Os dois ativistas portugueses detidos pelas autoridades israelitas por participarem na flotilha humanitária que pretendia chegar à Faixa de Gaza chegaram esta sexta-feira, 22 de maio, a Portugal.Aplausos e a frase "free Palestine" ("Palestina livre") ouviam-se no momento em que os dois médicos, Maria Beatriz Bartilotti Matos e Gonçalo Reis Dias, chegaram esta manhã ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, onde os esperavam familiares e amigos. Denunciaram maus tratos das forças israelitas durante o tempo em que estiveram detidos, juntamente com os outros ativistas que participavam na missão Sumud Global Flotilla."Foi horrível. A violência foi muito gratuita. Estivemos presos alguns dias num barco. Havia dois barcos. No nosso barco, havia duas pessoas que foram baleadas (...), batiam-nos, havia muita violência psicológica também", relatou Gonçalo Reis Dias aos jornalistas no local.O ativista recorda que foram 72 horas "pesadas". "Sofremos, mas comparado com algumas pessoas, tivemos sorte. Bateram-me, amarraram as algemas com muita força, anda não sinto este três dedos. Deram cotoveladas, pontapés...", lembra. À chegada ao aeroporto do Porto, Maria Beatriz Bartilotti Matos destacou que a "solidariedade com o povo da Palestina não acontece todos os dias". "Têm de ser pessoas de todo o mundo - apesar de tudo somos muito privilegiados - a chamar novamente a atenção para o que está a acontecer em Gaza, na Cisjordânia".Maria Beatriz Bartilotti Matos contou que foi agredida fisicamente durante o tempo em que esteve detida, mas afirmou que existiram casos mais graves. "Houve pessoas que foram alvejadas, espancadas... com membros partidos", contou.Questionada sobre se voltava a participar numa flotilha rumo a Gaza, a ativista portuguesa respondeu: "Voltava e vamos voltar a fazer enquanto o Estado de Israel" continuar com "as atrocidades".Recorde-se que no início da semana as forças de Israel intercetaram, em águas internacionais, cerca de 50 barcos da flotilha humanitária Global Sumud, que tentavam chegar à Faixa de Gaza com cerca de 430 ativistas a bordo. .Seguro fala em "humilhações públicas" que merecem "total repúdio e condenação" Na segunda-feira, o Governo português convocou o embaixador israelita em Lisboa para protestar contra a detenção dos dois ativistas portugueses, que integravam a flotilha, por ter sido feita em águas internacionais, “em violação do Direito internacional”.A detenção foi marcada pela divulgação de um vídeo do ministro da Segurança Nacional israelita, Itamar Ben Gvir, que mostra o governante a humilhar dezenas de ativistas detidos. Um comportamento que chegou a ser criticado pelo próprio primeiro-ministro israelita. Numa mensagem publicada nas redes sociais, Benjamin Netanyahu considerou que "a forma como o ministro lidou com os ativistas da flotilha não está de acordo com os valores e normas de Israel". . As imagens geraram uma onda de indignação de vários países, entre os quais Portugal, e a condenação da União Europeia, que classificou como "completamente inaceitável" o tratamento dado aos ativistas da flotilha para Gaza detidos por Israel."Portugal condena veementemente o comportamento intolerável do ministro israelita Ben Gvir e o tratamento infligido aos ativistas da flotilha em humilhante violação da dignidade humana", declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros português, tutelado por Paulo Rangel. .Onda de indignação após ministro israelita liderar humilhação a ativistas da flotilha que iria para Gaza.Já o primeiro-ministro, Luís Montenegro, considerou que se tratava de "uma situação absolutamente inaceitável". "No âmbito da União Europeia, Portugal já tem manifestado a sua disponibilidade para uma suspensão parcial do acordo com Israel e veremos nos próximos encontros se há alguma evolução nesse domínio", disse, na quarta-feira, o chefe do Governo português. Nesse dia, o Presidente da República, António José Seguro, recebeu as famílias dos médicos portugueses que seguiam a bordo da flotilha, sendo que no final do encontro a irmã de um desses ativistas revelou que o chefe de Estado "manifestou total empenho no regresso" de ambos.Na quinta-feira, Seguro condenou "humilhações públicas de seres humanos e tratamentos indignos que merecem total repúdio e condenação". A posição do chefe de Estado foi conhecida durante o discurso que proferiu no encerramento de uma conferência sobre Portugal e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, no Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa. Logo a seguir, na sua intervenção, António José Seguro considerou que há "países que foram berço de direitos humanos" que agora "avançam por caminhos que contradizem a obra que edificaram, que ignoram os seus valores fundacionais, que se deixam contagiar por tentações populistas, discriminatórias e persecutórias da dignidade humana"."Em casos extremos, violam as regras de modo assumido, sem qualquer pudor, ridicularizando as organizações internacionais que zelam pela sua aplicação e das quais foram eles próprios fundadores", acrescentou o chefe de Estado, que não nomeou nenhum país.Com Lusa .Presidente da República saúda regresso de detidos por Israel e condena "humilhações públicas".Montenegro defende suspensão parcial do acordo comercial entre a UE e Israel após humilhação de ativistas da flotilha