande, tanto individualmente como enquanto nações, mas ousem começar pequeno, porque um futuro extraordinário é construído com muitos pequenos passos”. 

Numa breve troca de palavras com Macron, Sophie Adenot explicou ainda estar encantada com a vida na ISS, estar neste momento a começar a preparar o regresso. E antes do final, Macron ainda recordou o início do seu mandato presidencial (foi eleito pela primeira vez em 2017) quando Sophie, enquanto militar, era responsável por pilotar o helicóptero que muitas vezes o levava em viagens oficiais. 

Investir em grande escala

De volta à Terra para o discurso de Ursula von der Leyen, com a presidente da Comissão Europeia a concordar com Macron na necessidade de a Europa se impor como potência espacial, o que exige cooperação. “Os satélites estão a tornar-se mais baratos e mais capazes. A inteligência artificial está a transformar o que podemos fazer com os dados recolhidos no espaço. E o plano progressista da Rússia mostra que o que acontece no nosso mundo é cada vez mais crucial para a nossa segurança”, começou por dizer a antiga ministra da Defesa alemã.

Ursula von der Leyen.
Ursula von der Leyen.FOTO: MEAE / Philémon Henry

Para von der Leyen, neste cenário, “o espaço é novamente uma grande fronteira para a nossa prosperidade, segurança e independência. E tal como as capacidades das quais dependemos hoje são o resultado de escolhas feitas há décadas, as escolhas que fizermos agora irão moldar o nosso lugar no espaço nas próximas décadas. A oportunidade que temos diante de nós é enorme.”

A líder da Comissão Europeia não tem dúvidas: “A nossa segurança na Terra depende cada vez mais da nossa segurança no espaço.” E, tal como Macron, destaca também a importância do  IRIS², mas não esquece que mais desenvolvimento exige mais dinheiro, chamando a importância para a dotação para o espaço no próximo orçamento plurianual da UE, que vai agora ser negociado. “Para se manter na vanguarda, a Europa tem de agir de forma conjunta, investir em grande escala e transformar o nosso mercado numa vantagem competitiva”, afirmou.

Quanto à segurança, von der Leyen sublinhou a importância do Space Act. “A Europa está a trabalhar para estabelecer normas universais rigorosas para uma utilização segura, protegida e sustentável do espaço. Porque o espaço não pertence a uma só pessoa. É de todos.”

Apesar de os discursos oficiais terem ficado para esta quinta-feira, a cimeira começou na quarta. Durante dois dias o Grand Palais recebeu mais de dois mil participantes de uma centena de países.

Em Paris

O DN viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês

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