Os ativistas portugueses Gonçalo Reis Dias e Maria Beatriz Bartilotti Matos à chegada ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto
Os ativistas portugueses Gonçalo Reis Dias e Maria Beatriz Bartilotti Matos à chegada ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto JOSÉ COELHO/LUSA

"Foi horrível. Batiam-nos, havia muita violência psicológica". Portugueses detidos por Israel já estão em Portugal

Gonçalo Reis Dias e Maria Beatriz Bartilotti Matos são os dois portugueses que participaram na missão Sumud Global Flotilla, que pretendia chegar a Gaza. Denunciam maus tratos por parte das forças israelitas.
Publicado a

Os dois ativistas portugueses detidos pelas autoridades israelitas por participarem na flotilha humanitária que pretendia chegar à Faixa de Gaza chegaram esta sexta-feira, 22 de maio, a Portugal.

Aplausos e a frase "free Palestine" ("Palestina livre") ouviam-se no momento em que os dois médicos, Maria Beatriz Bartilotti Matos e Gonçalo Reis Dias, chegaram esta manhã ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, onde os esperavam familiares e amigos. Denunciaram maus tratos das forças israelitas durante o tempo em que estiveram detidos, juntamente com os outros ativistas que participavam na missão Sumud Global Flotilla.

"Foi horrível. A violência foi muito gratuita. Estivemos presos alguns dias num barco. Havia dois barcos. No nosso barco, havia duas pessoas que foram baleadas (...), batiam-nos, havia muita violência psicológica também", relatou Gonçalo Reis Dias aos jornalistas no local.

O ativista recorda que foram 72 horas "pesadas". "Sofremos, mas comparado com algumas pessoas, tivemos sorte. Bateram-me, amarraram as algemas com muita força, anda não sinto este três dedos. Deram cotoveladas, pontapés...", lembra.

À chegada ao aeroporto do Porto, Maria Beatriz Bartilotti Matos destacou que a "solidariedade com o povo da Palestina não acontece todos os dias". "Têm de ser pessoas de todo o mundo - apesar de tudo somos muito privilegiados - a chamar novamente a atenção para o que está a acontecer em Gaza, na Cisjordânia".

Maria Beatriz Bartilotti Matos contou que foi agredida fisicamente durante o tempo em que esteve detida, mas afirmou que existiram casos mais graves. "Houve pessoas que foram alvejadas, espancadas... com membros partidos", contou.

Questionada sobre se voltava a participar numa flotilha rumo a Gaza, a ativista portuguesa respondeu: "Voltava e vamos voltar a fazer enquanto o Estado de Israel" continuar com "as atrocidades".

Recorde-se que no início da semana as forças de Israel intercetaram, em águas internacionais, cerca de 50 barcos da flotilha humanitária Global Sumud, que tentavam chegar à Faixa de Gaza com cerca de 430 ativistas a bordo.

Seguro fala em "humilhações públicas" que merecem "total repúdio e condenação"

Na segunda-feira, o Governo português convocou o embaixador israelita em Lisboa para protestar contra a detenção dos dois ativistas portugueses, que integravam a flotilha, por ter sido feita em águas internacionais, “em violação do Direito internacional”.

A detenção foi marcada pela divulgação de um vídeo do ministro da Segurança Nacional israelita, Itamar Ben Gvir, que mostra o governante a humilhar dezenas de ativistas detidos. Um comportamento que chegou a ser criticado pelo próprio primeiro-ministro israelita. Numa mensagem publicada nas redes sociais, Benjamin Netanyahu considerou que "a forma como o ministro lidou com os ativistas da flotilha não está de acordo com os valores e normas de Israel".

As imagens geraram uma onda de indignação de vários países, entre os quais Portugal, e a condenação da União Europeia, que classificou como "completamente inaceitável" o tratamento dado aos ativistas da flotilha para Gaza detidos por Israel.

"Portugal condena veementemente o comportamento intolerável do ministro israelita Ben Gvir e o tratamento infligido aos ativistas da flotilha em humilhante violação da dignidade humana", declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros português, tutelado por Paulo Rangel.

Os ativistas portugueses Gonçalo Reis Dias e Maria Beatriz Bartilotti Matos à chegada ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto
Onda de indignação após ministro israelita liderar humilhação a ativistas da flotilha que iria para Gaza

Já o primeiro-ministro, Luís Montenegro, considerou que se tratava de "uma situação absolutamente inaceitável". "No âmbito da União Europeia, Portugal já tem manifestado a sua disponibilidade para uma suspensão parcial do acordo com Israel e veremos nos próximos encontros se há alguma evolução nesse domínio", disse, na quarta-feira, o chefe do Governo português.

Nesse dia, o Presidente da República, António José Seguro, recebeu as famílias dos médicos portugueses que seguiam a bordo da flotilha, sendo que no final do encontro a irmã de um desses ativistas revelou que o chefe de Estado "manifestou total empenho no regresso" de ambos.

Na quinta-feira, Seguro condenou "humilhações públicas de seres humanos e tratamentos indignos que merecem total repúdio e condenação". A posição do chefe de Estado foi conhecida durante o discurso que proferiu no encerramento de uma conferência sobre Portugal e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, no Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa.

Logo a seguir, na sua intervenção, António José Seguro considerou que há "países que foram berço de direitos humanos" que agora "avançam por caminhos que contradizem a obra que edificaram, que ignoram os seus valores fundacionais, que se deixam contagiar por tentações populistas, discriminatórias e persecutórias da dignidade humana".

"Em casos extremos, violam as regras de modo assumido, sem qualquer pudor, ridicularizando as organizações internacionais que zelam pela sua aplicação e das quais foram eles próprios fundadores", acrescentou o chefe de Estado, que não nomeou nenhum país.

Com Lusa

Os ativistas portugueses Gonçalo Reis Dias e Maria Beatriz Bartilotti Matos à chegada ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto
Presidente da República saúda regresso de detidos por Israel e condena "humilhações públicas"
Os ativistas portugueses Gonçalo Reis Dias e Maria Beatriz Bartilotti Matos à chegada ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto
Montenegro defende suspensão parcial do acordo comercial entre a UE e Israel após humilhação de ativistas da flotilha
Diário de Notícias
www.dn.pt