Uma sondagem realizada aos eleitores húngaros revela resultados mistos sobre a eficácia da propaganda do governo nacionalista e populista de Viktor Orbán no que respeita aos seus alvos externos: os seus concidadãos rejeitam a ideia de que a União Europeia (UE) seja um adversário, e confiam mais nesta do que nas suas instituições; no entanto dividem-se quanto à Ucrânia. Feito nos últimos dias de março, o estudo de opinião mostra um número elevado de indecisos - quase um em cada cinco - no que toca às eleições legislativas de domingo. .Quem são os dois candidatos das eleições na Hungria.Os dirigentes europeus, o bilionário George Soros e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky figuram na lista de alvos de Budapeste, mas os primeiros são na realidade um tiro no pé de Orbán e do seu partido, Fidesz. A sondagem efetuada para o grupo de reflexão Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR) demonstra que uma esmagadora maioria dos magiares não só discorda da visão de que a UE é um perigo para o seu país, como se mostra eurófila. São 77% os húngaros favoráveis à permanência no clube europeu e 66% a quererem a troca do florim pelo euro. .91Por cento dos eleitores que se identificam com o partido da oposição Tisza querem mudanças na relação com a UE; opinião partilhada por 45% dos eleitores do Fidesz..Tão ou mais significativo: à pergunta até que ponto confia nas seguintes pessoas e instituições, a UE lidera com total confiança de 23% e parcial de 52%, seguido do poder judicial (9% e 61%, respetivamente), do candidato a primeiro-ministro Péter Magyar (19% e 38%) e em último Orbán, a recolher 17% de confiança total e 28% de alguma. Em consonância, uma maioria dos eleitores deseja uma nova política em relação a Bruxelas, com 43% a expressar vontade de uma grande mudança de abordagem e 25% a querer um ligeiro ajuste ao atual rumo. Ucrânia divideEm março, Orbán bloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros da UE a Kiev, isto apesar de o seu país, bem como a Chéquia e a Eslováquia, igualmente com executivos chefiados por populistas, terem ficado isentos de participarem no esforço financeiro. Foi mais um episódio das relações tensas entre o líder húngaro e a Ucrânia. .Podem as eleições de domingo ser o fim do “reinado” de 16 anos de Viktor Orbán na Hungria?.O início da crise pode ser apontado a 2018, quando Orbán, num gesto copiado da cartilha russa, acusou Kiev de discriminação aos cidadãos da minoria húngara da região ucraniana da Transcarpátia e começou a emitir passaportes. Durante a invasão russa, o governo húngaro manteve-se alinhado com Moscovo, recusando apoiar a Ucrânia. No ano passado, as relações diplomáticas conheceram acentuadas quedas, com a detenção de espiões húngaros, acusados de recolher informações sobre as defesas antiaéreas ucranianas, e com o início dos ataques ao oleoduto de Druzhba, que transita da Rússia pela Ucrânia e fornece a Hungria e a Eslováquia, ainda dependentes do petróleo russo. .5Por cento dos húngaros vê na Ucrânia um aliado e 26% um parceiro. Já 9% têm a Rússia como aliado e 37% como parceiro de Budapeste..A retórica antiucraniana resultou: se 34% defende uma mudança significativa de política quanto à Ucrânia, 32% quer que a mesma se mantenha; só 26% defende o apoio financeiro ao país vizinho e percentagem semelhante (27%) vê com bons olhos a sua adesão à UE; e 44% vê em Zelensky um bom líder e 42% um mau presidente. Tudo somado, não é de crer que, caso o europeísta Péter Magyar vença as eleições, se dê uma revolução nas suas relações externas. “De facto, no que diz respeito à Ucrânia, existe divisão e ceticismo entre os blocos de eleitores do Tisza [partido de Magyar] e do Fidesz sobre os méritos de futuros pacotes financeiros para Kiev e a aprovação da candidatura da Ucrânia à União Europeia”, comenta Piotr Buras, que chefia o escritório da ECFR em Varsóvia. “Isto sugere que Budapeste não se alinhará facilmente com todos os aspetos da política externa da UE, independentemente do resultado de domingo.”