Kamala Harris num comício no Nevada, um dos quatro em sete estados decisivos em que lidera as sondagens.
Kamala Harris num comício no Nevada, um dos quatro em sete estados decisivos em que lidera as sondagens.EPA/MOLLY PETERS

Kamala Harris joga cartada da saúde pessoal quando sondagens dão empate

A vice-presidente tenta apelar a diferentes públicos ao mostrar o contraste com Trump na sua relativa juventude, ao seduzir o voto dos conservadores e ao receber o apoio de Obama.
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Se as eleições presidenciais norte-americanas ocorressem através de uma eleição direta, a democrata Kamala Harris teria motivos para estar otimista. A mais recente sondagem a nível nacional, ao auscultar quase três mil eleitores registados, aponta para uma vantagem de três pontos percentuais em relação ao republicano Donald Trump, quando na semana anterior a mesma empresa, RMG, indicava um empate entre os candidatos. A realidade é outra e o que conta é o somatório dos votos para o colégio eleitoral pela vitória em cada um de 48 dos 50 estados e do distrito federal (em dois estados, Maine e Nebraska, o método de apuramento dos votos é diferente). O caminho para chegar ao número de 270 dos 538 votos eleitorais não é claro, apesar de Harris liderar em quatro dos sete estados decisivos. Ciente de que o escrutínio de 5 de novembro se vai decidir ao detalhe, a democrata fez uso nas últimas horas de Barack Obama, do apoio de republicanos e de uma declaração de saúde (“excelente”) do seu médico para marcar o contraste com o ex-presidente.

Conta o The Washington Post que o ânimo das duas campanhas não é exatamente igual, apesar do empate técnico. O diretor da estratégia de Trump, Chris LaCivita, reunido em Washington com apoiantes na quinta-feira, disse que os dados da campanha indicam que Harris já atingiu o patamar das preferências e declarou que o candidato irá conseguir 289 votos do colégio eleitoral, para gáudio dos presentes. Já a diretora da campanha da vice-presidente, Jen O’Malley Dillon, em chamada Zoom para três mil colaboradores, fez o ponto da situação, sem euforias: “Esta não vai ser uma corrida em que um dia acordamos e o sol brilha e as nuvens se dissipam e ganhamos por cinco pontos (...). Os nossos dados dizem-nos que estamos a ganhar e que vamos continuar na frente, mas pela pele dos dentes”, uma referência bíblica ao quão apertada está a corrida. 

Se o versículo de Job, do Antigo Testamento, aludia à sua extrema magreza, uma declaração do médico de Kamala Harris assegura que esta goza de “saúde excelente”. O documento, publicado no site da Casa Branca e assinado pelo médico do Exército Joshua Simmons, diz que a democrata, de 59 anos, “possui a resistência física e mental necessária para executar com êxito os deveres da presidência”. É a primeira vez que a vice-presidente divulga o seu estado clínico ao pormenor. O público em geral ficou a saber que a única operação a que foi submetida foi aos três anos, ao apêndice; que tem miopia ligeira e para tal usa lentes de contacto; que tem alergias sazonais e urticária, estando a receber tratamento de imunoterapia com alergénios. Um quadro clínico quase perfeito para os eleitores que se revelaram preocupados com a avançada idade de Joe Biden, 81, e de Donald Trump, 78.

A mais recente sondagem Gallup indicava que 41% dos norte-americanos vê no homem de negócios alguém demasiado idoso para ser presidente. A campanha de Trump respondeu de imediato, com o porta-voz Steven Cheung a afirmar que Trump tem “divulgado voluntariamente” informações do seu médico pessoal, bem como do profissional de saúde que o examinou após a tentativa de assassínio. “Todos concluíram que ele está em perfeita e excelente saúde”, disse Cheung. 

A cartada da idade e da saúde de Harris foi a mais recente iniciativa da campanha democrata depois de ter prometido a criação de um conselho consultivo com a presença de republicanos e levado o ex-presidente Obama a puxar pelo voto dos homens negros, acusados de “não estarem a aceitar a ideia de ter uma mulher como presidente”. Disse o primeiro presidente afro-americano: “Estão a pensar em ficar à margem ou apoiar alguém que tem um historial de vos denegrir porque acham que isso é um sinal de força, porque ser homem é isso? Desvalorizar as mulheres? Isso não é aceitável”, disse num comício na Pensilvânia. 

Junto com Michigan, Wisconsin e Nevada, a Pensilvânia é um dos sete estados decisivos onde as sondagens atribuem a liderança a Harris. Mas as margens são tão curtas que é melhor lembrar o que o especialista em sondagens Scott Rasmussen disse em 2020: “As sondagens são como um empregado de bar que continua a servir uísque a um cliente bêbado e fica surpreendido quando o cliente bate com o carro a caminho de casa.”

cesar.avo@dn.pt

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