A resposta do Irão aos pedidos do Paquistão para voltar à mesa das negociações e ao prolongamento do cessar-fogo por parte de Donald Trump foi alegar ter apreendido dois navios e o ataque a um terceiro, o culminar de um discurso de desafio e de descrédito aos Estados Unidos por parte de Teerão. Enquanto o presidente norte-americano continua otimista quanto à hipótese de Islamabad acolher de novo as delegações de ambos os países nas próximas horas, Teerão mantém que tal só acontecerá se os EUA levantarem o bloqueio naval aos seus portos. A Marinha dos Guardas da Revolução disse ter intercetado e transferido para águas territoriais iranianas duas embarcações por terem cometido violações no estreito de Ormuz. Os navios em questão são o MSC Francesca, do “regime sionista” e com pavilhão do Panamá, e o Epaminondas, com pavilhão da Libéria e operado por uma empresa grega. Ambos estavam, alegam os iranianos, a navegar sem autorização e a tentar sair do estreito de forma encoberta. A versão do Ministério da Marinha Mercante da Grécia é outra: “O navio [Epaminondas] não foi nem apresado nem confiscado”, esclareceu um porta-voz daquele ministério à agência EFE. Disse também que os danos causados são menores e que não se registaram ferimentos em consequência do ataque.Um terceiro navio, o porta-contentores Euphoria, também com bandeira liberiana, mas de uma empresa dos Emirados, também foi atacado, mas segundo fontes de segurança marítima citadas pela Reuters, não há danos a lamentar e o navio prosseguiu viagem. “Os iranianos estão a aumentar a aposta no estreito de Ormuz. E, de certa forma, estão a desafiar os norte-americanos”, considerou o analista militar Michael Clarke na Sky News.Consequência sentida de imediato foi o aumento do preço do petróleo, agora de novo transacionado acima dos 100 dólares por barril no mercado de referência, invertendo a tendência de queda. .Líbano vai pedir a Israel mais um mês de trégua.Além dos ataques iranianos aos navios, Teerão estará a conseguir romper o bloqueio dos EUA. Segundo o Financial Times, pelo menos 34 petroleiros furaram a imposição norte-americana em vigor desde dia 13. Com base em dados da empresa Vortexa, a notícia especifica que 19 petroleiros saíram do golfo Pérsico e 15 dirigiram-se para os portos iranianos. Estima-se em mais de 900 milhões de dólares o valor do petróleo exportado. Isto no dia em que Trump afirmou na rede Truth Social que o Irão “está a perder 500 milhões de dólares por dia” e, como tal, está a “colapsar financeiramente” - e, em consequência, quer “o estreito de Ormuz aberto de imediato”. Não é só o Irão que quer. O chefe da diplomacia de Itália, Antonio Tajani, em telefonema ao homólogo iraniano, Abbas Araghchi, disse ser “fundamental chegar rapidamente a um acordo sobre o cessar-fogo que garanta a reabertura do estreito de Ormuz e confirme o caráter exclusivamente civil do programa nuclear iraniano”. Enquanto a diplomacia paquistanesa reconheceu o “contratempo inesperado” que representou as delegações dos EUA e do Irão não terem decidido pela segunda ronda, Trump disse ao New York Post ser possível que as negociações recomecem tão cedo quanto esta sexta-feira. .“Reabrir o estreito de Ormuz é impossível com uma violação tão flagrante do cessar-fogo. Eles não alcançaram os seus objetivos através da agressão militar, nem o conseguirão através da intimidação.”Bagher Ghalibaf.O regime iraniano, contudo, não está em sintonia. Enquanto a propaganda reproduzia um filme produzido através de inteligência artificial com um Donald Trump impotente face à ausência iraniana na mesa das negociações (“um vídeo viral no Irão”, garante, quando os cidadãos estão sem acesso à internet há mais de 50 dias), o porta-voz da diplomacia voltava a dizer que o seu país ainda não tomou uma decisão sobre a participação numa segunda ronda diplomática. Esmaeil Baghaei aproveitou para afirmar que o Irão esteve de “boa-fé e com seriedade” na capital paquistanesa, mas que do outro lado houve “desrespeito e falta de boa-fé”. Bagher Ghalibaf, o chefe da delegação da reunião de 21 horas com J.D. Vance, insurgiu-se contra o bloqueio naval de que Washington não abdica, por considerar ser uma violação do cessar-fogo. E, em consequência, torna-se “impossível” reabrir o estreito por onde passa um quinto da produção de petróleo global.Quando esse momento acontecer, a normalização do tráfego não deverá ser imediata. Segundo um relatório do Pentágono partilhado com elementos de uma comissão da Câmara dos Representantes, a desminagem do estreito pode levar até seis meses, revelou o Washington Post.