"As Nações Unidas foram criadas para a paz e temos um problema com a paz. Quer dizer, eu gostaria de poder fazer o que puder, sabendo, e repito, que sou apenas uma voz, com o potencial de unir as pessoas, e ver se, até ao final do meu mandato, alguns dos conflitos mais dramáticos que temos hoje - no Médio Oriente, na Ucrânia, no Sudão - serão resolvidos.".As palavras de António Guterres, atual secretário-geral da ONU, em entrevista a um jornalista da agência de notícias russa TASS, a 28 de junho e divulgada esta terça-feira, são a única vez em que o português refere a Ucrânia especificamente ao longo dos 21 minutos do encontro com o diretor-adjunto daquele orgão do Estado russo, Mikhail Gusman - de acordo com a transcrição disponibilzada AQUI..Após estabelecer uma relação de proximidade com o entrevistador - "A última vez que nos encontrámos foi nas vésperas da pandemia", diz-lhe este a abrir a entrevista - toda a conversa decorre num tom informal, tocando pontos relevantes para o funcionamento das Nações Unidas e a forma como Guterres avalia a sua prestação.."Não tenhamos ilusões. O secretário-geral da ONU tem muito pouco poder – não como um chefe de Estado ou uma grande empresa – e não tem muito dinheiro", afirma António Guterres. "Mas o secretário-geral da ONU tem duas coisas: a primeira é uma voz. Mas esta voz só é importante quando é fiel à Carta das Nações Unidas e ao Direito Internacional e serve os desfavorecidos deste mundo, aqueles que são vítimas da desigualdade. Ao mesmo tempo, temos a capacidade de convocar, de unir pessoas de boa vontade para responder aos desafios do nosso tempo", acrescenta..Um desses desafios, faz questão de realçar, é a Inteligência Artificial. "Hoje o mundo inteiro fala em Inteligência Artificial. Têm havido diversas iniciativas de diferentes áreas, de diferentes campos e de diferentes partes do mundo. Eu consegui reunir 49 pessoas, do norte e do sul, homens e mulheres, e quando digo 49 pessoas, quero dizer pessoas de diferentes partes do mundo, Rússia, Estados Unidos, China, Israel, Brasil, todos em todo o mundo, para explorar como podemos criar alguma forma de governança onde a Inteligência Artificial funcione para o bem comum, em vez de ser um problema para o mundo, e o que a ONU pode fazer sobre isso", exemplificou.."Nenhuma outra organização no mundo pode reunir americanos, russos, chineses, israelitas, africanos, e muitos outros, e chegar a um acordo sobre a questão central do nosso tempo. É aqui que vejo o poder – não como força bruta, mas como o poder de unir pessoas de boa vontade e fazê-lo de acordo com os valores que sustentaram a ONU.".No entanto, reconhece Guterres, esta é uma organização que necessita de algumas reformas, que aumentem a eficácia. "Deixe-me ser honesto: não estou feliz com o que faço e com o que a ONU faz. Eu gostaria de fazer muito melhor e fazer muito mais", desabafa o atual secretário-geral. .Guterres começa por referir ter "imenso orgulho" no trabalho humanitário da sua organização, mas depois sublinha que "uma área em que a ONU poderia fazer muito melhor [é] nomeadamente a questão da paz".."Não há paz na Terra. É claro que uma das razões para isto são as diferenças geopolíticas e o equilíbrio de poder, que é menos claro do que antes", explica, em jeito de contextualização. "No entanto, temos de fazer muito melhor na questão da prevenção de conflitos, e então poderemos fazer muito mais após a sua resolução. Em particular, na criação de condições económicas e sociais, no domínio dos Direitos Humanos, para garantir a manutenção da paz alcançada. Infelizmente, vemos que em muitas partes do mundo é difícil não só resolver conflitos, mas também criar condições para garantir a justiça, a igualdade e o bem-estar das pessoas, para que a paz seja sustentável.".Guterres aceita em pleno a ideia de que o Conselho de Segurança, cuja estrutura resulta diretamente dos vencedores da II Guerra Mundial, necessita ser revisto, em especial porque "não há um único membro permanente de África" neste órgão. "É claro que será muito difícil mudar isso, mas temos de começar com algo sobre o qual seja possível chegar a um consenso. E hoje, com base no que ouço dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, acredito que é possível chegar a um consenso", afirma..Quanto à questão do veto - em que um voto contra de um dos membros permanentes impossibilita a aprovação de uma resolução, que é vinculativa - Guterres considera que este mecanismo "não desaparecerá em nenhuma circunstância". .Referindo alguns minutos depois, en passant, que tem esperança de ver os conflitos que mais o afligem "Médio Oriente, na Ucrânia, no Sudão" resolvidos antes de terminar o seu mandato (Guterres está a entrar "na segunda metade do seu segundo mandato", como lhe diz o entrevistador), chega a altura de falar de alterações climáticas.."Pela primeira vez, os cientistas afirmam que nos próximos anos é provável que excedamos 1,5 graus de aquecimento global, o que, evidentemente, não significa irreversibilidade", afirma Guterres nesta entrevista, em contraste com os recentes discursos que tem feito recentemente, em que tem utilizado expressões como "colapso e incêndio do planeta".."Não, quero dizer que a meta de 1,5 graus é uma meta de longo prazo. Se houver outro salto, precisaremos de fazer todos os esforços para que ele seja curto e reverta completamente a situação. Mas estamos num momento muito dramático da História", acrescenta, sublinhando a necessidade de que as medidas se tomem "no quadro da justiça climática, tendo em conta os interesses dos países em desenvolvimento que não contribuem para as alterações climáticas, mas que estão a sofrer grandemente".."Isto aplica-se às pequenas ilhas que registam a subida do nível do mar, bem como aos países africanos onde a seca está a ter um impacto devastador nas suas populações. Se conseguirmos tomar decisões que invertam a tendência das alterações climáticas, mas ao mesmo tempo respondam às necessidades dos países em desenvolvimento que estão a sofrer impactos dramáticos e que necessitam de recursos, este será um avanço significativo. Os países desenvolvidos devem assumir as suas responsabilidades e contribuir de forma mais eficaz para os desafios que os países em desenvolvimento enfrentam sob a pressão das alterações climáticas", afirma António Guterres aos microfones da agência russa TASS, fazendo questão de se despedir em russo..Governo russo usa entrevista como propaganda.A embaixada russa em Portugal utilizou esta terça-feira a entrevista de António Guterres nas redes sociais como forma de propaganda da sua posição face ao conflito perante a União Europeia relativamente à guerra na Ucrânia.."Devido às restrições introduzidas na União Europeia aos meios de comunicação russos, sobre as quais já escrevi anteriormente", pode ler-se num post atribuido ao embaixador da Rússia em Portugal, Mikhail Kamynin, "o público português não pôde ler a entrevista do seu compatriota secretário-geral da ONU, A. Guterres, ao primeiro vice-diretor da TASS M. Gusman como parte do projeto de TV Power Formula de 28 de junho (...) Ao mesmo tempo, vários tópicos interessantes foram abordados durante a conversa.".Prossegue o post: "Guterres falou sobre a importância do fortalecimento da legitimidade do Conselho de Segurança da ONU e da sua ampliação, em primeiro lugar, através da inclusão dum representante do Continente Africano. Neste contexto gostaria de sublinhar que a Rússia, juntamente com os parceiros dos BRICS, apoia uma reforma abrangente da ONU, o que foi declarado depois do encontro dos chefes da diplomacia do grupo em Nizhny Novgorod no dia 10 de junho.".Leia a nota completa aqui: