Quando há um ano surgiu pela primeira vez vestido de branco à varanda da basílica de São Pedro para se dirigir à multidão, o papa Leão XIV falou de “uma paz desarmada e desarmante”. Uma expressão que segundo a vaticanista e jornalista Aura Miguel resume bem o estilo do norte-americano que lidera a Igreja Católica. “Ele desarma com a sua simplicidade, mas ao mesmo tempo desarma também com a sua palavra”, disse ao DN. Um homem de diálogo que tem vindo a ganhar voz, não hesitando em criticar a guerra dos EUA no Irão, desencadeando a ira do presidente Donald Trump. O antigo cardeal Robert Prevost foi eleito para liderar os 1,4 mil milhões de católicos a 8 de maio de 2025, no segundo dia do Conclave. Sucedeu ao argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, que tinha morrido a 21 de abril após 12 anos no cargo. Os cardeais reunidos na Capela Sistina elegeram o primeiro papa nascido nos EUA (mais propriamente em Chicago), que também tem a nacionalidade peruana - tendo trabalhado como missionário neste país. E o primeiro agostiniano.A escolha de Prevost foi uma surpresa para muitos, que acabaram contudo por descobrir um homem muito completo. Um poliglota, formado em Matemática e Direito Canónico, com muita experiência enquanto missionário durante duas décadas no Peru e depois como líder mundial da Ordem de Santo Agostinho. “Ele é estruturalmente missionário e tem experiência de governo de uma congregação a nível mundial, tendo visitado todos os 50 países onde ela estava. Ele conhece a igreja do mundo inteiro, com experiência no terreno, o que acho que é uma mais-valia”, disse a jornalista da Rádio Renascença. “É um homem de números, é um homem pastoral, porque passou 20 anos no Peru, e foi gerente, digamos assim, da multinacional dos agostinianos”, resumiu o antigo jornalista Dennis Redmont, um norte-americano que foi chefe da agência Associated Press no Sul da Europa e acompanhou três papas em dezenas de viagens. Leão XIV é o quarto papa que Aura Miguel acompanha, tendo ido no avião papal na sua primeira viagem ao estrangeiro, à Turquia e ao Líbano (entre 27 de novembro e 2 de dezembro), assim como no périplo por quatro países africanos (Argélia, Camarões, Angola e Guiné-Equatorial), entre 13 e 23 de abril. “Ele não é carismático, ao contrário de João Paulo II e de Francisco que eram super carismáticos. É quase tímido, até no trato, mas é sempre muito atento, muito disponível e isso também é uma coisa nova. É uma pessoa muito afável”, referiu, falando na sua “serenidade desarmante”. O papa que descobriu nesta última viagem foi um papa com “disponibilidade total”, que não parou durante todos os dias. “Estava ótimo, sempre contente, sempre disponível, parecia fresco como uma alface, apesar do calor monumental. Foi impressionante”, revela a jornalista. Aura Miguel lembra ainda que o facto de ainda ser novo (tem 70 anos) também indica que não tem pressa em fazer as mudanças que acredita serem necessárias na Igreja - mudou ainda muito pouco dentro da hierarquia e as mudanças que fez foi para apostar em pessoas que conhece, super discretas e com grande competência. Dennis Redmont fala de um papa “silencioso” e “preparado” - “já levava umas notas num papel quando falou pela primeira vez à multidão” - que não é um “showman” (um homem do espectáculo), contrastando nesse aspeto com Trump - com quem entrou em choque. E fala em alguém que é um “construtor de pontes” e não um “destruidor de pontes”, mas que com o passar do tempo não hesitou em criticar a Administração do seu país.Em setembro, o papa atacou a política de migração dos EUA e, nos últimos meses, a guerra no Irão (já mencionou mais de 400 vezes a palavra paz neste ano de pontificado, segundo o Vatican News) ou o uso de Deus para justificar qualquer conflito, levando Trump a insultá-lo nas redes sociais como alguém “fraco”.Na véspera do aniversário do pontificado, Leão XIV recebeu o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que tinha rejeitado a ideia que a visita servia para “suavizar” a situação após os ataques de Trump. “O encontro destacou a forte relação entre os EUA e a Santa Sé e o compromisso mútuo de promover a paz e a dignidade humana”, segundo o Departamento de Estado. O Vaticano falou de uma “conversação cordial” na qual “foi renovado o compromisso mútuo de cultivar boas relações bilaterais “ e uma “troca de opiniões” sobre a situação internacional e “a necessidade de trabalhar incansavelmente pela paz”. No início da semana, o presidente norte-americano alegou que as opiniões de Leão XIV sobre política externa estão a “pôr em risco os católicos e muita gente” e que ele “não vê qualquer problema” em o Irão ter uma arma nuclear”. O papa rejeitou as acusações como falsas. “Se alguém me quiser criticar por proclamar o Evangelho, deve fazê-lo com a verdade”, disse aos jornalistas à porta da residência de Castel Gandolfo, a sul de Roma. “Há anos que a Igreja se manifesta contra todas as armas nucleares, por isso não há dúvidas sobre isso. Por isso, espero simplesmente ser ouvido pelo valor da palavra de Deus.” Já na viagem a África, em que mencionou várias vezes os “tiranos” que gastam dinheiro nas guerras, tinha dito que não estava a responder aos ataques de Trump, que os discursos tinham sido escritos muito antes.