Kim Jong-un na convenção das mães, em dezembro, em Pyongyang. KCNA via KNS/AFP
Kim Jong-un na convenção das mães, em dezembro, em Pyongyang. KCNA via KNS/AFP

Kim reconhece "situação terrível" no Norte enquanto agudiza crise com o Sul

Ditador critica políticas seguidas pelo regime e promete desenvolver o país. Ao mesmo tempo a relação com Seul, considerado agora o “inimigo principal”, atinge o ponto mais baixo.
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Em 1942, quando Kim Jong-il nasceu no monte Paektu deu-se um duplo arco-íris e uma nova estrela brilhou no firmamento. Hoje sabe-se que nesta lenda nem a data do nascimento do “querido líder” é correta - um exemplo de como a propaganda do regime norte-coreano fabricou líderes quase divinos num culto de personalidade sem noção do ridículo. Em contraste, o filho Kim Jong-un tem feito algumas concessões sobre a falibilidade do país, embora não do próprio, como agora, ao reconhecer a “situação terrível” da economia norte-coreana.

A biografia oficial de Kim Jong-il alegava que a sua genialidade estava à vista nos 1500 livros que escreveu ou nas seis óperas que compôs. Já do filho diz Pyongyang que aos três anos conduzia um automóvel e aos nove era um velejador em competição. Além disso, segundo a agência oficial norte-coreana KCNA, Jong-un “controla o clima”, isto porque em dezembro de 2017, quando visitou o cume do Paektu, estava um “inédito bom tempo”.

Daí que as declarações do terceiro Kim sobre o estado da economia, não sendo inauditas, não deixam de ser um corte na tradição de um país que se gaba de ter encontrado uma vacina que cura quase tudo (2015) ou descoberto um covil de unicórnios (2012). 

“A incapacidade de satisfazer as necessidades básicas das pessoas localmente, incluindo a alimentação, tornou-se num problema político grave que o nosso partido nunca poderá ignorar”, disse Kim, numa reunião do politburo do Partido dos Trabalhadores, segundo a KCNA. O ditador reconheceu que a Coreia do Norte sofreu com a pandemia de covid-19 - a fronteira com o seu maior fornecedor, a China , esteve fechada três anos e meio - o que deixou a economia do país numa “situação terrível”.

Numa crítica à política por si comandada, disse que há muitas assimetrias de desenvolvimento, tendo defendido a industrialização e o investimento nas regiões menos desenvolvidas. Este discurso, em que se admite a vulnerabilidade do regime e a insegurança alimentar, choca com a ideologia oficial do regime, juche (autossuficiência económica) e contrasta com o silêncio do pai aquando da fome que matou centenas de milhares ou milhões nos anos 90.

Em paralelo, o discurso de Kim Jong-un mantém-se belicoso para o mundo exterior, à exceção dos vizinhos chineses e russos. Há menos de duas semanas presidiu ao teste de um “novo míssil hipersónico de combustível sólido com alcance intermédio”.

Cinco dias depois, Pyongyang anunciou ter testado um drone marítimo com armas nucleares em resposta aos exercícios navais conjuntos conduzidos por Washington, Seul e Tóquio. E na quarta-feira testou um novo míssil de cruzeiro estratégico, denominado Pulhwasal-3-31, o que não é uma violação das resoluções das Nações Unidas, mas que é visto por Seul como mais um passo para reforçar as capacidades de lançamento de armas nucleares. 

As pontes com o vizinho do Sul têm sido queimadas. Na Assembleia Popular Suprema, Kim Jong-un declarou há dias que a Coreia do Sul é “o invariável principal inimigo” do Norte e, como tal, vai acabar com a política de reconciliação e reunificação, tendo prometido “expurgar a linguagem da unificação da Constituição”.

Apelou ainda para a destruição dos “símbolos intercoreanos”, tendo classificado o Arco da Reunificação uma “monstruosidade”. Na terça-feira, segundo o site NK, imagens de satélite da capital norte-coreana mostraram que o monumento com 30 metros de altura, que simbolizava a esperança de reunificação após a cimeira intercoreana de 2000, já não existe. 

A retórica subiu de tom e Kim falou de guerra, tendo dito que não deseja um conflito, mas que não tem “intenção de o evitar”. Para alguns observadores, como a investigadora Jenny Town, este discurso serve sobretudo para justificar o aprofundamento das relações militares com a Rússia. “Não se começa uma guerra quando se enviam grandes quantidades de munições e mísseis para outro país para o ajudar a travar uma guerra”, comentou ao The Washington Post


cesar.avo@dn.pt

Abril de 2018

Kim Jong-un disse sentir-se “envergonhado com as fracas infraestruturas de trânsito”. Este momento de franqueza, noticiado pela BBC, deu-se em diálogo com o então presidente do Sul Moon Jae-in, depois de este ter exprimido o seu desejo de ir ao Norte visitar o monte Paektu (o que acabou por acontecer cinco meses depois). A mais alta montanha da península faz parte da mitologia dos coreanos e terá sido o berço do pai e do avó de Jong-un.

Janeiro de 2021

Na abertura do congresso do Partido dos Trabalhadores (o único), 
Kim classificou os cinco anos anteriores como “sem precedentes” e o “pior dos piores” tempos para o país.

Junho de 2021

Meio ano depois, com o país ainda mais fechado devido à pandemia, Kim reconheceu que “a situação alimentar da população” estava “a tornar-se tensa”. O líder norte-coreano justificou as carências devido aos tufões do ano anterior.

Dezembro de 2023

Numa reunião com milhares de mães, Kim reconheceu uma crise demográfica ao dizer que é dever das mulheres ter mais filhos para “travar o declínio da taxa de natalidade”, que está em 1,79 numa população que ronda os 25 milhões.

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