A derrota de Giorgia Meloni no referendo de segunda-feira sobre uma proposta de reforma do sistema judicial italiano já levou à queda de dois altos funcionários do Ministério da Justiça. No entanto, a primeira-ministra italiana viu a titular da pasta do Turismo, a quem pediu que se demitisse, resolver manter-se em funções, desafiando a autoridade de Meloni, tendo acabado por capitular ao final desta quarta-feira, 25 de março. Em comum, os três alvos desta remodelação têm o facto de estarem a braços com problemas judiciais, o que está a ser visto por vários analistas como uma forma de Meloni tentar conter os danos políticos da derrota no referendo e mostrar que o seu poder não foi abalado por este mau resultado. A oposição acusa a primeira-ministra de encontrar “bodes expiatórios fáceis” para os seus erros.O subsecretário da Justiça, Andrea Delmastro Delle Vedove, do Irmãos de Itália (o partido de Meloni), demitiu-se na terça-feira depois de na semana passada ter vindo a público que investiu num restaurante em Roma com a filha de um condenado por ligações à Camorra, a máfia de Nápoles. Delmastro garantiu ter vendido a sua participação assim que soube que o pai da sua sócia, Mauro Caroccia, tinha sido condenado por acusações relacionadas com a máfia. No entanto, veio também a público uma fotografia de 2023 em que aparece ao lado de Caroccia, o que sugere que os dois se conheciam. Segundo o Politico, Delmastro já havia sido condenado no início da legislatura por ter divulgado segredos oficiais. “Sempre combati o crime e obtive resultados concretos e importantes. Embora não tenha feito nada de errado, cometi um erro de julgamento, que corrigi assim que tomei consciência dele. Assumo a responsabilidade por isso”, disse em comunicado.A outra baixa é a chefe de gabinete do Ministério da Justiça e ex-deputada Giusi Bartolozzi, que enfrenta acusações criminais por um alegado encobrimento envolvendo um senhor da guerra líbio, Usama al-Masriī Nagim, detido no ano passado com base num mandado do Tribunal Penal Internacional e posteriormente levado de Roma. Giorgia Meloni aceitou as demissões e, naquilo que foi considerado surpreendente pelos media italianos, pediu à ministra do Turismo, Daniela Santanchè, “que fizesse a mesma escolha” alegando “sensibilidade institucional” após o resultado do referendo e da investigação do Ministério Público de Milão às suas antigas empresas.Mas Santanchè, senadora do Irmãos de Itália a quem foi ordenado no ano passado que comparecesse a julgamento por acusações de falsificação contabilística num grupo editorial de que era dona, parece ter decidido não acatar o pedido de Meloni, tendo, segundo a Ansa, cumprido esta quarta-feira a sua agenda de trabalho. No entanto, ao final do dia, depois de ter sido pressionada pelo partido e pelo gabinete da primeira-ministra, acabou por apresentar a sua demissão. “Cara Giorgia, apresento-lhe, conforme oficialmente solicitado, a minha demissão do cargo de ministra que me confiou e que acredito ter desempenhado da melhor forma possível e sem quaisquer irregularidades”, escreveu Santanchè na sua carta de demissão, afirmando que “até ao momento o meu registo criminal é imaculado”.A agora ex-ministra explicou ainda a sua demora, dizendo que “queria que a minha demissão fosse separada da situação contingente e muito diferente que envolve o honorável Delmastro”. “Tendo esclarecido isto, não tenho dificuldade em dizer ‘obedeço’ e fazer o que me pedem”, prosseguiu, não escondendo “um pouco de amargura pelo desfecho do meu percurso ministerial”..Derrota de Meloni: italianos rejeitam reforma da justiça em referendo.O referendo que pode beliscar a imagem de Meloni