"Hoje foi muito grave": novos áudios desmentem Red Eléctrica e mostram que risco de apagão já era conhecido
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"Hoje foi muito grave": novos áudios desmentem Red Eléctrica e mostram que risco de apagão já era conhecido

Gravações agora divulgadas indicam que técnicos alertaram para o risco de colapso três meses antes do incidente; provas contrastam com versão oficial de "imprevisibilidade".
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O discurso oficial de que o apagão total que paralisou a Península Ibérica a 28 de abril de 2025 foi um evento "imprevisível" está a ser confrontado com novos dados. De acordo com um pacote de gravações noticiados esta quarta-feira, 8 de março, pelo jornal espanhol El Mundo, a Red Eléctrica (REE) detinha informações sobre a vulnerabilidade extrema do sistema desde, pelo menos, janeiro do ano passado.

Os áudios, que fazem parte da "caixa negra" do sistema elétrico e foram agora entregues à comissão de inquérito do Senado, indicam que o operador ignorou sinais sistemáticos de instabilidade.

As gravações reveladas pelo diário espanhol remontam a 31 de janeiro de 2025. Nesse dia, uma oscilação de tensão forçou a central nuclear de Ascó a um limite crítico de desconexão. Nos áudios publicados pelo El Mundo, ouve-se um técnico do centro de controlo do operador admitir que a situação tinha sido "muito grave": "Hoy ha sido muy gordo", ouve-se no original.

A análise técnica interna registada nas chamadas aponta para uma dificuldade estrutural da rede em gerir o excesso de energia fotovoltaica face à redução da "geração pesada" (nuclear e gás), essencial para garantir a inércia e estabilidade do sistema. A 7 de abril, três semanas antes do "zero total", os registos captaram um novo aviso: "Em algum momento vamos bater [no limite]" numa referência direta ao risco de desmantelamento das centrais nucleares sem alternativas de compensação para manter a tensão na rede — um cenário que veio a concretizar-se pouco depois.

O contraste com a narrativa oficial

As provas áudio agora integradas no processo confrontam-se com os sucessivos depoimentos de Beatriz Corredor, presidente da Red Eléctrica, que até ao momento sustentou que o apagão resultou de falhas externas nas centrais privadas e que a programação do operador era a adequada. No entanto, os diálogos divulgados expõem uma discrepância profunda entre a gestão do mix energético e as necessidades sinalizadas pelos técnicos de operação em tempo real.

De acordo com os registos captados no centro de controlo, existia uma preocupação interna latente com a escassa margem de manobra do sistema, resultante da paragem de grupos térmicos decidida na programação do mercado diário. Este facto contraria a tese oficial de que a configuração do parque de geração não foi um fator determinante para o colapso. Além disso, as gravações documentam solicitações diretas dos técnicos para o reforço imediato de fontes de energia estáveis, como o gás e a nuclear, para compensar a volatilidade da produção solar — medidas que, segundo as transcrições do El Mundo, não foram concretizadas na escala necessária.

A divergência estende-se ainda ao diagnóstico público sobre o papel das energias renováveis na estabilidade da rede. Enquanto a narrativa institucional da REE e do governo espanhol afastou qualquer correlação entre a intermitência fotovoltaica e a falha sistémica, os diálogos técnicos descrevem um cenário de instabilidade recorrente. Nas chamadas, os operadores detalham o impacto da falta de inércia do sistema perante os picos de produção solar, o que terá deixado a rede vulnerável a variações de tensão que o operador não conseguiu mitigar.

Próximos passos no Senado e na Justiça

A comissão parlamentar foca-se agora no apuramento de responsabilidades quanto à gestão da informação. Segundo relata o portal Libertad Digital, a REE tentou inicialmente restringir o acesso aos 9000 arquivos da "caixa negra", alegando que a exposição pública dos dados técnicos era comparável a uma "autópsia criminal" que não deveria ser devassada.

Com a confirmação de que os sinais de instabilidade foram sistemáticos durante o primeiro trimestre de 2025, os grupos parlamentares e as associações de consumidores admitem que a responsabilidade civil e política pelo incidente deverá ser reavaliada. O apagão de abril resultou em prejuízos calculados em centenas de milhões de euros e afetou serviços críticos em todo o território ibérico.

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