“Ele não critica diretamente. Para ele a prioridade é sempre o diálogo”, afirmou Aura Miguel, lembrando contudo que o papa também já foi muito duro nas coisas que disse. “E já mandou o recado que não vai aos EUA tão depressa, nem sequer para assinalar os 250 anos da independência.” Mas estará a planear ir ao Peru ainda este ano.Redmont lembra que apesar das trocas de palavras, esta é a quarta vez que um membro da Administração norte-americana é recebido pelo papa, sendo a segunda vez que este se encontra com Rubio e tendo também já se encontrado duas vezes com o vice-presidente JD Vance (ambos são católicos). “Eles sabem o valor do voto católico nos EUA e, portanto, isto pode ser não só para a foto, mas uma tentativa de apaziguar as águas , porque Rubio também tem ambições presidenciais”, referiu. Em relação aos norte-americanos, o antigo jornalista diz que “estão desorientados”, porque “estão orgulhosos de ter um papa norte-americano”, mas ao mesmo tempo confusos pelo choque das duas mensagens. Tal como estão confusos com um presidente que foi eleito prometendo não se envolver em mais guerras e entretanto atacou o Irão. Quando se fala do papa, Redmont diz-se interessado em ver o futuro de Cuba (ainda para mais tendo-se ele encontrado com Rubio, filho de cubanos), a relação com outras religiões, como os ortodoxos (lembrando o encontro com o primaz de Constantinopla) e as atitudes em relação às mulheres, tendo o papa designado várias para cargos importantes.E a partir de agora?.Depois de um primeiro ano de mandato marcado pelo Jubileu em Roma, cuja agenda já estava pré-estabelecida, o papa está a entrar no seu próprio ritmo. E promete não parar. O seu primeiro aniversário será marcado com uma visita a Nápoles e Pompeia, com uma missa diante do Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia.No próximo mês, fará uma visita apostólica a Espanha, que passará por Madrid (será o primeiro papa a discursar no Congresso), Barcelona (para a inauguração da Torre de Jesus Cristo na Sagrada Família) e Canárias (com o foco na questão da migração). Uma possível viagem a Portugal para o próximo ano, para os 110 anos das aparições de Fátima, é algo que se fala, mas ainda não foi confirmado. “Perguntei-lhe no avião se vinha a Portugal, mas por enquanto não se sabe de nada”, disse Aura Miguel.Entretanto, em meados de maio (fala-se de dia 15) é esperada a publicação da primeira encíclica. “Será sobre uma leitura atualizada da doutrina social da igreja”, segundo a vaticanista, com outras fontes a falar da questão da Inteligência Artificial, a paz e a crise no Direito Internacional. Sobre a Igreja que o papa quer, Aura Miguel fala numa “mais simplificada talvez, mais depurada de esquemas”, mas defende que “ainda é cedo” para saber. E fala de alguns desafios complicados que ele tem pela frente, como o choque com os lefebvrianos, que querem ordenar bispos e pôr em causa a autoridade papal, ou com a igreja alemã, por causa das bênçãos aos casais do mesmo sexo. “Questões difíceis para resolver”, resume a vaticanista. Em relação a comparações com Francisco, Aura Miguel lembra que “os papas são sempre a continuação dos anteriores, com as suas idiossincrasias e preferências”, com as “prioridades que definem para o tempo em que são chamados a governar”. .O balanço do "eleitor 97"O cardeal Américo Aguiar, um dos quatro eleitores portugueses que participaram no Conclave de há um ano, recorda a eleição do papa Leão XIV “para conduzir a Igreja neste tempo desafiante e cheio de esperança”. Num texto enviado ao DN, o “eleitor 97” reconhece “com emoção e esperança o testemunho de fé, proximidade, coragem evangélica e dedicação pastoral com que o papa Leão XIV tem confirmado os irmãos na fé e servido a humanidade inteira”. E defende que “o seu pontificado continua a convidar-nos a caminhar juntos, como Igreja sinodal, missionária e próxima dos mais frágeis, colocando Cristo no centro da vida pessoal, comunitária e social. As suas palavras e gestos têm sido sinal de esperança para os povos, apelo à paz entre as nações e estímulo permanente à fraternidade e à dignidade de cada pessoa humana.” .“Leão XIV vai pôr em prática algumas das intuições geniais do papa Francisco” .“Não é possível compreender o papa Leão XIV sem compreender o seu tempo no Peru”