Os eleitores da Geórgia vão hoje às urnas para votar numas eleições legislativas que irão determinar se o país prosseguirá o seu caminho de adesão à União Europeia ou se o seu foco se virará para as relações com Moscovo. A presidente Salome Zourabichvili, uma pró-Ocidente, considera estas eleições um referendo para uma “Geórgia europeia, democrática e independente, ou uma Geórgia liderada por uma Rússia autoritária e isolada”, lembrando que as sondagens apontam que mais de 80% da população é a favor da entrada na UE..O governo do Sonho Georgiano, partido que chegou ao poder há 12 anos com uma agenda pró-Ocidente, apresentou o pedido de adesão à UE em março de 2022, pouco depois de a Rússia invadir a Ucrânia, e tornou-se um país candidato em dezembro. Mas desde então, e como referiu Bruxelas em setembro, Tbilisi “perdeu o rumo” e “afastou-se” do bloco, com uma aproximação ao Kremlin e uma intensificação de políticas anti-europeístas e anti-liberais. “É evidente que, com a lei dos agentes estrangeiros e outras séries de acontecimentos, a Geórgia perdeu o rumo e afastou-se da União Europeia”, declarou o diretor-geral da Política de Vizinhança e Negociações de Alargamento, Gert Jan Koopman. Desde então já aprovaram uma lei anti-direitos LGBT, que também mereceu as críticas de Bruxelas. .Agora o Sonho Georgiano, fundado e liderado pelo oligarca Bidzina Ivanishvili, pretende alargar a sua maioria no Parlamento, tendo argumentado durante a campanha que estas eleições são uma escolha entre a paz ou a guerra, garantindo que se a oposição chegar ao poder arrastará a Geórgia para uma guerra contra a Rússia. Neste momento, têm 76 dos 150 deputados e pretendem conseguir uma maioria constitucional de 113 eleitos. .Se conseguir este objetivo, o que as sondagens mostram que deverá ser improvável, o Sonho Georgiano pretende avançar com um processo de destituição da presidente Salome Zurabishvili - apesar de admitirem o caráter simbólico do ato pois o seu mandato termina este ano -, mas também reforçar as leis anti-LGBT e banir todos os principais partidos da oposição, que considera responsáveis por provocar a guerra de 2008 contra a Rússia e por tentar arrastar o país novamente para a guerra. .O mais forte adversário do Sonho Georgiano é o Unidade Para Salvar a Geórgia, uma coligação liderada pelo antigo partido no poder, o Movimento Nacional Unido (UNM), do ex-presidente (entretanto detido) Mikheil Saakashvili, seguido da Coligação pela Mudança, composto em grande parte por antigas figuras do UNM, e também do Geórgia Forte, uma coligação que tentou posicionar-se como estando longe do ENM e do Sonho Georgiano. A oposição conta ainda com o Para a Geórgia, liderado por Giorgi Gakharia, primeiro-ministro entre 2019 e 2021, mas que, entretanto, se desligou do partido no poder. .Todos consideram que a prioridade é afastar o Sonho Georgiano do poder e todos assinaram um documento proposto pela presidente Salome Zurabishvili, a que chamaram Carta da Geórgia. Com este documento comprometem-se, em caso de vitória, a formarem um governo tecnocrata que irá restaurar as boas relações com o Ocidente e revogar as leis mais autoritárias do Sonho Georgiano..“Hoje, os eleitores parecem estar mais conscientes do que nas eleições anteriores sobre as intenções do partido no poder e o desejo da Rússia de manter influência no país. Mas serão os próximos resultados eleitorais que revelarão se a campanha de influência de Moscovo deixará uma marca duradoura no futuro político da Geórgia ou se a nação conseguirá seguir o seu verdadeiro sonho de integração ocidental”, defende Eto Buziashvili, investigadora do think tank Atlantic Council especialista em Europa de Leste e Rússia. .Outras eleições.Os búlgaros vão às urnas amanhã pela sétima vez em três anos para tentar eleger o governo deste país da UE. A Bulgária vive uma crise política desde o cessar de funções do governo de Boyko Borisov, do partido de centro-direita GERB, em abril de 2021, e que teve um mandato com inúmeros escândalos de corrupção, relacionados com fundos europeus e subsídios estatais. Nas seis eleições levadas a cabo desde então apenas duas resultaram na formação de governo - novembro de 2021 (as terceiras) e abril de 2023 (as quintas) -, mas em ambos os casos as coligações acabaram por cair depois de tentarem implementar reformas, combater a corrupção e reduzir a dependência da Rússia. Nas últimas eleições, em junho, não houve um claro vencedor e os sete partidos eleitos para o Parlamento falharam um entendimento. De acordo com a AP, “as sondagens preveem que o cansaço dos eleitores e a desilusão com o sistema político resultarão numa baixa participação e noutro parlamento fragmentado, onde grupos populistas e pró-Rússia poderão aumentar a sua representação”. Amanhã realiza-se a segunda volta das legislativas lituanas, com uma disputa entre o partido de centro-direita TS-LKD da atual primeira-ministra, Ingrida Simonyte, e o Partido Social-Democrata da Lituânia (LSDP), de centro-esquerda, liderado pela eurodeputada Vilija Blinkeviciute, que conseguiu mais votos (19,32%) na primeira volta. Independentemente de quem ganhar nesta segunda volta, não é esperado que a política externa deste país da União Europeia e da NATO sofra grandes mudanças, pois quase todos os partidos reafirmaram durante a campanha o seu apoio à Ucrânia, invadida pela Rússia há dois anos, e com um gasto de pelo menos 3% do orçamento na área da Defesa em 2025..ana.meireles@dn.pt