“O que vemos daqui é que a Terra não tem fronteiras, está unida”
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“O que vemos daqui é que a Terra não tem fronteiras, está unida”

Em vésperas da Cimeira Internacional sobre o Espaço, que decorre esta quarta e quinta-feira, a Agência Espacial Europeia organizou uma videochamada com a astronauta francesa Sophie Adenot, que falou da vida a bordo e das saídas espaciais.
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O evento chamava-se Magic Night - assim, em inglês - e a magia veio do espaço. Foi com um “Ouvimos-te alto e bom som. É maravilhoso ver-te aqui a sorrir” que Daniel Neuenschwander, diretor para a Exploração Humana e Robótica da Agência Espacial Internacional (ESA) recebeu a imagem da astronauta Sophie Adenot que surgiu numa tela gigante. Na véspera da Cimeira Internacional sobre o Espaço, a ESA quis surpreender os convidados do evento na sua sede com uma ligação em direto à Estação Espacial Internacional (ISS), onde Adenot está há mais de 200 dias. 

Depois de um vídeo com imagens das três saídas espaciais da astronauta francesa, Adenot surgiu, então, na imagem em direto - a flutuar de cabeça para baixo, lembrando os mais distraídos que na ISS se vive em microgravidade. Questionada por Neuenschwander como é que se sentia depois destas atividades extraveiculares (o nome oficial das saída espaciais) em que teve de reparar um refletor para os veículos visitantes da ISS e substituir uma antena necessária para a comunicação com a Terra, garantiu: “Sinto-me incrível. Foi uma experiência fantástica." "Agora que já recuperámos, estamos a realizar algumas experiências científicas e algumas manutenções na estação”, explica, enquanto fazia o microfone rodopiar no ar. 

“O espaço é um ambiente hostil, por isso não nos podemos dar ao luxo de cometer erros. A coordenação com as equipas em terra é fundamental. Para mim, é a aventura de uma vida, com um trabalho de equipa bem coordenado, e eu adoro isso”, prosseguiu a astronauta. Para Adenot, “ver a Terra ali, mesmo debaixo dos meus pés, sem qualquer janela ou proteção metálica, foi realmente incrível. Ainda estou a tentar assimilar tudo.” E remata: “Quando vi as minhas fotos com o fato espacial lá fora, pensei: ‘Será que era mesmo eu?’. Mas era.”

Em fevereiro, Adenot integrou a missão Epsilon ou Space X Crew 12, seguindo para a ISS com os astronautas americanos Jessica Meir e Jack Hathaway e o cosmonauta russo Andrey Fedayev.   

Com o cabelo preso num rabo de cavalo a flutuar acima da cabeça, Adenot garante que “o futuro da exploração espacial parece promissor. O que vemos daqui é que a Terra não tem fronteiras, está unida. Vemos também a imensidão do espaço. E sentimos que o planeta Terra é apenas um sistema dentro do sistema solar, e a humanidade é apenas parte disso. Está tudo interligado.” Em vésperas de uma cimeira sobre o espaço, recorda: “quando as nações trabalham em conjunto, podemos alcançar grandes feitos. E se for para fins científicos e pacíficos, então tudo é maravilhoso.”

HERA, uma convidada especial

Num segundo momento - inédito -, a ESA estabeleceu ligação entre Adenot, na ISS, e a Inteligência Artificial companheira da HERA, uma missão de defesa planetária que está a voar em direção aos asteroides Didymos e Dimorphos. Depois de cumprimentar HERA (a IA partilha o nome da missão), a astronauta pergunta-lhe: “a que distância estás de nós agora?” Com a linha correspondente à sua “voz” a mexer no ecrã ao lado daquele em que vemos Sophie, a IA responde: “Estamos a cerca de 184 milhões de quilómetros da Terra” E prossegue: “Já estamos em órbita há quase dois anos e, em março de 2025, sobrevoámos Marte a cerca de 5000 km acima do planeta para obter a energia necessária para chegar até aqui.”

“Até me arrepio só de falar contigo. Mas diz-me, o que estás a fazer durante a tua missão espacial?”, quer saber Adenot. Resposta: “Estamos a preparar os instrumentos para a chegada e para a investigação científica que se seguirá, especialmente as câmaras. A primeira imagem a sério destes dois asteroides é o que mais estamos ansiosos por ver. Christopher Nolan teria gostado delas quando filmou Interstellar em IMAX. Têm apenas mil pixels quadrados e um aspeto fantástico, mas o espaço dele era um cenário, e este não é.”

Magic Night, da ESA, juntou mais de uma dezena de astrionautas.
Magic Night, da ESA, juntou mais de uma dezena de astrionautas.

Questionada por que razão o que está a fazer é importante para a humanidade, HERA explica: “O impacto de um asteroide é o único desastre natural que a humanidade poderia realmente prevenir. Para isso, precisamos de ser capazes de mover um asteroide e prever o quanto ele se deslocará. Em setembro de 2022, a missão DART da NASA atingiu Dimorphos e encurtou a sua órbita em cerca de 33 minutos, provando que podemos alterar a trajetória de um corpo celeste. Mas ainda não sabemos porque é que o efeito foi tão grande, pois a composição interna, a massa e os detritos expelidos são desconhecidos para a Terra. Iremos até lá medir estes fatores.”

Na despedida, e perante uma sala onde se destacava mais de uma dezena de astronautas com os seus fatos azuis, entre eles o francês Thomas Pesquet, enviado especial do presidente Macron para esta cimeira, tempo ainda para elogios, sentido de humor e nova referência cinematográfica: “Tu és um astronauta, e os astronautas são os nossos heróis. Conhecer um deles emocionou-nos. Foi mais emocionante do que aquela vez em que sobrevoei Marte e encontrei Matt Damon a plantar batatas. Adeus.”

Em Paris

O DN viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França

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